Repórteres sem Fronteiras anuncia programa de apoio a mídias independentes brasileiras

A OnG Repórteres sem Fronteiras, por meio do Programa de Apoio ao Jornalismo (PAJor), anunciou que apoiará durante três anos uma rede de oito veículos independentes de comunicação brasileiros. O projeto reúne organizações de quatro estados: Amazônia Real e Rede Wayuri (Amazonas), Ação Comunitária Caranguejo Uçá e Marco Zero Conteúdo (Pernambuco), Data_labe e Fala Roça (Rio de Janeiro), e Alma Preta e Nós, mulheres da periferia (São Paulo).

Segundo a entidade, os veículos selecionados vêm exercendo papel decisivo na mobilização em torno da defesa dos direitos humanos e na divulgação da cultura periférica, representando a garantia do direito à informação para camadas da população que estão à margem dos processos de comunicação hegemônicos. Entretanto, esse trabalho, de acordo com a RSF, vem trazendo como contrapartida um clima de insegurança para os jornalistas, uma vez que a polarização do debate político no País tornou seus comunicadores alvo recorrente de ameaças, assédio digital e agressões físicas.

“Na última década, mais de 40 jornalistas foram assassinados no Brasil”, ressalta Emmanuel Colombié, diretor do escritório para a América Latina da RSF. “O que vemos hoje é um ambiente cada vez mais hostil à prática do jornalismo. Comunicadores são frequentemente ameaçados e assediados por estarem realizando seu trabalho, afetados diretamente por um discurso oficial por parte do governo que estigmatiza a profissão”.

Para combater essa situação, o PAJor seguirá uma lógica de colaboração e apoiará os veículos na elaboração de protocolos de segurança digital e física. Também serão promovidas oficinas sobre desenvolvimento institucional e sustentabilidade financeira, voltadas para o fortalecimento de cada mídia enquanto organização. O debate sobre liberdade de expressão será transversal aos três anos de projeto, com a realização de rodas de conversas e conferências sobre o tema. O programa prevê ainda intercâmbios entre os grupos participantes e a produção de reportagens em parceria.

O Programa de Apoio ao Jornalismo faz parte da iniciativa internacional Defending Voices, desenvolvida em parceria com a Repórteres sem Fronteiras Alemanha e financiada pelo Ministério da Cooperação e Desenvolvimento alemão. A iniciativa também inclui um braço de atuação no México, organizado pela ONG Propuesta Cívica. Brasil e México, a propósito, são dois dos países mais perigosos para se praticar jornalismo no continente americano. O México ocupa a 143ª posição, enquanto o Brasil está em 107ª entre os 180 países listados no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa publicado em 2020 pela RSF.

Conheça os projetos apoiados pelo PAJor:

  • Ação Comunitária Caranguejo Uçá: Desde 2002, a organização atua na Ilha de Deus, comunidade da grande Recife, reivindicando direitos básicos como acesso a educação e serviços de saúde. Comunica suas demandas por meio de uma rádio comunitária, de um telejornal exibido via internet e emissora pública, e ainda promove ações culturais ligadas a cinema, teatro e música.
  • Alma Preta: Agência especializada na temática racial no Brasil. Fundada em 2015, produz reportagens, colunas, análises, audiovisuais e ilustrações, e ainda divulga eventos da comunidade afro-brasileira. Tem como objetivo construir um formato de gestão de processos, pessoas e recursos por meio de um jornalismo que evidencie as desigualdades de raça.
  • Amazônia Real: Agência voltada à democratização e ao acesso à comunicação na Amazônia, a partir da valorização de grupos sociais que estão na invisibilidade ou de temas poucos explorados na mídia nacional. Desde 2013, produz reportagens, artigos, infográficos, fotografias e vídeos/documentários sobre temas como proteção ambiental; mudanças climáticas; povos indígenas e tradicionais; conflitos agrários; política; economia; migrações; e defesa dos direitos humanos, das crianças, dos adolescentes e das mulheres.
  • Data_labe: Laboratório que trabalha paralelamente com jornalismo; formação; monitoramento e geração cidadã de dados. Nasceu em 2015 na favela da Maré e desenvolve reportagens, consultorias, relatórios analíticos, oficinas e eventos que levam em conta as potências e complexidades dos territórios populares e de seus moradores.
  • Fala Roça: Jornal feito por e para moradores da Rocinha, favela carioca considerada a maior do Brasil. Criada em 2013, a publicação trabalha questões de identidade, representatividade, cultura e direitos humanos através da comunicação. Ampliou sua produção com narrativas em vídeo, sempre buscando combater visões estereotipadas do território.
  • Marco Zero Conteúdo: Organização de Recife, fundada em 2015, que aposta na produção de conteúdo que dê destaque a temas de interesse público invisibilizados pela grande mídia. Aborda questões relacionadas a direitos humanos, democracia, identidade, gênero e direito à cidade. Suas pautas contemplam ainda grupos de territórios periféricos, ao falar sobre a perda de direitos, a violência praticada por agentes públicos e ao acompanhar demandas como o direito à moradia e à livre manifestação.
  • Nós, mulheres da periferia: Coletivo jornalístico formado por mulheres da periferia de São Paulo. Lançou-se como portal de notícias em 2014 e hoje atua nas mais diferentes plataformas de comunicação. Sua meta é construir narrativas mais humanas e contextualizadas, dialogando com a tríplice gênero, raça e classe social, tendo a periferia como território e suas moradoras como protagonistas.
  • Rede Wayuri: Iniciativa que surgiu em 2017 a partir da necessidade de melhorar a comunicação e a circulação de notícias na região do Rio Negro. Mensalmente, a rede publica boletins de áudio feitos com a participação de comunicadores dos diversos territórios indígenas que fazem parte da região. Os boletins são, por muitas vezes, gravados nas línguas originais dos comunicadores e traduzidos para o português.

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