Por Luciana Gurgel

Luciana Gurgel

A família real britânica não é a única no mundo − real ou não − a ver tensões latentes emergirem quando um ente querido se vai.

No matriarcado de Elizabeth II, a passagem do príncipe consorte em meio à crise desencadeada pelo rompimento do neto Harry com a família fez com que discordâncias e infortúnios ficassem mais expostos.

E mais uma vez confirmou-se a dificuldade de a comunicação controlar a repercussão de cada movimento na era das mídias sociais.

A morte de Philip era esperada, pois tinha 99 anos e andava adoentado. Ele mesmo desenhou o Land Rover que vai levar seu caixão. Tudo foi planejado sob a Operação Forth Bridge.

(Crédito: Getty Images)

Aí vem a realidade para lembrar que nem tudo pode ser previsto. A começar pelas reações de uma sociedade que não idolatra mais seus nobres incondicionalmente.

O roteiro de comunicação começou perfeito. No primeiro dia, a nota oficial  afixada nas grades do Palácio de Buckingham em estilo medieval.

No sábado, o herdeiro do trono dá um depoimento emocionado usando uma expressão que ganhou as manchetes pela ternura: “my papa”.

Para quem viu a série The Crown, em que Philip foi retratado como pai crítico do primogênito Charles, o papel de filho amoroso pode não ter convencido. Mas nada garante que a série seja fiel, ou que na velhice a ternura não tenha aflorado.

No dia seguinte, os filhos mais jovens deram declarações em tom pessoal. Ninguém duvida dos sentimentos dos filhos. Mas em uma família apelidada de “a firma”, é de se supor que cada fala tenha passado pelo crivo do QG da Forth Bridge.

Nessa etapa, um detalhe pode ter passado despercebido. Sempre que Sophie − tida como a nora preferida da rainha, cara-metade do único filho de Elizabeth que não se divorciou − aparecia diante das câmeras, havia uma jovem ao fundo.

Era Lady Louise Windsor, 17 anos, que não parecia estar ali por acaso. Olhos de RP treinados talvez concordem que foi quase um “product placement”, lançando um personagem capaz de agregar admiradores em uma família que precisa deles para substituir figuras desgastadas.

Ou teria sido uma ideia da mãe, que aproveitou os holofotes para apresentar a versão quase-adulta da filha fora do controle dos assessores? Façam suas apostas.

Mas nem tudo foi doçura. Mesmo na comoção pela dor da rainha, a aparição do príncipe Andrew foi alvo de controvérsia.

O filho caçula do Duque de Edinburgh caiu em desgraça pela amizade com o pedófilo Jeffrey Epstein, que o obrigou a deixar suas funções “na firma”.

A BBC acabou engolfada na polêmica. Em três dias, bateu recorde histórico de reclamações (mais de 100 mil) pela sua cobertura, considerada exagerada porque paralisou a programação para dar lugar a comentários e documentários.

E um dos motivos da ira do público foi o espaço dado a Andrew, que para muitos não se justificou nem no luto.

Mas o clímax ainda estava por vir. Provavelmente conforme o roteiro, na segunda-feira foi a vez da nota do neto mais velho, segundo na linha de sucessão. O príncipe William soltou um comunicado enaltecendo “os anos de serviço público” do avô e assegurando que seguiria cumprindo a missão de servir ao país.

Nobre, se não fosse um detalhe que algum assessor não previu: alguém se sentiu atingido. E este alguém foi o irmão Harry, que deixou as funções oficiais, bandeou-se para os EUA e não parece estar sendo perdoado nem no luto.

Três minutos depois da nota de William, o caçula soltou pelas redes uma declaração carinhosa sobre o avô, chamando-o de “lenda do churrasco”. Foi interpretada por meio mundo como uma resposta e um posicionamento.

As imagens transmitidas foram a do neto “da obrigação” e a do neto “do amor”. Ou a de um William que nem no luto perdeu a chance de alfinetar o irmão.

Pode não ser nada disso. Mas nesse mundo, o que vale é a percepção, difícil de ser prevista e administrada até pelos comandantes de uma planejada operação de comunicação.

Veja em MediaTalks uma análise sobre como a imprensa britânica cobriu a morte do príncipe Philip e a polêmica em torno da cobertura da BBC, objeto de reclamações de todos os tipos.

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