Morre Nelson Hoineff e deixa registrada parte da história da TV no Brasil

Nelson Hoineff

Por Cristina Vaz de Carvalho, editora de J&Cia no Rio de Janeiro

Nelson Hoineff morreu na manhã de 15/12, aos 71 anos, de complicações decorrentes de diabetes. O enterro foi no dia seguinte, no Cemitério Israelita do Caju, no Rio de Janeiro. Hoineff deixou o legado de um dos mais importantes nomes do audiovisual brasileiro, fosse como diretor de TV, produtor e diretor de cinema.

Ele começou no jornalismo impresso. Foi editor executivo do Jornal do Brasil e passou, como editor, redator, colunista ou articulista, por veículos como Veja, O Globo, Folha de S.Paulo, Bravo, Última Hora, Diário de Notícias, O Jornal, O Cruzeiro, Observatório da Imprensa, entre muitos outros. Por último, no JB e no Observatório, publicou mais de 800 artigos sobre televisão, políticas do audiovisual e cultura brasileira.

Como crítico de cinema, atuou desde os anos 1960 em O Jornal, Diário de Notícias, Última Hora, O Cruzeiro, Manchete, Filme Cultura, O Globo, IstoÉ, Veja, A Notícia, O Dia, Jornal do Brasil e site criticos.com, entre outros. Foi crítico e correspondente no Brasil da Variety, dos EUA. No início da carreira, teve passagem pela imprensa esportiva, como repórter, redator e editor de esportes em O Jornal e Última Hora, para o qual cobriu a Copa do Mundo de 1974. Nesses veículos e em outros, foi editor de cultura, editor internacional, secretário de Redação e editor-chefe.

Especializou-se em HDTV e novas tecnologias de distribuição de TV em Nova York, onde fez mestrado e doutorado. Em Tóquio, estagiou na produção de conteúdo em HDTV analógico na NHK, em 1988.

Uma vez na televisão, dirigiu o Departamento de Programas Jornalísticos da Manchete e foi diretor de programas jornalísticos em SBT, Bandeirantes, GNT, TV Cultura e TVE do Rio. Entre as séries e programas que dirigiu destaca-se o Documento especial, premiado no Brasil, em Monte-Carlo e Berlim. Foi ao ar em três redes abertas, na Manchete, de 1989 a 1992; no SBT, de 92 a 95; e na Band, de 96 a 97. Entre 2008 e 2010, cerca de 80 programas – de um total de 430 que produziu – foram reprisados pelo Canal Brasil. Também dirigiu Primeiro plano, no GNT e depois na Cultura, sobre as vanguardas artísticas brasileiras; o Programa de domingo, na Manchete; Realidade, na Band; Curto-circuito, na TVE, e inúmeras séries, entre as quais Celebridades do Brasil, As chacretes e Vanguardas¸ todas no Canal Brasil.

Atuante nas entidades de classe, foi um dos fundadores e, por quatro vezes, presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro e cofundador da Associação Brasileira de Produtores Independentes de Televisão, da qual foi vice-presidente por duas gestões. Participou ainda da fundação do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro, foi membro do Conselho Consultivo da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, do Conselho Superior de Cinema da Presidência da República e do Conselho Consultivo do Sistema Brasileiro de TV Digital

Como produtor de cinema, realizou Antes: uma viagem pela pré-história brasileira, exibido na Mostra do Redescobrimento (Brasil+500), e vários outros. Ao todo, dirigiu mais de 700 documentários, fossem na forma de séries de televisão, produtos isolados para TV ou filmes de longa-metragem. Entre os feitos especialmente para televisão figuram O século de Barbosa Lima Sobrinho e O filtro da imprensa (comemorativo do jubileu do Prêmio Esso), sobre a modernização da imprensa brasileira e outros. Como diretor de cinema, assinou O homem pode voar, sobre Santos-Dumont; Alô, alô, Terezinha!, sobre o comunicador Chacrinha; Caro Francis, sobre o jornalista Paulo Francis; Cauby – Começaria tudo outra vez, sobre o cantor Cauby Peixoto; e 82 Minutos, sobre o Carnaval da Portela.

Autor de vários livros sobre televisão, antecipou tendências, como em TV em expansão – Novas tecnologias, segmentação; Abrangência e acesso na televisão moderna, no qual discutiu, no final dos anos 1980, a TV por assinatura, as operações por satélites e a alta definição (HDTV). Em A nova televisão – Desmassificação e o impasse das grandes redes, debatia assuntos como a convergência de meios e as plataformas digitais.

Como professor, coordenou o curso de Radialismo da Facha, e aí também fundou a Faculdade de Cinema e Audiovisual – ele lecionou durante 30 anos na instituição. Ensinou também Televisão Digital nos MBA da Fundação Getulio Vargas (FGV) e da Universidade Cândido Mendes, ambas no Rio. Antes disso, foi professor de jornalismo na Sobeu, Sociedade Barramansense de Ensino Universitário.

Em 2001, criou o Instituto de Estudos de Televisão (IETV), e ali realizou eventos como o Festival Internacional de Televisão, o Fórum Internacional de TV Digital e o Seminário Esso-IETV de Telejornalismo. Editou ainda os Cadernos de Televisão, revista quadrimestral sobre estudos avançados, publicada pelo IETV. E produziu as séries Televisão e grandes autores e A televisão que o Brasil está pensando, ambas para a TV Brasil/EBC.

Adriana Magalhães, também jornalista e ex-mulher de Hoineff, postou nas redes sociais uma homenagem ao pai de sua filha Alice. Ricardo Largman, amigo e vice-presidente da ACCRJ, revelou que, já no período em que Hoineff estava doente, soube que ele escreveu um livro de memórias; acredita que a obra foi finalizada, e pretende ler histórias que ainda não se conhecem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *