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sábado, maio 25, 2024

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Memórias da Redação ? Revelações da Operação Poeira

A história desta semana, uma das quatro que havia em estoque, é novamente uma colaboração de Milton Saldanha ([email protected]), que edita o jornal mensal Dance, dedicado à dança de salão, e mantém um blog de crônicas sobre assuntos variados. Revelações da Operação Poeira Na metade dos anos 1970 assumi a Chefia de Redação da Sucursal do ABC do Grupo Estado, então formado por Estadão, Jornal da Tarde, Rádio Eldorado e Agência Estado. Foi um dos melhores momentos da minha carreira, o ABC era um manancial completo para se fazer jornalismo. Assunto ali era o que não faltava. Mas havia também dias de calmaria e tédio, e eu tinha que me virar para achar serviço para meia dúzia de repórteres, porque a sucursal tinha que apresentar produção, com um roteiro diário de pautas. Foi num dia assim que tive a ideia de criar a Operação Poeira, um trabalho de busca de assuntos pelos mais variados municípios da Região Metropolitana, exceto a capital. A sucursal não precisava limitar-se ao ABC. Consistia em destacar um repórter para visitar alguma cidade sem compromisso de voltar com matéria. Mas tinha que trazer uma lista de assuntos que poderiam se transformar em pautas. Sua missão, em dois ou três dias, era observar tudo, contando com o próprio feeling, e conversar com o maior número possível de pessoas, da mais simples dona de casa ao prefeito. O repórter voltava com um perfil geral e valiosos detalhes. Foi assim que descobrimos que em todos os municípios, sem uma única exceção, havia vasta corrupção. E naquele tempo ainda não existiam PT e PSDB. Eram o MDB (oposição) e Arena (partido da ditadura, que tinha Sarney como presidente). Em Salesópolis, por exemplo, havia uma ponte que terminava ao pé de um morro, sem levar a nenhum lugar. Nosso fotógrafo, Clóvis Cranchi Sobrinho, documentou o absurdo. Em outro, o prefeito costumava socorrer flagelados de enchentes com produtos da sua própria padaria. Usava verbas emergenciais, sem necessidade de cotação e concorrência. Eram dezenas de casos desse tipo. As cifras não eram comparáveis aos trambiques de Brasília e das grandes cidades brasileiras, mas consistiam em roubalheira do mesmo jeito. O tempo enterrou tudo isso. Muitos daqueles personagens já morreram, deixando seus herdeiros bem de vida. Mas o ciclo da corrupção jamais morre, apenas troca de protagonistas. Nossos repórteres descobriam as safadezas indo conversar com vereadores da oposição. Mas havia casos em que até isso ficava difícil, porque a Câmara inteira estava comprada e comprometida. Em cidades com cerca de dez vereadores isso ficava fácil. Essa experiência me deu um retrato pontual do Brasil. Quem achar que tudo se resume a Brasília e ao partido instalado no poder comete tremendo equívoco. A corrupção é antiga, endêmica e generalizada. Está incrustada no conceito de governar. Envolve de prefeitos e vereadores a funcionários de carreira concursados, que montam suas próprias quadrilhas para criar dificuldades e depois vender facilidades aos cidadãos. O funcionário honesto prefere fingir nada saber, para não sofrer perseguição e isolamento. E principalmente pela vontade de permanecer vivo.

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