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sexta-feira, julho 19, 2024

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Mauri König é homenageado com prêmio internacional

Mauri König, repórter da Gazeta do Povo (PR), foi anunciado no último dia 13/9 como um dos quatro agraciados com o International Freedom Press Awards, oferecido pelo Comitê de Proteção aos Jornalistas. Além do brasileiro, conquistaram o prêmio ? que será entregue em novembro, em Nova York ? Mae Azango (Libéria), Dhondup Wangchen (China) e Azimjon Askarov (Quirguistão). Em entrevista ao Portal dos Jornalistas, König fala sobre sua opção pelo jornalismo, a satisfação em ser homenageado pelo CPJ e os riscos que envolvem o trabalho de jornalista investigativo. Portal dos Jornalistas ? Como foi sua escolha pelo Jornalismo? Mauri König ? Comecei a trabalhar com Jornalismo em 1991, quando ainda cursava Letras na Universidade do Oeste do Paraná, em Foz do Iguaçu, e dava aulas na rede pública de ensino. Como na época não havia curso de Comunicação na cidade e o pequeno número de profissionais formados não atendia à demanda do mercado local, fui convidado a trabalhar num semanário devido à minha experiência na edição do jornal do Centro Acadêmico de Letras da Unioeste. Larguei as aulas na rede estadual, consegui o registro de jornalista provisionado com o Sindicato dos Jornalistas do Paraná e passei a atuar como repórter no extinto semanário Jornal de Foz. Mais tarde, entrei na primeira turma do curso de Jornalismo aberto na cidade, em 2000. Antes, já havia passado pela sucursal da Folha de Londrina, ao mesmo tempo que me tornei correspondente do Estadão. Ainda em Foz, trabalhei nos jornais O Estado do Paraná e Gazeta Mercantil. Foi ali que ingressei na Gazeta do Povo, em 2002. Oito meses depois fui transferido para Curitiba. Portal dos Jornalistas ? Por que enveredou pelo jornalismo investigativo? König ? Fui correspondente do Estadão durante seis anos na tríplice fronteira do Brasil com Paraguai e Argentina e fiz algumas coberturas longas sobre violência e conflitos de terra entre paraguaios e imigrantes brasileiros, os brasiguaios. Mas foi na Folha de Londrina que fiz minhas primeiras reportagens de cunho mais investigativo, algumas em parceria com um jornalista paraguaio, o César Palácios. Percebi que davam mais repercussão e o processo de produção instigava em mim um antídoto contra o conformismo. Comecei a pesquisar assuntos relevantes e passei a estudá-los melhor, a fazer apurações nas horas de folga e nos fins de semana. Muitas vezes, só quando estava com a reportagem quase toda apurada é que sugeria ao jornal. Fiz isso muitas vezes, em vários jornais onde trabalhei. Dessa forma, fui driblando a falta de tempo e de recursos, e ia emplacando uma reportagem atrás da outra. Portal dos Jornalistas ? Você já venceu prêmios nacionais de destaque, como Esso, Embratel e Herzog. Qual é a importância do International Freedom Press Awards para sua carreira? König ? Salvo engano, o International Freedom Press Awards é o único prêmio do jornalismo mundial que não é concedido por meio de inscrição ou indicação. O próprio Comitê de Proteção aos Jornalistas monitora a imprensa mundial em busca de jornalistas que se destacam pela tenacidade e coragem. Ou seja, os jornalistas são reconhecidos não por um trabalho específico, mas pela carreira profissional, pelo ?conjunto da obra?. Imagino ser o melhor reconhecimento que um jornalista pode esperar. Portal dos Jornalistas ? O que um profissional precisa ter para ser um bom jornalista investigativo? König ? Primeiro é preciso conhecer bem sobre o que vai escrever, se ?especializar? no assunto. Como o tempo nas redações é escasso, costumo pesquisar sobre o tema de uma reportagem nas horas de folga e nos fins de semana. Essas pesquisas permitem ainda identificar fontes qualificadas, além daquelas de que já se dispõe. Também é preciso ter paciência e persistência. Nem sempre as coisas saem como e no tempo que imaginamos, mas isso também serve como aprendizado. Portal dos Jornalistas ? Quem você destaca, no Brasil e no exterior, como sinônimo de excelência no jornalismo investigativo? König ? É difícil destacar um nome, pois jornalismo se faz em equipe. Somos todos devedores daqueles que contribuem com o nosso trabalho. Há sempre o risco de incorrer em omissões, mas destaco nomes como Mário Magalhães, Lucas Figueiredo, Thiago Herdy, Andreza Mattais, Rubens Valente, Humberto Trezzi, Cláudio Júlio Tognolli, Fernando Rodrigues, Eduardo Faustini, Caco Barcellos. No exterior, a ProPublica tem sido uma incubadora de grandes reportagens investigativas, um modelo a seguir. Portal dos Jornalistas ? Por conta de seu trabalho, você já sofreu diversas ameaças e lidou com situações de perigo real. Em alguma delas achou que não fosse sair vivo? König ? A situação mais drástica por que passei ocorreu em 19 de dezembro de 2000, no Paraguai, quando fui espancado quase à morte por três homens, um deles vestido com a farda da Polícia Nacional do país. Estava investigando o recrutamento ilegal de adolescentes para o serviço militar no Paraguai. Fui interceptado na minha quinta ida ao país, quando estava sozinho com o carro do jornal O Estado do Paraná. Parei numa suposta blitz numa estrada vicinal, os três me arrancaram do carro e começaram a me chutar e a bater com uma corrente e pedaços de pau. Um deles forçou o joelho nas minhas costas e enlaçou a corrente no meu pescoço. Começou a forçar enquanto os demais continuavam chutando. Quando eu estava praticamente perdendo os sentidos, ele puxou a corrente, levantou e deu mais alguns golpes com a corrente nas minhas costas. Eles riam muito e falavam em guarani (a língua nativa do Paraguai). A única coisa que disseram numa mistura de espanhol e português foi logo no início, quando tentei argumentar: ?Você nunca mais vai voltar ao Paraguai?. De repente, foram embora. Destruíram minha máquina fotográfica e amassaram o carro. Com uma faca ou pedra, escreveram no capô: ?Abajo prensa de Brasil?. Mesmo dolorido, consegui dirigir por uns 80 km até a sucursal do Diário Notícias em Ciudad del Este. O jornalista Juan Carlos Salinas avisou à imprensa paraguaia, que cobriu a agressão, e depois me levou ao consulado brasileiro. No Instituto Médico-Legal de Ciudad del Este encontraram mais de 100 hematomas no meu corpo. O Ministério Público paraguaio abriu um inquérito, arquivado um ano depois por ?falta de provas?. Portal dos Jornalistas ? Qual é a reportagem ou série da qual você mais se orgulha? König ? Essa do recrutamento de adolescentes no Paraguai foi a que mais me marcou. Depois do atentado que sofri, a imprensa de lá passou a dar maior visibilidade à questão do recrutamento de menores de 18 anos para o serviço militar. Na ocasião, agências internacionais também noticiaram a agressão, o que ajudou a dar visibilidade às irregularidades nos quartéis do Paraguai, a ponto de a Organização das Nações Unidas (ONU) cobrar do governo paraguaio. Depois disso, não soube de novas mortes de adolescentes nos quartéis paraguaios. Senti-me incomodado pelo descaso dado às investigações oficiais contra os agressores, que nunca foram identificados, mas é maior o sentimento de satisfação ao ver que a reportagem ajudou a mudar a situação. Valeu a pena o esforço até para provar aos agressores que eles não conseguiram calar a imprensa. Portal dos Jornalistas ? O que o motiva a seguir como repórter investigativo? König ? Indignação é a palavra que melhor define minha motivação. Acho que, no meu caso, o jornalismo é o melhor instrumento para provocar mudanças, expor injustiças, intervir em governos corruptos, delatar uma polícia arbitrária.

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