A história desta semana é novamente uma colaboração de Sandro Villar ([email protected]), correspondente do Estadão em Presidente Prudente (SP). A emprensa e os cocos Por essa nem o considerado Moacir Japiassu esperava: inventaram e credenciaram a emprensa. Tudo aconteceu em um evento realizado já há algum tempo em Presidente Prudente, para quem ainda não sabe a maior cidade do Velho Oeste paulista, quer dizer, extremo oeste paulista. Antes de prosseguir com a narrativa devo te dizer, como diria Vicente Matheus, que o que não falta é extremo na cidade, onde as cartas são dadas por coronéis da política desde a década de 20 do século 20 (eles jogam muito). Depois dessa explicação, que quase me fez perder o fio da meada, continuemos com esse papo sobre a emprensa. No evento em questão, coube a uma recepcionista, muito jeitosa, a missão de credenciar os jornalistas que foram fazer a cobertura – que não sei se era de chantilly ou não, mas isso é como certos programas grotescos da televisão: não tem a menor importância. Mais bonita do que cartão postal, a recepcionista distribuiu as credenciais, procedimento normal nessas ocasiões, e aproveito para lembrar que procedimento, assim como complicado, é uma palavra da moda. Hoje em dia – e creio que até hoje em noite –, o paciente, para dar um exemplo da área médica, não é examinado e operado: ele passa por um procedimento. E hoje em dia ninguém mais morre, o sujeito vai a óbito. O pior é que tem jornalista que adota esse modismo, digamos, linguístico. Por falar nisso, está aí a sugestão para o nome de uma dupla caipira: Procedimento e Complicado. Não é chique pra cachorro? De volta ao credenciamento. Em vez de imprensa, a moça escreveu emprensa nas credenciais e, por algum tempo, os jornalistas representaram a emprensa no evento. Quem percebeu a mancada foi a jornalista Carla Nogueira, então colunista social do jornal Oeste Notícias. Ela levou a credencial para a redação, uma prova cabal de que tinham acabado de inventar a emprensa em Presidente Prudente, onde uma jovem repórter, com mais jeito de morsa do que de foca, se enrolou toda ao descrever plantas ornamentais em uma avenida. A prefeitura tinha acabado de plantar coqueiros na avenida Washington Luis, uma das principais da cidade. E lá foi a mocinha fazer a reportagem, porque isso também é assunto em jornais, rádios e televisões do nosso interiorzão, onde essa história de jornalismo investigativo é quando a polícia investiga o sumiço do repórter (brincadeirinha, mas tem fundo e até raso de verdade). Às vezes, dá até chamada de capa. Não sei se foi o caso, mas sei que a colega, também muito da jeitosinha, se entusiasmou, deu uma de poeta e escreveu que a “prefeitura plantou árvores de coco na avenida Washington Luis”. E não é que ela, até certo ponto, lembrou Ary Barroso? Se o grande compositor, mineiro de Ubá (crônica também é cultura), pôde falar, em nome da liberdade poética – ou licença poética –, “esse coqueiro que dá coco” na letra de Aquarela do Brasil, considerada a melhor música brasileira de todos os tempos, por que uma jornalista não tem o direito de chamar coqueiro de árvore de coco? Presumo que, na visão dela, laranjeira é árvore de laranja, limoeiro é árvore de limão, abacateiro é árvore de abacate e ninguém tem nada com isso.
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