Debate respeitoso

Em tempos de quarentena, limpar gavetas e organizar armários é uma boa terapia. No meu caso, em especial, é também a possibilidade de voltar no tempo e me deparar com lembranças de bons momentos da carreira.

Hoje achei esse organograma da redação do Diário de S.Paulo para o ano de 2010, época em que o jornal passava para o controle do J. Hawilla. O que me impressiona é o número de jornalistas na composição do time. Quase 100 pessoas − a grande maioria de repórteres, esse “artigo de luxo” nas redações atuais. Só na editoria de cidades/geral (batizada de Dia a Dia) eram 28!!!!! Esportes tinha quase 15. Desse tempo, além desse saudosismo da grandeza do mercado de trabalho, guardo uma das minhas melhores memórias.

Meses antes da elaboração desse organograma, Leão Serva [NdaR: hoje diretor de Jornalismo da TV Cultura de São Paulo] era assessor de imprensa do governo Serra/Kassab. Não raro ele me ligava na redação para contestar alguma matéria que o Diário publicava, contrária aos interesses do governo. Com toda a sua inteligência, retórica e poder de argumentação, fazia seu trabalho com zelo e, vez ou outra, tentava derrubar a pauta antes que a matéria saísse. Eu, por meu lado, fazia de tudo para não o deixar desqualificar a pauta ou contestar nossos métodos e resultados da apuração. Leão tinha particular implicância com as reportagens que fazíamos em cima de personagens que, individualmente, punham em xeque a qualidade dos serviços públicos ofertados pelo governo. Certa vez, diante de uma matéria que tinha como ponto de partida a reclamação de um cidadão não atendido numa unidade de saúde, o telefone tocou e do outro lado da linha Leão começou a relativizar a matéria. Conversamos uns minutos, apresentamos nossos pontos de vista, até que ele sentenciou:

− Não me parece justo que se publique uma reportagem que critica todo o sistema de saúde por causa de um único caso. Esse é o erro da generalização.

Eu, que já conhecia suas armas, deixei-o falar e, para encerrar a conversa, truquei mesmo sem ter o zap na mão, porque sabia, de fato, que a reclamação era uma crítica solitária de um fiel leitor:

− Leão, enquanto eu for o editor-chefe aqui vai ser assim. Quando você for o editor-chefe você muda as regras…

Pois bem. Dois meses depois, com a venda do jornal da Infoglobo para o grupo de JH, eis que Leão foi apresentado como diretor de Redação. Tremi na base. No nosso primeiro encontro de trabalho, lembrei a ele esse nosso telefonema e deixei-o à vontade para selar meu destino. Demonstrando fidalguia e humildade, Leão não deu importância para a conversa e rebateu com classe:

− Esquece isso; eu estava fazendo o meu trabalho e você, o seu. Os dois estavam certos!

E assim, sem mágoas, ficamos mais de dois anos juntos, ele como diretor de Redação e eu como editor-chefe, liderando essa redação de quase 100 pessoas − lamentando apenas que, já naquela época, o Diário estava perdendo força de vendas e sofrendo os impactos mais severos da falta de identidade provocada pela mudança de nome e por outros erros de estratégia cometidos sob a gestão das Organizações Globo… (No próximo capítulo vou contar detalhes da pesquisa que embasou a mudança de nome do jornal. Aguardem!)

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Consultado por J&Cia sobre a publicação de história que o citava, Leão Serva respondeu:

“Nelson não me contou que narrou esse episódio no Face. Mas é absolutamente fiel.

Estou sorrindo aqui sozinho de lembrar.

Isso aconteceu assim mesmo.

Digo mais: Vanessa Pessoa, grande jornalista, que hoje faz o caminho inverso (é assessora de imprensa da Prefeitura), era a editora de Cidades e vivemos o mesmo encontro.

Fui muito feliz naquele momento exatamente porque senti que duplicamos ambos a compreensão do método jornalístico. Poucos sabem no Brasil de hoje que todos crescemos com os debates.”

Nelson Nunes

A história desta semana é de Nelson Nunes, ex-Gazeta Esportiva, Folha da Tarde, Jornal da Tarde, SBT, Jovem Pan e revista Propaganda e Marketing, que esteve por 22 anos no extinto Diário de S.Paulo. Ele publicou o texto no Facebook em 17/5 e nos autorizou a reproduzir.


Tem alguma história de redação interessante para contar? Mande para baroncelli@jornalistasecia.com.br.

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