Conselho da EBC pede que STF decida sobre posse de Laerte Rimoli

O clima em Brasília é de incerteza política. Os acontecimentos dos últimos 20 dias geraram uma instabilidade que não atinge apenas os cargos propriamente políticos, mas também os de jornalistas que atuam na área pública – nomeados ou demitidos com as mudanças de comando nas áreas de Comunicação do Governo federal. Reunido em plenária extraordinária nessa terça-feira (31/5), sem a presença do diretor presidente Laerte Rimoli, alçado ao cargo pelo governo interino, o Conselho Curador da EBC pediu ao STF que dê celeridade em sua decisão sobre a legalidade da exoneração de Ricardo Melo. O colegiado afirmou, em nota, que espera manifestação do Judiciário “na urgência que as circunstâncias exigem, para que todos possam contribuir para a construção e o fortalecimento de um Brasil melhor, com uma comunicação mais democrática”. Também pediu a observância ao Plano de Trabalho da EBC aprovado para 2016. Durante a reunião foi deliberado, ainda, o envio de um pedido de esclarecimentos ao Governo Federal com relação às várias questões apontadas pela nota. Enquanto o Supremo não se pronuncia, Rímoli, desde que assumiu o cargo na EBC, baixa portarias de dispensas e nomeações de profissionais. Já houve mudanças em diversos cargos da empresa pública, assim como desfeitos contratos profissionais. Além da EBC, as mudanças políticas obviamente também promoveram verdadeira dança das cadeiras nas assessorias dos ministérios – que, por sua vez, sofreram um processo de enxugamento, com fusões, “desfusões”, extinções e muita confusão.  A incerteza pelo futuro do governo interino e dos comandos das casas legislativas e com os estragos políticos que ainda podem ser causados por áudios e delações premiadas da operação Lava Jato desautorizam quaisquer especulações sobre os destinos de profissionais e órgãos de comunicação da área pública federal.  O troca-troca no Governo Federal Não se sabe ao certo quantas foram as exonerações na EBC até agora. Além do mencionado, também deixou a empresa Tereza Cruvinel. Ela, que implantou e presidiu a empresa por quatro anos, afirmou que é “flagrante” seu afastamento como retaliação ao fato de ter-se posicionado publicamente contra a exoneração do diretor presidente exonerado Ricardo Melo: “Não procede o argumento de mudança na programação, porque o programa em que eu atuava como entrevistadora, o Palavras Cruzadas, vai continuar sem mim. A alegação de contenção de despesas também não se sustenta. Contratos de valor muito superior ao meu, com profissionais que atuam em outros programas, estão sendo mantidos. Então, se a razão é política, é perseguição, é macarthismo, algo absolutamente incompatível com a conduta de uma empresa de comunicação pública”. Tereza observa que, em 2007, à época em que implantou a empresa, a diretoria adotou como princípio sustentar a pluralidade de opiniões na programação e não tomar decisões com motivação político-ideológica: “O que está acontecendo é o inverso disso […] Muitas pessoas, fala-se em dezenas, que ocupam cargos comissionados estão sendo exoneradas porque são consideradas ‘petistas’ ou ligadas ao governo anterior”. O colunista e intelectual petista Emir Sader também teve contrato interrompido pela empresa. Outro que saiu foi Albino Castro, contratado por Américo Martins em agosto de 2015 para atuar como assessor especial da Presidência. Para substituir Albino, que teve passagens por SBT, Cultura e Gazeta, entre outras, chega Wilson Ibiapina, repórter e editor da Globo durante 20 anos e ex-assessor da Presidência da Radiobras. Juca Varella, que desde novembro ocupava a Gerência de Imagem da Agência Brasil, está voltando a São Paulo para, como publicou no facebook, “retomar aquilo que sempre fiz: o bom jornalismo”. Com 30 anos de profissão, passou por redações de Grupo DCI, Editora Globo, Folha de S. Paulo e Estadão, onde foi editor de Fotografia. O novo secretário de Comunicação de Temer, Márcio de Freitas, também assumiu o Conselho Administrativo da EBC e substituiu três dos cinco principais diretores da empresa. Entraram Luiz Antônio, em Administração e Finanças, Lourival Macedo, no Jornalismo, e Maria Aparecida Fontes, em Produção. Outro que saiu foi o gerente executivo de Conteúdo Nicolas Tamasauskas, responsável por TV NBR e Voz do Brasil. Antes da EBC, Nicolas atuou como secretário adjunto de Imprensa da Presidência da República. Deixaram também a empresa, entre outros: Rosana dos Santos Ferreira, assessora da Diretoria de Conteúdo e Programação; Shirdeide Leite Barbosa, gerente de Produção de Rádio; Ana Cristina Viana de Melo, chefe de Gabinete da Diretoria de Conteúdo e Programação; e Marco Antonio de Amorim Monteiro, gerente de Radiojornalismo, no RJ. E foram nomeados pela nova gestão da empresa Luiz Recena Grassi, como assessor da Presidência; Eduardo Mancasz, como gerente de Produção de Rádio; Alberto Mendonça Coura, para a Gerência de Monitoramento e Análise de Mídias; Sirlei Batista, para a Gerência Executiva de Conteúdo e Serviços; Maria Cristiane Martins Ribeiro, para a Gerência de Radiojornalismo, no RJ; e Armando de Araújo Cardoso, para a Gerência Executiva de Agências da Superintendência Executiva de Agências e Conteúdo Digital. Nesse quadro de incertezas, a EBC deu início a processo de reformulação que inclui a reavaliação de todos os contratos com pessoas jurídicas. Segundo a empresa, o valor global dos acordos suspensos é de cerca de R$ 3 milhões ao ano. Levantamento preliminar revelou déficit em torno de R$ 60 milhões no caixa da empresa. “Diante do quadro de severa restrição orçamentária, a nova direção da EBC decidiu suspender alguns contratos por 120 dias, até que seja melhor definido o tamanho do esforço financeiro necessário para adequar a empresa ao ajuste fiscal que a crise econômica impõe ao conjunto do Governo Federal”, informou em nota. De acordo com a EBC, só o contrato com a produtora e o apresentador do programa semanal Espaço Público, Paulo Moreira Leite, por exemplo, custa cerca de R$ 570 mil anuais. A empresa ressaltou, ainda, que neste primeiro momento estão sendo suspensos sete contratos com pessoas jurídicas, enquanto a direção avalia a viabilidade de manter os compromissos financeiros.