Como estragar uma viagem a Paris

* Por Eduardo Brito

 

Amigo do colunista Carlos Castello Branco desde que trabalharam juntos nos governos Jânio Quadros e de José Sarney, a partir dos tempos da Bossa Nova da UDN, o mineiro José Aparecido foi nomeado governador do Distrito Federal ainda na época da hospitalização do presidente eleito Tancredo Neves. Não gostava de administração, mas adorava uma festa.

À falta de algo para inaugurar, inventava qualquer coisa. O frondoso buriti que dá nome à praça fronteira ao palácio do governo brasiliense e ao próprio palácio foi pretexto para diversas festas do gênero. Buritis não têm vida assim tão longa e precisam ser substituídos. Como o que valia mesmo era o evento, Aparecido inaugurou bem uns três buritis. O fato de ser o mesmo não estragava a intenção.

José Aparecido também gostava de viajar. Governador nomeado, não tinha vice. Em ausências, era substituído pelo chefe da Casa Civil, o sério e competente jornalista Guy de Almeida.

Eis então que Aparecido embarca para Paris. Tratava-se de algum financiamento externo – o pretexto, claro, era irrelevante – e o governador estava acompanhado de assessores, entre eles o articulado José Carlos Mello, secretário dos Transportes. Após um lauto almoço, com papo cabeça e excelentes vinhos, pois era um bom copo, o feliz Aparecido retornou ao hotel caminhando sob os marroniers. Temperatura amena, sol brilhando, tudo maravilhoso.

Foi aí que veio a trovoada em céu azul. Dizem os intrigantes que, deixado para trabalhar em Brasília, o fiel Guy de Almeida sentia um prazerzinho perverso em dar más notícias ao governador que se esbaldava. Não deu outra.

Aparecido mal entrara no hotel e fora avisado de que havia um telefonema para ele. Atendeu ali mesmo, na recepção. Sim, era ele, Guy de Almeida. Para variar, má notícia. Aliás, péssima. Saíra na revista Veja uma nota informando que o governador do Distrito Federal, José Aparecido, estava em Paris para uma nova visita. Era a quinta desde que assumira o cargo. Em compensação, só duas vezes estivera em Ceilândia, a mais populosa e então a mais pobre das cidades do Distrito Federal.

Pior. Era verdade.

Previsivelmente, José Aparecido entrou em fúria. Começou a gritar com Guy ao telefone. “Essa nota é coisa do Elio Gaspari, claro. Mas quem está por trás são os chefes dele. Esses judeus. Querem é dinheiro. Sem isso, ficam aporrinhando, cometendo injustiças”… e por aí foi.

Ou melhor, iria, pois nesse momento foi interrompido por um senhor educado, de olhos claros, que estava também na recepção. Identificou-se como Edgard de Sílvio Faria, diretor-responsável de Veja, e começou a explicar-lhe que a revista, como aliás toda a Abril, não operava dessa forma. 

Cada vez mais irritado, José Aparecido retirou um maço de notas – aparentemente dólares – e começou a sacudi-las diante do interlocutor. “Está aqui, pegue o dinheiro, é isso que a empresa quer” e por aí foi. O secretário Mello e outros brasileiros que estavam por ali interferiram, separaram os dois, procuraram colocar panos quentes. Quando Aparecido estava mais calmo seguiram a fórmula infalível. Levaram-no ao bar do hotel, assim como o diretor-responsável de Veja. Argumentaram que pessoas do nível deles não poderiam ficar desse jeito, quase chegando às vias de fato, trocando insultos. Depois de servirem um uisquinho e puxarem a conversa para outros assuntos, conseguiram amenizar o quadro.

De natureza, o estourado Aparecido era extremamente afável e gostava de um bom papo. Culto e educado, Edgard de Sílvio Faria não insistiu no tema perigoso e, em pouco tempo, a conversa rolou. A turma do deixa-disso identificou alguns amigos comuns a ambos, assim como temas de interesse. Logo estavam em um diálogo aparentemente camarada, até um pouco caloroso.

Foi então que uma elegante senhora deixou o elevador, procurou alguém com os olhos e, então, foi para o bar. Edgard de Sílvio Faria apresentou sua mulher. Aqui, disse ele, está o governador do Distrito Federal, José Aparecido. Refinadíssima, ela disse que era um grande prazer, já que admirava muito o governador.

Era demais.

O diretor-responsável cortou. “Espera aí, vá lá que estamos conversando numa boa, mas admirar esse imbecil é demais!”

Não prestou. Aparecido retirou de novo o maço de dinheiro do bolso, começou a agitá-lo na direção do outro, os impropérios recomeçaram e precisaram, enfim, ser conduzidos cada um para seu lado. 

 

* Eduardo Brito (edubrito@senado.gov.br) é editor executivo do Jornal de Brasília.

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