O adeus a Sandro Vaia

Morreu em 2/4, em São Paulo, aos 72 anos, de falência de múltiplos órgãos, Sandro Vaia, que esteve por mais de 40 anos no Grupo Estado, onde chegou a diretor de Redação do Estadão. Ele estava internado no Hospital 9 de Julho há cerca de três semanas, onde fora submetido a uma cirurgia para desobstrução das vias biliares. Deixa a viúva, Vera, a filha, Giuliana, e a neta, Ana Luisa. O corpo foi enterrado no domingo (3/4), no Cemitério Nossa Senhora do Desterro, em Jundiaí, no interior de São Paulo. Natural de Mantova, na Itália, Sandro dirigiu o Estadão por seis anos, de 2000 a 2006. Em 2004, implantou no jornal uma profunda reforma, ao lado do então editor-chefe Roberto Gazzi, da qual muito se orgulhava (veja ao final desta nota). Segundo o amigo e colega de trabalho Roberto Godoy, “obsessivo com a precisão informativa, a qualidade e o estilo de cada texto ou título, irritava-se quando encontrava falhas decorrentes da apuração negligente de uma notícia. O pior, para ele, era o que definia como ‘edição preguiçosa’, o acabamento final desleixado das matérias. ‘O leitor merece um afago’, dizia, referindo-se às reportagens narrativas, construídas com recursos literários”. Antes de vir para o Brasil e radicar-se em Jundiaí, em 1954, a família Vaia passou por Peru e Bolívia. Começou no jornalismo escrevendo uma coluna de assuntos sindicais no Diário de Jundiaí. Depois passou a fazer a crítica de cinema, a resenha literária e em seguida uma crônica semanal. Por volta de 1963 apurava reportagens, editava as seções e escrevia os editoriais. Começou no Grupo Estado em 1965, na equipe que preparava o lançamento do Jornal da Tarde. Ali foi repórter, repórter especial, redator, pauteiro, subeditor, editor de Geral, Esportes, Variedades, Política e Economia. Na década de 1980, deixou o Grupo e foi para uma nova revista semanal de informação, a Afinal, mas voltou quatro anos depois para cuidar do programa de reorganização da Agência Estado. Após deixar definitivamente o jornal, em 2006, passou a dedicar-se às plataformas eletrônicas de mídia. Sandro é autor de A ilha roubada – Yoani, a blogueira que abalou Cuba (2009), sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez, e de Armênio Guedes – Sereno guerreiro da liberdade, sobre o histórico dirigente comunista, ambos pela editora Barcarolla. Meses atrás retomara o projeto de uma série de perfis de técnicos brasileiros de futebol com projeção internacional. Aliás, palmeirense fanático, seu último post no facebook foi sobre o time do coração. Roberto Gazzi, que além de companheiro de trabalho foi também amigo de Vaia, publicou sobre ele no Estadão de 3/4 um texto que nos autorizou a reproduzir: Um mestre do ofício Sábado, 14 de outubro de 2004, um início de tarde com sol e céu azul. Sandro Vaia abre um enorme sorriso e me abraça no meio da enorme Redação do Estado. Tínhamos acabado de receber os primeiros exemplares do jornal de domingo e fizemos um brinde com champanhe. Ele não me disse nada, nunca foi de muitas palavras. Nem precisava. Brindávamos ao novo projeto editorial e gráfico do Estadão. Aquela edição tinha deixado o jornal do dia anterior espantosamente envelhecido, tamanha a mudança para melhor. O italiano Sandro Vaia era o então diretor de Redação e eu um dos coordenadores da reforma. Mais do que todos, ele sabia ser aquele exemplar que tínhamos nas mãos o resultado de um trabalho paciente, difícil, às vezes doloroso, executado com pouca verba e em tempo recorde. Em 2000, Sandro Angelo Vaia tinha iniciado a missão mais difícil da sua já então reconhecida carreira. Fora um profissional destacado no Jornal da Tarde, liderara uma revista, chefiara a Agência Estado. Vaia assumia o comando em um dos momentos mais difíceis e tristes vividos pela redação do jornal em seus 125 anos de história. Dias antes seu antecessor, Antonio Pimenta Neves, havia assassinado a jornalista Sandra Gomide. Era uma redação traumatizada, de baixíssima estima, outra vítima da gestão errática de Pimenta. Pacientemente, o filho da aristocrática Mantova conseguiu, com a ajuda dos editores que mantivera no cargo, acalmar e reerguer o moral do time. Para isso, usara sua crença nos fundamentos do ofício. Acreditou no processo de seu conterrâneo, o marxista Gramsci, a guerra dos movimentos: mais do que impor, ensinar, dar exemplo, trabalhar os fundamentos do jornalismo. Como em redação um apelido é eternizado em segundos, pela origem e pela cabeleira já branca, logo se tornou o simpático Gepeto. E o jornalista, como o carpinteiro, tem de conhecer seu ofício. De pouco adianta o rigor da encomenda, a imposição, se não se sabe cortar, lixar, trabalhar a madeira, fazer os encaixes corretos. E Sandro era um mestre do ofício que amara e ao qual se dedicara desde garoto. O jornal que buscava, cuja receita parecia simples, era de execução complexa: boas histórias, de preferência exclusivas, a partir de apuração correta e profunda, texto limpo e claro, com título exato e atraente, numa página bem desenhada. Tinha um olho impressionante para maus textos e títulos ruins. Nessas horas mostrava seu sangue carcamano, gesticulava, bufava, xingava. Para tentar conseguir o jornal que perseguia, foi com o tempo trocando peças, moldando o grupo a seu jeito. E delegando, essa qualidade nem sempre presente num chefe. Com o tempo o produto melhorou e isso foi fundamental para a maior conquista de sua gestão: resgatar o moral de seus profissionais. Tirou a redação do fundo do poço para deixá-la novamente orgulhosa de estar fazendo um dos melhores jornais do Brasil. Trabalho espelhado na reforma de 2004, ganhadora de vários prêmios nos anos seguintes. Obra de um mestre, como seu grande ídolo Ademir da Guia, o líder da Academia palmeirense dos anos 1960 e 70. Sandro adorava futebol e era apaixonado pelo Palmeiras. O que não o impedia de ter entre os amigos do peito alguns corintianos fanáticos. Como Ademir, era elegante, efetivo, preciso, mas discreto. Jogava antes para o time, mais do que para a arquibancada. Evitava holofotes. Fugia das muitas reuniões burocráticas e desnecessárias inerentes ao cargo. Gostava de se concentrar no jornalismo. Deixou o jornal em 2006. Mas continuou na lida. Já fora do dia a dia das redações, manteve até seus últimos dias a excelência jornalística, analisando em frases curtas, com perspicácia, humor e elegância, as muitas notícias do Brasil e do mundo, usando a tecnologia dos novos tempos. Tendo como matéria-prima principal as notícias do jornal que amava e ajudou a aperfeiçoar. Sem Sandro Vaia, o jornalismo perde um mestre do ofício.