Por Álvaro Bufarah (*)
Em um momento em que a confiança se torna um ativo cada vez mais escasso no ecossistema digital, um dado chama atenção – e, ao mesmo tempo, desafia previsões recorrentes sobre o “fim” dos meios tradicionais: o rádio segue como o veículo mais confiável entre os norte-americanos.
O resultado, apontado pelo estudo Media Trust Study 2026, conduzido pelo Katz Radio Group, revela que 85% dos entrevistados classificam o rádio como uma fonte “muito confiável” ou “confiável”. O índice coloca o meio à frente de jornais (77%) e televisão (73%), consolidando uma liderança que não se explica apenas por tradição – mas por resiliência.

A pesquisa, realizada com 600 adultos nos Estados Unidos, também evidencia um movimento importante: enquanto a confiança no ambiente digital vem se deteriorando – com três em cada quatro pessoas afirmando confiar menos no que leem online –, o rádio mantém estabilidade em todas as faixas etárias. Em um cenário marcado por algoritmos, desinformação e conteúdos sintéticos, essa consistência torna-se um diferencial estratégico.
Mas talvez o dado mais revelador esteja na ascensão dos podcasts. Segundo o estudo, cerca de 70% dos adultos consideram esse formato confiável – um índice que o coloca no mesmo patamar das revistas e a apenas três pontos percentuais da televisão. Não se trata mais de uma mídia emergente: os podcasts passam a ocupar um espaço consolidado no repertório informativo contemporâneo.
Essa aproximação entre rádio e podcast revela mais do que uma disputa entre formatos – aponta para uma convergência baseada em um elemento comum: a voz. Diferentemente das plataformas sociais, onde o conteúdo circula de forma fragmentada e descontextualizada, o áudio mantém uma relação mais direta, contínua e, sobretudo, humana com o público.
Não por acaso, as redes sociais aparecem na última posição do ranking de confiança, com apenas 49%. A distância de mais de 30 pontos percentuais em relação ao rádio não é apenas estatística – é sintomática. Ela evidencia uma ruptura crescente entre produção profissional de conteúdo e ambientes mediados por algoritmos, em que a curadoria é substituída por engajamento.
Esse cenário torna-se ainda mais relevante quando analisado sob a ótica geracional. O rádio apresenta índices de confiança praticamente homogêneos: 85% entre adultos de 35 a 54 anos e 83% tanto entre jovens de 18 a 34 quanto entre pessoas com mais de 55 anos. Trata-se de uma estabilidade rara em um ambiente midiático cada vez mais fragmentado.
Os podcasts, por outro lado, revelam um comportamento mais volátil. Embora atinjam 77% de confiança entre jovens e públicos mais velhos, o índice cai para 67% entre adultos de meia-idade. Essa oscilação sugere uma “lacuna de percepção” relevante – indicando que, embora os podcasts tenham expandido sua credibilidade para além de seu público original, ainda enfrentam resistência em segmentos mais ligados às marcas tradicionais de mídia.
Esse contraste ajuda a compreender o papel complementar que rádio e podcast passam a desempenhar no atual mix de mídia. O rádio mantém sua força como meio de alcance massivo, presença local e credibilidade consolidada. Já os podcasts avançam como espaço de aprofundamento, segmentação e consumo sob demanda.
Ambos, no entanto, compartilham um ativo cada vez mais raro: a construção de vínculo. A familiaridade com vozes, apresentadores e narrativas cria uma relação de confiança que dificilmente é replicada em ambientes digitais automatizados. Em um feed algorítmico, o conteúdo aparece; no áudio, ele acompanha.

Esse aspecto ganha ainda mais relevância diante do avanço de tecnologias como inteligência artificial generativa e deepfakes, que ampliam a capacidade de produção de conteúdo – mas também intensificam a desconfiança do público. Quanto mais abundante e automatizada se torna a informação, maior tende a ser o valor atribuído àquilo que é percebido como humano, contextualizado e verificável.
Do ponto de vista do mercado, as implicações são diretas. A confiança passa a operar como um ativo econômico. Em ambientes midiáticos considerados confiáveis, mensagens publicitárias não apenas alcançam o público – elas são mais facilmente assimiladas, acreditadas e convertidas em ação. É o chamado “efeito halo”, no qual a credibilidade do meio se transfere para a marca anunciante.
Nesse contexto, o rádio não sobrevive apenas por inércia histórica. Ele se reposiciona como uma das poucas infraestruturas de confiança estável em um sistema comunicacional marcado pela volatilidade.
E talvez seja justamente essa a principal inversão do cenário contemporâneo: enquanto novas tecnologias prometem eficiência, escala e personalização, são os meios mais antigos – baseados em presença, recorrência e relação – que seguem sustentando o que há de mais difícil de construir na comunicação: a confiança.
Fontes de pesquisa
- https://www.katzmediagroup.com/insights/media-trust-study
- https://www.pewresearch.org/journalism/
- https://www.edisonresearch.com/
- https://www.nielsen.com/insights/
- https://www.reutersinstitute.politics.ox.ac.uk/digital-news-report
- https://www.insideradio.com/
- https://www.radioworld.com/
- https://www.niemanlab.org/
- https://www.statista.com/topics/1330/radio/
- https://www.ofcom.org.uk/research-and-data

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.
(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País.
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