Por Álvaro Bufarah (*)
Há muito tempo repete-se que o rádio “reinventa-se a cada nova tecnologia”. Talvez por isso tenha sobrevivido ao transistor, à televisão, ao FM estéreo, ao satélite, aos streamings globais e à IA conversacional que, agora, promete substituir locutores. Mas nada – nem mesmo o smartphone – tem provocado uma reconfiguração tão profunda no rádio quanto o carro conectado. E nenhum dispositivo simboliza essa virada melhor do que o DTS AutoStage, plataforma híbrida da Xperi que transforma o painel de um veículo em um centro avançado de dados, medição de audiência, interatividade visual e, muito em breve, personalização publicitária.

Se antes a escuta automotiva era um mistério, hoje ela é quase transparente. A atualização recente da plataforma, anunciada nos Estados Unidos e gradualmente em expansão global, abre para os radiodifusores uma camada inédita de inteligência de mercado. Não mais estimativas genéricas de alcance, nem projeções baseadas em percepção de marca ou recordação espontânea. Agora, o rádio pode acessar – em menos de 24 horas – tendências de audiência, mapas de calor por localização, tempo de permanência, comportamento por faixa horária e até rankings de músicas mais ouvidas, tudo alimentado por milhões de veículos conectados.
É uma transformação silenciosa, porém radical: a cultura do feeling programático começa a ceder espaço ao racionalismo de dados, algo que o rádio tradicional sempre recusou, mas que o futuro não permitirá ignorar. Como disse Joe D’Angelo, SVP da Xperi, “as rádios podem medir mudanças quase em tempo real e saber onde seus consumidores escutam mais”. A frase sintetiza a ruptura. Pela primeira vez, o rádio conhece seu ouvinte no espaço, no tempo e no comportamento – e essa sofisticação aproxima a indústria sonora dos padrões já consolidados por plataformas como Spotify, YouTube e Apple Music.
Essa virada acontece em um momento estratégico. Segundo a Deloitte (Technology, Media & Telecom Predictions 2025), 72% das montadoras lançarão modelos com conexão nativa até 2027, e o veículo se consolidará como o principal espaço de consumo de áudio premium. A Edison Research mostra que 89% dos ouvintes de rádio nos EUA escutam principalmente dentro do carro – proporção estável há mais de uma década, mas que ganha nova relevância quando essa escuta se torna mensurável e monetizável. O rádio, enfim, entra na era da telemetria contínua.
Mas o ponto decisivo está menos na medição e mais no modelo de negócios que emerge dessa medição. A Xperi anunciou que a partir de 2026 pretende monetizar sua base gigantesca de dados, negociando medições e oferecendo publicidade segmentada dentro do ecossistema AutoStage. Não se trata de alterar o áudio do broadcast, mas de personalizar o visual, com mensagens ajustadas ao contexto do veículo, horário, clima, localização e preferências do ouvinte. É o broadcast vestindo a pele do digital: massivo no áudio, personalizado na tela.
Essa tendência já vinha ganhando corpo. A WorldDAB Global Automotive 2024 apontou que 93% das montadoras veem o rádio como “indispensável”, mas apenas se vier acompanhado de metadados, capa de álbum, integração com apps e métricas de uso. A experiência importa. E, para as marcas, um dashboard conectado e inteligente vale mais do que o velho dial rotativo. A publicidade segmentada no carro é uma fronteira de bilhões: a PwC estima que a publicidade contextual automotiva deverá crescer 18% ao ano até 2030. A Xperi sabe disso – e está se movendo rápido.
No Brasil, o movimento é tímido, mas existe. Emissoras como Globo FM, Metropolitana e Grupo Massa já integram a plataforma, enviando metadados para os painéis de modelos de Mercedes-Benz, BMW, Tesla e Hyundai equipados com hotspot de internet. Embora a monetização ainda não tenha chegado ao País, a adoção inicial indica que os radiodifusores brasileiros compreendem o recado: quem não estiver visível, integrado e analisável ficará invisível na disputa pela atenção do motorista conectado.

A crônica dessa transformação é, no fundo, uma história sobre o reencontro do rádio com a sua vocação: estar onde o ouvinte está. Só que, agora, estar presente significa também ser mensurável, interoperável e comercialmente estratégico. Significa competir não apenas pelo ouvido, mas pela tela do carro, pelo algoritmo que sugere, pela IA que recomenda e pelo mapa de calor que revela onde vive a audiência real.
Se o futuro do rádio é híbrido, como aponta o relatório Xperi State of Auto Audio 2025, então o carro é seu novo centro nervoso – um painel inteligente que vê o ouvinte, fala com o anunciante e aprende com o comportamento de ambos. O AutoStage é apenas a vanguarda de um fenômeno maior: o rádio está virando plataforma, e as plataformas estão virando rádio.
E, nesse trânsito complexo entre automação, personalização e conectividade, talvez estejamos vendo o nascimento de um novo dial – não mais circular, metálico e analógico, mas dinâmico, responsivo e orientado a dados. Um dial que sabe quem chega, quem fica e quem troca de estação. Um dial que alimenta o mercado publicitário com precisão cirúrgica. Um dial que devolve ao rádio uma vantagem que ele nunca deveria ter perdido: a capacidade de se reinventar antes de ser ultrapassado.
Fontes de Pesquisa
- Xperi – DTS AutoStage Overview & Press Releases
- Radio World – Cobertura técnica do IBC 2024 e 2025
- RedTech Magazine – Análises sobre rádio híbrido e automotivo
- Edison Research – The Infinite Dial 2024/2025
- Deloitte – TMT Predictions 2025
- PwC – Global Entertainment & Media Outlook 2024–2028
- WorldDAB – Global Automotive Update 2024
- ABI Research – Connected Car Market Forecast 2025–2030

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.
(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.










