Por Álvaro Bufarah (*)
O Brasil sempre foi um país que se reconheceu no espelho do esporte. Mas em 2025 esse espelho deixou de ser apenas a tela da televisão e passou a ser o bolso, a palma da mão, o feed infinito e a notificação vibrando no celular. Segundo dados publicados pela revista Tela Viva, com base no relatório O Esporte no Ambiente Digital da Comscore, o País assumiu a segunda posição global em consumo digital de esportes, com 59 milhões de visitantes únicos mensais, atrás apenas dos Estados Unidos. Um número que revela menos um fenômeno tecnológico e mais uma transformação cultural profunda na forma como o brasileiro constrói pertencimento, emoção e identidade midiática.
O esporte deixou de ser um evento pontual e tornou-se um ambiente permanente de conexão. Hoje ele existe em fragmentos contínuos: corte de vídeo, bastidor, análise tática, react no TikTok, transmissão ao vivo no YouTube, podcast pós-jogo e, ainda, no velho companheiro de sempre: o rádio. O dado mais simbólico é que 79% do consumo digital de esportes ocorrem exclusivamente via celular, o que indica que o torcedor já não depende mais de um lugar físico para acompanhar sua equipe. O esporte não cabe mais na sala: ele habita o corpo em movimento.
A ascensão de projetos como CazéTV e geTV no YouTube ilustra esse novo ecossistema. Entre setembro e novembro de 2025, a CazéTV acumulou 585 milhões de visualizações, enquanto o geTV registrou 489 milhões. Esses números rivalizam com grandes audiências da TV aberta, mas dentro de uma lógica em que o público não é mais apenas espectador: é comentarista, editor, produtor, memeiro.
Contudo, ao contrário do que discursos tecnicistas costumam anunciar, esse cenário não matou o rádio – ao contrário, reposicionou seu papel. Dados históricos do Ibope/Kantar Media e do Inside Radio mostram que o rádio segue sendo o meio mais estável para consumo esportivo em tempo real, especialmente em deslocamentos urbanos. No Brasil, pesquisas recentes indicam que mais de 60% dos ouvintes de rádio acompanham esportes pelo menos uma vez por semana, sendo futebol, automobilismo e esportes olímpicos os principais conteúdos.

O que mudou não foi o interesse pelo áudio, mas a forma como ele circula.
Se as plataformas digitais disputam atenção por imagem, o rádio continua sendo o meio da companhia contínua. Ele não exige tela, não exige foco exclusivo, não exige imobilidade. Por isso, mesmo em 2025, estudos da Nielsen Audio e da Kantar Ibope Media mostram que o rádio mantém altíssimos índices de consumo esportivo em carros, transporte público, trabalho e atividades domésticas.
Em termos comparativos:
Meio – Tipo de consumo esportivo dominante
YouTube/redes sociais – Highlights, reações, lives, bastidores
Streaming de vídeo – Jogos completos, eventos especiais
Podcasts – Análise, debate, storytelling esportivo
Rádio – Acompanhamento ao vivo, narração em tempo real, informação contínua
O rádio não compete mais por exclusividade – ele opera como infraestrutura sensorial do cotidiano, especialmente em contextos em que a atenção visual é impossível ou inconveniente.
A grande ruptura não está no conteúdo, mas na mediação da experiência esportiva. Durante décadas, essa mediação foi feita por narradores, comentaristas e diretores de programação. Hoje, ela é feita por algoritmos de recomendação, métricas de engajamento e plataformas que decidem o que aparece, quando e para quem.
O paradoxo é que, enquanto o digital promete personalização extrema, o rádio ainda oferece algo raro: experiência coletiva síncrona sem mediação algorítmica direta. Todo mundo ouve a mesma narração, no mesmo tempo, com a mesma emoção. Não há filtro, não há feed, não há curadoria invisível.
Por isso, mesmo em um país onde 16% de todas as interações nas redes sociais estão ligadas a marcas e clubes esportivos, o rádio permanece como o meio de maior credibilidade informativa no esporte, segundo rankings recorrentes do Reuters Institute e do Edelman Trust Barometer.

A Comscore projeta que 2026 consolidará definitivamente o modelo multitelas, impulsionado pela Copa do Mundo nos EUA, Canadá e México. Mas, paralelamente, relatórios de Deloitte, Nielsen e Statista indicam que o crescimento do esporte virá também pela expansão do áudio: podcasts esportivos, rádios híbridas, transmissões em smart speakers, dashboards automotivos conectados e experiências sonoras imersivas.
Em termos estratégicos:
- O vídeo domina a descoberta.
- O texto organiza a memória.
- O áudio sustenta o vínculo emocional.
O esporte, que durante um século foi o grande espetáculo da televisão, agora se torna o principal motor simbólico da cultura digital sonora. Ele não apenas gera audiência – ele organiza rotinas, deslocamentos, afetos e economias inteiras.
No fim, talvez o dado mais revelador não seja que o Brasil é o segundo maior mercado digital de esportes do mundo. O mais revelador é que, mesmo no auge das telas, o esporte ainda passa pelo som. E talvez continue passando, porque a emoção não precisa de imagem para existir – mas precisa de voz para ser compartilhada.
Fontes principais
- Revista Tela Viva – Brasil assume segunda posição global em consumo digital de esportes (2025).
- Comscore – The Sports in the Digital Environment Report (2025).
Fontes sobre rádio e esporte
- Kantar Ibope Media – Book de Rádio Brasil (2024–2025).
- Nielsen Audio – Sports Listening Report (EUA, 2023–2025).
- Inside Radio – Sports Radio Trends.
- Edison Research – Infinite Dial (edições 2023–2025).
- Reuters Institute – Digital News Report (confiança em meios).
Fontes analíticas complementares
- Deloitte – Global Sports Industry Outlook.
- Statista – Sports Media Consumption.
- MIT Technology Review – Attention Economy.
- Edelman Trust Barometer – Media Trust Rankings.

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.
(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.










