Por Álvaro Bufarah (*)

A decisão de encerrar a operação da rádio da CBS News não é apenas mais um corte em uma empresa tradicional – é, sobretudo, um sintoma claro de uma transformação estrutural que vem redesenhando o ecossistema global da informação.

Durante décadas, o rádio foi o eixo central da distribuição de notícias em tempo real. Foi por meio dele que vozes como a de Edward R. Murrow atravessaram fronteiras e consolidaram o jornalismo como serviço público. Hoje, no entanto, essa lógica parece ceder espaço a um novo regime informacional: mais fragmentado, mais personalizado e, sobretudo, mais dependente de plataformas digitais.

O fechamento da rede, que reunia cerca de 700 afiliadas, não pode ser interpretado como um evento isolado. Ele se insere em um movimento mais amplo de retração das estruturas tradicionais de mídia. Redações estão encolhendo, operações estão sendo consolidadas e produtos considerados “não estratégicos” vêm sendo descontinuados. O caso da CBS ecoa um cenário já observado em veículos como o The Washington Post, que também passou por cortes relevantes de equipe nos últimos anos.

Há por trás disso uma mudança profunda no comportamento do público. O consumo linear – aquele baseado em grades fixas de programação – perde espaço para o consumo sob demanda. O ouvinte deixa de ser apenas receptor e passa a ser também curador do próprio fluxo informativo. Nesse contexto, o crescimento dos podcasts e das plataformas de áudio digital não é apenas uma tendência: é uma reconfiguração do próprio conceito de audiência.

Estudos recentes do mercado indicam que o consumo de áudio digital segue em expansão contínua, especialmente entre públicos mais jovens, enquanto o rádio tradicional apresenta estagnação ou queda em diversos mercados. Ao mesmo tempo, anunciantes têm redirecionado investimentos para ambientes digitais, onde é possível mensurar com maior precisão o comportamento do usuário – algo que o rádio, historicamente, sempre teve dificuldade em oferecer.

Mas há um elemento ainda mais sensível nessa equação: o custo. Manter uma rede com centenas de afiliadas, estrutura técnica distribuída e equipes jornalísticas dedicadas implica um modelo operacional pesado – especialmente quando comparado à lógica enxuta das plataformas digitais. Em outras palavras, o rádio tradicional não apenas perde audiência: ele se torna mais caro de sustentar no novo ambiente econômico da mídia.

É nesse ponto que a decisão da CBS ganha contornos mais claros. Não se trata necessariamente de uma escolha editorial ou ideológica, mas de uma readequação a um modelo de negócios que já não se sustenta com a mesma eficiência de antes.

Ainda assim, há um paradoxo inevitável. Ao encerrar uma operação com quase um século de história, a empresa não apenas corta custos – ela também interrompe um canal que, por décadas, garantiu capilaridade informativa em regiões onde outros meios não chegavam com a mesma força. O rádio, especialmente em sua dimensão local, sempre foi mais do que um meio: foi uma infraestrutura social.

A evocação de Murrow no comunicado oficial não é casual. Ela funciona como uma tentativa de conectar o presente a um passado de relevância e credibilidade. Mas também expõe uma contradição silenciosa: o modelo que permitiu a existência de figuras como Murrow é, justamente, o que está sendo desmontado.

Edward R. Murrow (Crédito: CBS Radio)

Se estivesse ativo hoje, é possível que o próprio Murrow enfrentasse as mesmas pressões que hoje atingem jornalistas em todo o mundo: redução de espaços, aceleração das rotinas produtivas e dependência crescente de plataformas intermediárias.

O encerramento da CBS News Radio, portanto, não é apenas o fim de uma operação. É o retrato de uma transição – talvez irreversível – de um sistema baseado na centralidade dos meios para outro estruturado pela lógica das plataformas.

E, como toda transição, ela traz ganhos e perdas. Ganha-se em eficiência, escala e personalização. Perde-se, possivelmente, em profundidade, diversidade e presença territorial.

No fim das contas, a pergunta que permanece não é apenas sobre o futuro do rádio, mas sobre o futuro do próprio jornalismo em um ambiente onde a distribuição já não depende mais das redações – mas dos algoritmos.

 

Fontes de pesquisa.

Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

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