Por Álvaro Bufarah (*)

Há momentos na história do rádio em que a tecnologia não apenas inova: ela reorganiza o ecossistema inteiro ao redor de si. Em 2026, essa reorganização terá um nome cada vez mais incontornável – rádio híbrido impulsionado por dados, operando no coração do carro conectado. A cada trimestre de pesquisas divulgadas por Xperi, Deloitte, PwC, WorldDAB e Edison Research torna-se claro que não estamos mais diante de um experimento tecnológico, mas de uma reconfiguração estrutural de como o áudio se comporta dentro de veículos.

Se 2025 foi o ano das primeiras integrações avançadas, 2026 será o momento em que o carro se consolidará como o principal centro de consumo, medição e monetização do rádio mundial. E isso não porque o dial voltará ao glamour, mas porque o rádio, ao tornar-se híbrido, volta a se integrar com o cotidiano digital do ouvinte.

  1. Expansão acelerada: o rádio híbrido deixa a fase piloto e entra em escala global

A plataforma DTS AutoStage, hoje presente em mais de 13 milhões de veículos, deve ultrapassar a marca dos 20 milhões até o final de 2026, segundo previsões internas da própria Xperi e estimativas de consultorias como ABI Research. Essa expansão será impulsionada por três movimentos simultâneos:

  • Adoção massiva de conectividade nativa por montadoras;
  • Pressão do consumidor por painéis mais inteligentes e integrados a serviços digitais;
  • Demanda das emissoras e da indústria publicitária por dados mais robustos.

A WorldDAB Global Automotive 2025 estima que, até 2027, 72% das montadoras do Ocidente adotarão sistemas híbridos como padrão, enquanto na Ásia esse índice deve ultrapassar 80%. A Europa avança mais rápido, mas os EUA definem ritmo – e o Brasil, como tradicional retardatário tecnológico, começa a se mover por necessidade comercial, não mais apenas curiosidade.

(Crédito: broadcastdialogue.com)

 

  1. O salto qualitativo: dados deixam de ser métricas e passam a definir estratégia

As últimas atualizações do portal DTS AutoStage ajudam a prever o que acontecerá no próximo ano.

A leitura integrada de

  • alcance real,
  • tempo de sintonia,
  • retenção por faixa horária,
  • zonas geográficas de escuta,
  • ranking dinâmico de músicas,
  • comportamento por dia da semana, e
  • condições externas (como clima e trânsito)

constitui um novo padrão de Business Intelligence para emissoras.

Em 2026, a tendência é que três movimentos estruturais ocorram:

  1. a) Programação responsiva

Grade de programação adaptada automaticamente com base em comportamentos de audiência geolocalizados.

Não será mais sobre “o que funciona”, mas onde funciona, quando funciona e com quem funciona.

  1. b) Comercialização orientada a dados

Anunciantes poderão negociar pacotes fundamentados em métricas automotivas reais, e não extrapoladas.

Isso coloca rádio e streaming no mesmo patamar de transparência – algo impensável há cinco anos.

  1. c) Automação estratégica

Algoritmos sugerirão ajustes de grade, trocas de músicas, faixas de maior abandono e picos de sintonia – tudo em tempo real.

O rádio deixa de ser apenas criativo; torna-se científico em sua operação.

  1. Monetização: quando o painel do carro virar vitrine publicitária personalizada

O anúncio da Xperi de que, a partir de 2026, pretende monetizar sua base de dados deve produzir um impacto profundo na dinâmica do mercado. A publicidade passará a considerar:

  • Localização do veículo;
  • Contexto ambiental (chuva, trânsito, horário);
  • Histórico de comportamento do motorista;
  • Tipo de conteúdo consumido;
  • Rota percorrida e duração média das viagens.

A PwC estima que o mercado global de publicidade contextual automotiva deve atingir US$ 64 bilhões até 2030, com crescimento anual superior a 18%. O rádio – tradicionalmente excluído da economia dos dados – finalmente entra no jogo.

Para as emissoras, a grande questão será: qual modelo de revenue share surgirá?

Para a indústria, a resposta pode redefinir os próximos 10 anos.

  1. Brasil: a janela de oportunidade e o risco de ficar para trás

O Brasil tem duas vantagens históricas:

  • Rádio com penetração cultural profunda
  • Frota automotiva numerosa e em constante renovação

Mas enfrenta dois desafios:

  • lentidão regulatória,
  • resistência estrutural das emissoras a investimentos tecnológicos.

Contudo, o movimento já começou. Emissoras como Globo FM, Metropolitana e Massa FM já enviam metadados para o AutoStage. Em 2026, espera-se que ao menos 30 novas emissoras integrem a plataforma, principalmente em capitais do Sudeste e Sul.

O dilema brasileiro é simples: ou o rádio se integra a esse novo ecossistema – inteligente, conectado e monetizável – ou continuará perdendo anunciantes para plataformas digitais que operam com dados de precisão cirúrgica.

(Crédito: zydigital.com.br)
  1. 2026: o ano em que o rádio finalmente enxergará seu ouvinte

Após cem anos de existência, o rádio entra em uma era em que:

  • sabe onde seu público está,
  • como se desloca,
  • quanto tempo permanece,
  • o que gosta de ouvir,
  • e o que abandona imediatamente.

E isso muda tudo.

De um lado, a criatividade continua indispensável.

Do outro, a inteligência de mercado deixa de ser luxo: torna-se condição de sobrevivência.

O rádio de 2026 não será o rádio que conhecemos – será uma plataforma híbrida, responsiva, integrada ao veículo e ao cotidiano do usuário. Um rádio que não apenas fala, mas ouve. Não apenas transmite, mas aprende. Não apenas ocupa espaço: gera valor.

E, acima de tudo, um rádio que percebe, finalmente, que o futuro não está na disputa com o digital – mas em assumir, com naturalidade, que ele próprio se tornou digital.


Fontes de pesquisa

Relatórios e estudos

  • Deloitte – TMT Predictions 2025
  • PwC – Global Entertainment & Media Outlook 2024–2028
  • Edison Research – Share of Ear 2024 e Infinite Dial 2025
  • WorldDAB – Global Automotive Update 2024
  • ABI Research – Connected Car Market Forecast 2025–2030
  • Statista – Global Connected Car Penetration 2024–2030
  • McKinsey – The Future of Connected Vehicles 2030
  • Qualcomm – Relatórios de telemática automotiva 2023–2025

Notícias e análises técnicas

  • Radio World
  • RedTech Magazine
  • Inside Radio
  • Automotive News
  • The Verge – Seção de wearables e automotivo
  • Xperi – Press Releases & Investor Reports

Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

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