A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) anunciou em 19 de fevereiro uma profunda reestruturação em seus veículos jornalísticos. Segundo o comunicado, a gerência de Comunicação da entidade criará uma plataforma integrada de divulgação científica que reunirá a Revista Pesquisa Fapesp, a Agência Fapesp e o boletim Pesquisa para Inovação.
Se por um lado o movimento promete reformular a maneira como a produção científica paulista é apresentada ao público e concentrar, em uma mesma estrutura, fluxos editoriais que até então operavam de forma autônoma, por outro ele vem causando apreensão pelo impacto que causará em seus veículos, especialmente na Revista Pesquisa Fapesp.
Isso porque a tradicional publicação, com 30 anos de história, deixará de circular em sua versão impressa. Além disso, também vê sua periodicidade, atualmente mensal, ameaçada, e pode sofrer um profundo corte em sua equipe. A primeira baixa, já confirmada, foi o da diretora de redação Alexandra Ozório de Almeida, que teve seu contrato encerrado no final de fevereiro. Outros dez jornalistas que atuam na produção da revista também correm o risco de serem desligados nas próximas semanas. São eles: Ana Paula Orlandi, Carlos Fioravanti, Christina Queiroz, Fabrício Marques, Marcos Pivetta, Maria Guimarães, Neldson Marcolin, Ricardo Zorzetto, Sarah Schmidt e Yuri Vasconcelos.
Em entrevista a este Portal dos Jornalistas, Carlos Graeff, diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo da Fapesp, justificou o corte alegando que, tanto a diretora de Redação, como os demais jornalistas da revista, não são funcionários da Fapesp, uma vez que prestam serviços por meio de empresas contratadas pela Fundação da USP (FUSP).
Segundo o executivo, com o final do convênio Fapesp-FUSP, no próximo mês de maio, todos os contratos de prestação de serviços serão encerrados. “Nossa intenção é que aqueles que trabalham atualmente na revista, se quiserem continuar, poderão seguir prestando os mesmos serviços”, garantiu Graeff, que também é responsável pela Comunicação da entidade, porém sem informar em que moldes de trabalho e tipo de negociação.
Preocupada com o impacto que essas decisões podem causar à divulgação científica e aos profissionais que atuam na publicação, a Rede Brasileira de Jornalistas e Comunicadores de Ciência publicou uma carta de apoio à Revista Pesquisa Fapesp, que até a manhã dessa segunda-feira (2/3) já reunia mais de 700 assinaturas.
“Diluir essa experiência em uma estrutura comunicacional subordinada à lógica institucional implica riscos concretos à autonomia editorial, à diversidade de abordagens e à própria credibilidade construída ao longo do tempo. Além disso, qualquer transformação dessa natureza deveria observar, com ainda mais cuidado, os princípios da transparência, da publicidade e da participação, especialmente quando se trata de iniciativa financiada com recursos públicos e voltada à divulgação de pesquisa também custeada por financiamento público”, destacou o comunicado.
Nomeado em agosto do ano passado pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), Graeff garante que “em momento algum foi cogitada a retirada de circulação da revista, que continuará com a mesma periodicidade e qualidade e mantida com recursos da Fapesp”. Apesar disso, profissionais que atuam na publicação e no setor ouvidos pela reportagem denunciam que essa decisão faz parte de um movimento mais amplo do governador paulista em enfraquecer a pesquisa científica no Estado.
Vale lembrar que em maio do ano passado Tarcísio de Freitas foi duramente criticado após apresentar um Projeto de Lei que impactava diretamente a carreira de pesquisador científico no estado de São Paulo. Entre as principais mudanças defendidas pelo projeto, estava o fim do regime de tempo integral para pesquisadores e a alteração na remuneração das bolsas. O PL, que não contou com debate junto aos pesquisadores, foi visto como uma ameaça de “desestruturação da carreira” e que poderia levar à “desvalorização dos profissionais que nela atuam”.
Sobre a Revista Pesquisa Fapesp

Criada em 1995 como um house organ com quatro páginas, tiragem de 1.000 exemplares e com o nome de Notícias Fapesp, a Revista Pesquisa Fapesp ganhou o atual nome e formato em outubro de 1999. Desde então, consolidou-se como uma das principais publicações brasileiras na divulgação dos avanços da produção científica e tecnológica nacional em quatro grandes áreas: ciência, tecnologia, política científica e tecnológica e humanidades.
Atualmente, conta com tiragem média mensal de 28,5 mil exemplares distribuídos de forma gratuita para pesquisadores que têm projetos financiados pela Fapesp, para bibliotecas, escolas e outras instituições de ensino. Além disso, dispõe de cerca de 5 mil assinantes pagos e vende em torno de 800 exemplares por mês em banca. Todo o conteúdo produzido é também disponibilizado gratuitamente no site.
Ao longo de suas três décadas de atuação, recebeu importantes reconhecimentos nacionais e internacionais do Jornalismo, tendo sido eleita inclusive em 2023 como o +Admirado Veículo Impresso Especializado em Jornalismo Científico, pela eleição dos +Admirados da Imprensa de Saúde, Ciência e Bem-Estar.








