Por Assis Ângelo
No Brasil sempre houve pessoas que acreditaram nas pessoas e na liberdade necessária para a sobrevivência do bem comum.
Entre pessoas que sempre acreditaram nas outras houve aquelas que desenvolveram o bem-viver pelo caminho das artes, caminhos esses sempre tornados fonte do livre pensar e agir.
Bom, o Brasil foi durante muito tempo quintal dos invasores europeus. Mas a liberdade sempre foi objetivo e esperança de artistas da palavra, como Gregório de Matos e Guerra (1636-1696).
Esse Guerra sempre foi da paz e usou as palavras como arma e divertimento.
O tempo passou e guerras várias com derramamento de sangue ocorreram de canto a canto do território nacional.
Como Gregório de Matos, na Bahia também nasceu Antônio Frederico de Castro Alves.
Castro Alves muito cedo viu nas letras o caminho da liberdade. E gritou: “A praça é do povo como o céu é do condor”.
Como Gregório e Castro Alves, o baiano de Itabuna Jorge Leal Amado de Faria via na liberdade o caminho natural da vida.
Toda a obra literária de Jorge Amado traz a luta do povo contra as injustiças sociais. Independentemente de cor e sexo, Jorge exalta a força e a coragem dos personagens que vão se movimentando nas páginas dos seus livros.
Não são poucos ou poucas os heróis e heroínas que ganham forma e força nas histórias de Jorge Amado. Tereza Batista é, por exemplo, personagem capaz de encantar o mais frio dos leitores.
E o que dizer de Gabriela e de Tieta do Agreste?
Centenas de personagens anônimos, para dizer o mínimo, pululam nos capítulos das dezenas de romances de Jorge Amado. Entre esses, são incontáveis os cegos tocadores de viola que cantam nas feiras livres do Nordeste profundo.
No romance Seara Vermelha (1946) aparece de raspão um certo Cosme. Esse Cosme, cego de um olho, está noivo de uma Teresa. Sonham, almejam a felicidade com o matrimônio. Casamento marcado, casamento realizado. Porém, um porém: uma bidu, adivinhona de plantão, diz que má notícia está chegando.

E a história começa por aí.
A má notícia chega numa carta selada. O conteúdo, escrito pelo dono das terras onde mora o casal e outros agregados igualmente explorados, dá conta de que todos que ali vivem devem ser postos no olho cego da rua.
A determinação contida na carta é cumprida à risca. E, a partir daí, as pobres personagens lançam-se à própria sorte, subindo e descendo ladeira com a barriga vazia e a morte à espreita como maligna companhia. E as crianças vão morrendo de fome, de tifo e outros males, como a menininha Noca, que carrega consigo o tempo todo a gatinha Marisca.
A história de Marisca lembra um pouco a história do papagaio que acompanha a fuga da seca de uma família nordestina narrada pelo alagoano Graciliano Ramos no seu clássico Vidas Secas (1938).
Há um momento em Seara Vermelha que remete o bom leitor ao romance Lucíola (1862), do romântico cearense José de Alencar. Nesse livro, a personagem título prostitui-se para salvar a família de uma epidemia que grassava no tempo em que a história é contada.
Ao tomar conhecimento do que fizera a filha, o pai a expulsa de casa. E é a partir daí que Lucíola vira mulher-dama.
Na história de Amado acontece em parte com a personagem Marta o que acontece com Lucíola.
Marta, para conseguir documento que salvaria o pai, Jerônimo, rende-se à calhordice do médico e assim acaba por obter o que almejava. Ao saber disso, o pai a expulsa e aos gritos diz que nunca mais quer vê-la.
O fim de Marta é num cabaré, doente e pobre.
Seara Vermelha é um livro no qual o autor expõe-se completamente como romancista engajado. Começa com a dedicatória que faz a Luís Carlos Prestes (1898-1990) e a João Amazonas (1912-2002).
Jorge Amado, não custa lembrar, identificava-se plenamente com Castro Alves. Tanto que em 1941 lançou à praça ABC de Castro Alves. É uma biografia supimpa.

O título Seara Vermelha foi extraído do poema Bandido Negro, de Castro Alves. Esse poema foi publicado no livro póstumo Os Escravos (1883). Um trecho:
Trema a terra de susto aterrada…
Minha égua veloz, desgrenhada,
Negra, escura nas lapas voou.
Trema o céu… ó ruína! ó desgraça!
Porque o negro bandido é quem passa,
Porque o negro bandido bradou:
Cai, orvalho de sangue do escravo,
Cai, orvalho, na face do algoz.
Cresce, cresce, seara vermelha,
Cresce, cresce, vingança feroz.
Castro Alves morreu de tuberculose com 24 anos, três semanas e um dia, em 1871.
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