Por Assis Ângelo

Guerra por guerra ou isso mesmo no plural, há registro na história dando conta de que algumas centenas de soldados franceses foram obrigados a voltar para casa com olhos cegos. A luta de que participaram teve lugar no Egito do século 13, ali pelo ano de 1254. Foram cegados pelos sarracenos. A partir daí, o rei Luís IX (2014-1270) criou o que se pode considerar a primeira entidade construída especialmente para o acolhimento de soldados cegados em batalhas e civis em geral.

Luís IX é visto pela história como um rei honesto e justo. Três décadas depois da sua morte, foi canonizado e virou santo no pontificado de Bonifácio VIII. Curiosidade: esse rei acabaria por dar nome à cidade brasileira de São Luís do Maranhão.

Muitas outras coisas doidas foram registradas nas páginas da história.

Obviedades à parte, não é demais lembrar que foi no século 13 que grandes descalabros passaram a ser cometidos por poderosos malucos da Igreja Católica. Não foram poucas as vítimas que sucumbiram envoltas nas redes da Inquisição.

Alguns dos representantes do maldito Santo Ofício andaram com olhos grandes e mal intencionados pelo solo brasileiro, visitando algumas das principais regiões do nosso país, como Nordeste e Sudeste.

Essa história marcou época e registro no romance brasileiro.

Alguns dos nossos grandes escritores criaram personagens que os inquisidores agradeceriam ao Diabo caso tivessem tido a oportunidade de pegá-los.

Antes de Jorge Amado carregar nas páginas dos seus livros personagens portadoras de dons como feitiço, outro baiano antecipou-se. Seu nome: Francisco Xavier Ferreira Marques (1861-1942).

Esse Francisco, nascido na Ilha de Itaparica, assinava suas obras simplesmente como Xavier Marques. É dele, por exemplo, o romance O Feiticeiro (1922).

Em 1871 o escritor cearense José de Alencar levou à praça O Tronco do Ipê. O primeiro capítulo desse livro começa sob o título O Feiticeiro.

O feiticeiro de Alencar é, como se pode dizer, do bem. Chama-se Pai Benedito, africano octogenário há muito vivendo num casebre localizado nas imediações de uma espécie de lagoa brava e encantada.

O enredo traçado por José de Alencar lembra um pouco da trama desenvolvida no segundo romance da carreira bem sucedida de Jorge Amado: Cacau (1933). Nesse livro, o personagem Sergipano vê-se obrigado a trocar a terra onde nasceu por outra onde julgava viver melhor. Isso porque o pai, ao morrer, teve todos os bens usurpados pelo irmão, deixando-o à mingua junto com a mãe e uma irmã. Foi para a Bahia, mas lá deu tudo errado. Poderia ter sido o contrário, caso aceitasse a proposta espúria da filha do patrão. Prepotente e sem escrúpulo, essa mulher, ao topar com um cego na rua, atirou-lhe uma moeda como alguém que cospe na cara de alguém. O gesto transtornou Sergipano.

O preto velho de O Tronco do Ipê guarda consigo muitos segredos. Um deles vem à tona quando o personagem Mário salva de afogamento a menina Alice, filha do dono da fazenda onde esse personagem passou a morar após a morte do pai, José Figueira.

O Tronco do Ipê é cheio de muito amor, ódio e feitiço.

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A rigor, bem a rigor, o cacau entra como riqueza na obra de Amado a partir de 1933.

Em 1931, ele havia estreado na literatura com o romance O País do Carnaval. Nesse livro mostra com clareza com que olhos passaria a ver a vida operária do nosso povo. Até o velho barbudo Marx é citado por um dos personagens. Prostíbulos e mulheres ditas da vida se acham no decorrer das páginas.

Um dos personagens mais marcantes do livro é o jornalista Pedro Ticiano, esquerdista de atuação extremada, em cujos textos publicados no jornal que dirigia não poupava figurões da elite do seu tempo. O fim do enredo tem um quê de nostalgia: Ticiano acaba morrendo cego na casa de um filho.

Exatos 30 anos depois de lançado O País do Carnaval, Jorge Amado ganha cadeira na Academia Brasileira de Letras.

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

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