Por Assis Ângelo
As desgraças do mundo foram tantas que quase desnecessário é dizer que já não cabem no balaio do passado. E por não caberem completamente nesse balaio, dificilmente caberão no espaço do presente que vivemos.
E as desgraceiras do futuro, hein?
Antes da cegueira dos olhos, a humanidade quase toda sempre foi cega. Metaforicamente falando, claro. Claríssimo, não é mesmo?
A história conta das pequenas e grandes guerras provocadas pela estupidez humana.
Pois é, a história se repete.
Na Antiguidade as pessoas portadoras de qualquer tipo de deficiência eram descartadas do meio social já logo ao nascer.
Essas pessoas já não são mais eliminadas como nos tempos de antanho, mas ainda assim comem o pão que o diabo amassa e torra nos fornos do Inferno.
As pessoas cegas hoje somam-se aos milhões mundo afora. E grave, mas gravíssimo mesmo, é sabermos dos números absurdos referentes às pessoas desprovidas de visão nos olhos que são violentadas de todas as formas no dia a dia cachorro que vivemos.
Saber que crianças cegas são violentadas física e sexualmente no seio familiar, mais das vezes, é nos deixar de crer no próximo, não é?
Tereza Batista Cansada de Guerra (1972), romance de Jorge Amado (1912-2001), começa de modo a nos sangrar o coração.

A Tereza do Jorge, órfã de pai e mãe aos 8 anos, é vendida pela tia Felipa ao capitão canalha Justiniano Duarte da Rosa. Esse tal é um pedófilo que deveria ter nascido morto. Rico e violento, compra meninas na flor da idade com o propósito de deflorá-las. E isso o faz dezenas e dezenas de vezes, impunemente. Mas seus dias estão contados, desde o momento que ele faz o que faz com a pequena Tereza, no tempo dos seus 12 anos de idade.
Até conseguir violentar a menina Tereza, apanha dela e quase sai cego, depois de atingido por suas unhas cravadas no rosto.
Enfim, dias contados…
Tereza finda por matar o seu algoz com uma bem dada facada nas costas, enquanto ele a esbofeteava.
Enfim, a vida passa que nem uva e como espinhoso cacto, duro, Tereza transforma-se numa espécie de heroína das mulheres até então desvalidas, como ela. Briguenta que só!
Muitos livros do bom baiano Jorge Amado têm a mulher como heroína.
As heroínas de Jorge vêm sempre dos cafundós do Judas. Das quebradas, do bem longe que nem os olhos veem.
Dentre os livros com heroínas do Jorge destaque para, além da aqui já citada Tereza, Gabriela (1958), Dona Flor (1966) e Bernarda de Tocaia Grande (1984).

Claro, há também grandes heróis criados por Jorge. Entre esses, Joaquim, de A Morte e A Morte de Quincas Berro D’Água (1959).
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública divulgou dados em 2025 dando conta de que em 2024 o Brasil bateu triste recorde de 87.545 estupros: 77% das vítimas tinham menos de 14 anos e 88% eram do sexo feminino.
Os romances de Jorge Amado quase sempre mostram as vivências do povo do Nordeste, especialmente de Bahia e Sergipe.
A citação a sergipanos e sergipanas deve-se certamente ao fato de o autor ter morado em Sergipe nos seus tempos de rapaz.
O machismo corre solto em Tocaia Grande, Dona Flor, Gabriela…
Gabriela Cravo e Canela começa com um duplo homicídio. O autor é traído pela mulher com um dentista. Os dois morrem na hora.
Pois é, não é só na literatura que o machismo encontra espaço.
Em 2024 registraram-se, no Brasil, 1.492 feminicídios e 3.870 tentativas de feminicídio.
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