Por Assis Ângelo
A onda de cristãos-novos começou na última década do século 15 em Portugal, quando o rei D. Manuel I determinou que judeus e muçulmanos assumissem a fé católica.
O Brasil foi um dos países mais procurados pelos novos cristãos, que aqui desejavam retomar a vida que viviam, especialmente em Portugal e Espanha. Mas nem tudo ocorreu como queriam.
Centenas de cristãos-novos foram do Brasil levados para Portugal onde tiveram seu fim.
Há casos curiosos e até lendários referidos na nossa história, como o que trata de Branca Dias.
Branca, dizem alguns, nasceu em Portugal e viveu entre Pernambuco e Paraíba. Era detentora de muitos bens e esse detalhe deixava os inquisidores de olhos arregalados de tanta cobiça.
Há quem diga que Branca era brasileira e acabou-se em 1761, ardendo numa fogueira.
A história dessa mulher é muito confusa, embora seja ampla a literatura a seu respeito em Portugal e no Brasil.
O dramaturgo baiano Dias Gomes (1922-1999) escreveu, sem compromisso com a história, a peça O Santo Inquérito (1966). Ótima. A personagem central é Branca Dias.

Não há referência direta à eventual cegueira física de Branca, mas são muitas e muitas as referências figuradas ou metafóricas de quem nada enxergava da selvageria praticada pelos criminosos do Santo Ofício. Aliás, é história: os inquisidores prendiam e torturavam suas vítimas de todas as formas. Havia até um instrumento especial para cegar pessoas.
O escritor e poeta Edgar Allan Poe andou pondo no papel suas impressões sobre o tema cá em questão. Vale a pena ler os reler o conto O Poço e o Pêndulo, de 1842.
Bom, voltando a Branca Dias: o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) publicou texto de rara beleza, incluído no livro Discurso de Primavera e Algumas Sombras (1978), enaltecendo essa controvertida personagem. Este:

Branca Dias
paixão de frade
em seu engenho
da Paraíba
repele o amor
pecaminoso.
O amor se vinga:
é acusada
de judaísmo.
Já vão prendê-la.
Atira joias
e prataria
na correnteza.
A água vira
Riacho da Prata.
Morre queimada
no santo lume
da Inquisição
em Portugal.
Reaparece
na Paraíba
em Pernambuco
sob o luar
toda de branco
sandálias brancas
cinto azul-ouro.
Branca Dias
– garantem livros –
nunca existiu,
é lenda pura
de lua cheia.
E a Inquisição
provavelmente
outra ilusão.
Não foram poucos os literatos brasileiros que se debruçaram sobre o tema judeus e cristãos-novos.
Machado de Assis, uma das nossas glórias literárias, não deixou por menos. No seu livro Americanas (1875), de poesias, se acha a pérola que intitulou A Cristã-Nova. Um trecho:

Quatro vultos na câmara paterna
Eram. O pai sentado,
Calado e triste. Reclinada a fronte
No espaldar da cadeira, a filha os olhos
E o rosto esconde, mas tremor contínuo
De um abafado soluçar o esbelto
Corpo lhe agita. Nuno aos dois se chega;
Ia a falar, quando a formosa virgem,
Os lacrimosos olhos levantando,
Um grito solta do íntimo do peito
E se lhe prostra aos pés: “Oh! vivo, és vivo!
Inda bem… Mas o céu, que por nós vela,
Aqui te envia… Salva-o tu, se podes,
Salva meu pobre pai!” Estremecendo
Nela e no velho fita Nuno os olhos,
E agitado pergunta: “Qual ousado
Braço lhe ameaça a vida?” Cavernosa
Uma voz lhe responde: “O santo ofício!”
Volve o mancebo o rosto
E o merencório aspecto
De dois familiares todo o sangue
Nas veias lhe gelou…
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