Por Assis Ângelo

Não foram muitos os astrônomos e intelectuais que tais que escaparam vivos da fogueira dos juízes malucos do Tribunal do Santo Ofício. Galileu foi uma dessas figuras que ganharam a oportunidade de viver por mais algum tempo ao concordar, sob pressão, com a tese católica de que a Terra seria o centro do Universo.

Pessoas do cotidiano comum, principalmente cristãos-novos, foram denunciadas como hereges e tal e mofaram nos calabouços e arderam nas chamas da Inquisição.

Portugal e Espanha foram dois dos países em que a Inquisição fez a festa.

As vítimas da Inquisição foram milhares e milhares.

Oficialmente, não há notícia de que o Brasil tenha acolhido inquisidores autorizados a julgar e a condenar à fogueira brasileiros e brasileiras dos tempos daquele tribunal. Porém, aqui e ali acham-se registros de pessoas que arderam nas labaredas da Inquisição, em São Paulo.

A prática comum da Inquisição no Brasil era enviar a Portugal pessoas acusadas de feitiçaria, sodomia, bigamia…

Judaísmo era considerado crime.

Segundo a historiadora Anita Novinsky (1922-2021), autora do livro Inquisição: Prisioneiros do Brasil, pelo menos 1.076 pessoas foram levadas do Brasil para Portugal e de lá nunca mais voltaram. Dessa leva, 29 acusados e acusadas morreram na fogueira. Uma dessas pessoas foi a pernambucana Guiomar Nunes (1692-1731).

Guiomar era casada e vivia no interior da Paraíba. Deixou viúvo o marido Francisco e órfãos oito filhos.

O soteropolitano Gregório de Matos e Guerra (1636-1696) estudou em Coimbra e voltou doutor e padre da Igreja Católica Apostólica Romana. Exerceu por pouco tempo o ministério. Isso ocorreu porque ele se recusava a usar batina.

Gregório de Matos e Guerra

Paralelamente à religião católica, Gregório escrevia poemas que nem um condenado. Os temas abordados eram todos e da sua ferina pena não escapavam autoridades políticas e o povaréu em geral, incluindo brancos e pretos, pobres, ricos, comerciantes, cornos e putas.

Gregório morreu em Recife jurando amor a Cristo.

Para esse grande poeta baiano, o sagrado e o profano andavam conjuntamente de mãos dadas na rua e fosse lá onde fosse.

Gregório, que se tornou um dos mais polêmicos poetas do Brasil, foi denunciado à Inquisição no ano de 1685. Escapou das masmorras e de eventual queima na fogueira.

O cego está presente física ou metaforicamente na obra desse excelso brasileiro da Bahia. É dele esta pérola:

 

À procissão de cinza em Pernambuco

 

Um negro magro de sufulié justo,

Dois azorragues de um joá pendentes,

Barbado o Peres, mais dois penitentes,

Seis crianças com asas sem mais custo.

 

De vermelho o mulato mais robusto,

Três fradinhos meninos inocentes,

Dez ou doze brichotes mui agentes,

Vinte ou trinta canelas de ombro onusto.

 

Sem débita reverência seis andores,

Um pendão de algodão tinto em tijuco,

Em fileira dez pares de menores.

 

Atrás um cego, um negro, um mameluco,

Três lotes de rapazes gritadores:

É a procissão de cinza em Pernambuco.

 

Gregório, como muita gente sabe, ganhou o apelido de Boca do Inferno pela verborragia obscena que tanto o caracterizou. Escreveu e falou de tudo o que quis, como o nosso gigante Machado de Assis.

Machado de Assis

Machado, o Bruxo do Cosme Velho, não fazia uso de verbos obscenos. Era seu jeito particular de se manifestar sobre o cotidiano.

Nem temas ligados ao Oriente Médio escaparam do olhar crítico do autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas. Estão lá nas suas crônicas e contos costumes do mundo árabe. Fala de Deus e de seu filho Jesus, Jerusalém, Israel, uma cristã-nova…

É isso.

Contato pelo http://assisangelo.blogspot.com.

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