Por Assis Ângelo

Não é de todo surpreendente a afirmação de que a montanha de páginas que forma Os Irmãos Karamázov é pérola de brilho tão intenso capaz de até cegar olhos desavisados.

Esse romance foi primeiramente publicado na forma de folhetim e depois em livro, em 1880. Seu autor, Fiódor Dostoiévski, morreu logo após completar 60 anos, no dia 9 de fevereiro de 1881.

Bom, o livro é excepcional. Tem muitos personagens. Além de Fiódor Pávlovitch Karamázov, pai de Dmitri, Ivan e Aliócha, o leitor depara-se com uma história longa e envolvente, além de original.

Como Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas (1802-1870), que eram quatro, Os Irmãos Karamázov caiu na boca do povo como sendo uma história envolvendo três irmãos. Na verdade, também eram quatro os irmãos Karamásov no livro assinado pelo ilustríssimo escritor russo.

Ali pelo quinto capítulo do livro cinco que integra o volumoso romance de Dostoiévski, encontra-se um texto impecável sobre a Igreja Católica. O texto é creditado ao personagem Ivã, o segundo dos quatro filhos de Fiódor.

O quarto filho de Fiódor é Pável Smierdiakóv, considerado bastardo.

Entre todos os filhos de Fiódor, Ivã é o mais brilhante. Escrevia para a imprensa da época artigos impactantes e, por isso mesmo, polêmicos. Um desses seus escritos foi intitulado de O Grande Inquisidor. O autor traça contundente panorama sobre a cristandade e coisa e tal.

Ivã Karamázov define seu texto como um poema. Na verdade, o escrito foi desenvolvido poeticamente na forma de prosa. Impecável. Ele começa dizendo que era merecedor de um prefácio ou algo parecido. Começa assim:

“…A ação passa-se no século XVI; bem sabes que era costume, nesta época, fazer intervir nos poemas os poderes celestes. Não falo de Dante. Em França, os ‘clercs de la basoche’ e os monges davam representações em que punham em cena Nossa Senhora, os anjos, os santos, Cristo e Deus. Eram espetáculos ingênuos. Na Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo, o povo é convidado, no tempo de Luís XI, em Paris, e em honra do nascimento do Delfim, para uma representação edificante e gratuita: O Bom Juízo da Sagrada e Graciosa Virgem Maria.”

Ainda no preâmbulo, Ivã lembra uma passagem na Divina Comédia, do italiano Dante Alighieri. Nessa passagem, Inferno, Nossa Senhora roga a Deus pelos pecadores:

“Existe, por exemplo, um pequeno poema, traduzido sem dúvida do grego: A Virgem no Inferno com quadros duma audácia dantesca: a Virgem visita o Inferno, guiada pelo arcanjo S. Miguel, e vê os condenados e os seus tormentos; entre outros, há uma categoria muito interessante de pecadores: os do lago de fogo; mergulham no lago e nunca mais aparecem: são aqueles ‘de que até Deus se esquece’.”

E segue e segue Ivã mergulhando nas dolorosas e sangrentas chagas da Igreja. À sua frente o mano Aliócha ouve-o atentamente. As interrupções são poucas, porém incisivas e merecedoras de acréscimos.

No correr de tudo que diz, Ivã destaca as perseguições contra os cristãos-novos, homossexuais, bígamos, hereges, feiticeiros, levadas avante pelo Santo Ofício.

No ponto em que o Santo Ofício é referido no texto de Ivã, depressa lembrei-me de um conto de Anton Tchekhov (1860-1904). No tal conto, A Feiticeira, é contada a relação entre um casal, um clérigo de baixo escalão e uma jovem de beleza encantadora. O homem acusa a mulher, Raíssa, de feitiçaria e a ameaça de contar o que sabe ao pároco da região. O sujeito é sem futuro, feio e linguarudo. A mulher o trai. Uma noite ao voltar para casa, o sujeito tenta possuir a mulher à força. Mas ela se defende com uma porrada, deixando-o cego.

Ali pelo meio do texto de Ivã é dito que uma pequena multidão segue um jovem. Esse jovem é reconhecido como Jesus, que a pedido não se faz de rogado e ressuscita uma menina e põe luz nos olhos de um cego.

Aos seguidores Jesus agora, na sua volta à Terra, repete o que dissera séculos antes. Fala da importância da paz, justiça, esperança, amor, liberdade, igualdade etc.

Essa história toda se passa em Sevilha, Espanha, num momento qualquer do século 16.

À época, a Inquisição corria solta em toda a Europa e até fora dela, como Índia e Brasil.

A movimentação do chamado Filho de Deus é toda acompanhada por um cardeal. Aliás, daí o título O Grande Inquisidor.

O cardeal, pondo pra valer a sua autoridade de representante graúdo da Igreja, manda soldados prenderem aquele que morreu na cruz por nós. Isso feito, o preso é posto num calabouço e depois visitado pelo inquisidor.

Jesus ouve tudo o que diz o velho religioso, sem mover um músculo ou sequer pestanejar. É pra lascar!

Na última interferência que Aliócha faz ao irmão deixa claro querer saber qual final dará ao texto. Ivã responde:

“O Inquisidor cala-se, espera um momento a resposta do Preso. O Seu silêncio o oprime. O Cativo escutou-o sempre fixando nele o olhar penetrante e calmo, visivelmente decidido a não lhe responder. O velho gostaria de que Ele lhe dissesse alguma coisa, mesmo que fossem palavras amargas e terríveis. De repente, o Preso aproxima-se em silêncio do nonagenário e beija-lhe os lábios exangues. Mais nenhuma resposta. O velho tem um sobressalto, mexe os lábios; vai até à porta, abre-a e diz: ‘Vai e nunca mais voltes… nunca mais.’ E deixa-o ir, nas trevas da cidade. O Preso vai.”

O Santo Ofício foi criado pelo Papa Gregório IX, em 1231. Quer dizer, em plena Idade Média.

Contatos pelo [email protected].

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