Por Assis Ângelo
O feminicídio é uma praga universal. Sempre foi.
Na ficção, o feminicídio data desde os tempos em que o homem passou a inventar histórias, antes mesmo de descobrir o papel, lápis e prensa.
A escrita surgiu aos trancos e barrancos na antiga Mesopotâmia, lugar hoje onde se acha o Iraque.
Não custa dizer que a escrita só foi possível depois, muito depois de o homem deixar de grunhir e passar a se comunicar com seu próximo de outro modo. Quer dizer, quando o grunhido passou a ganhar forma e algo parecido com fala.
Estamos falando de histórias passadas milênios antes de Cristo.
Não é incomum encontrar nos romances do craque francês Victor Hugo personagens que se matam entre si, suicidam-se e provocam situações extremas do cotidiano ficcional e real.
No clássico Crime e Castigo, de Dostoiévski, o protagonista Rodion Românovitch Raskólnikov abre caminho para chegar aonde quer matando premeditadamente uma senhora e sua irmã. A senhora foi morta por ser considerada abominável usurária e a quem o assassino devia dinheiro. E a sua irmã por se achar em lugar e hora errados.

A pergunta: o caso aqui pode ser classificado como homicídio, latrocínio ou feminicídio?
O escritor brasileiro José de Alencar (1829-1877) criou muitas personagens femininas no virar das páginas de sua obra. É certo que foi o primeiro e mais caudaloso defensor das mulheres. Ele as empoderou, expressão hoje um tanto corrente. Num dos seus livros, Til, uma mulher é assassinada por seu marido de modo brutal e à toa. A história se passa no interior de São Paulo. O tempo corria lá pela metade do século 19. Após casar-se, o criminoso deixou a mulher sozinha por anos e ao voltar a viu brincando com uma menina, sua filha. Foi quando a matou sem dó nem piedade.
A expressão feminicídio surgiu na década de 70 do século passado. Antes, em 1801, essa expressão surgiu de modo incompleto, nominalmente falando, no livro A Satirical View of London at the Commencement of the Nineteenth Century. Seu autor, John Corry, cravou a expressão “femicide”.
E o tempo foi, foi até chegar em Bruxelas e de Bruxelas até o México. Foi quando a expressão ganhou a forma que ora conhecemos: feminicídio.
No decorrer do século 20, as mulheres no Brasil começaram a mostrar a força que têm. Primeiro, com o direito de votar, em 1932. Trinta anos depois, as mulheres casadas conquistaram o direito de trabalhar fora. A igualdade entre os sexos foi uma conquista expressa na Constituição de 1988. E por aí vai.
No dia 7 de agosto de 2006, foi aprovada e promulgada pelo presidente da República a Lei Maria da Penha.
Diariamente, no Brasil, são assassinadas por companheiros ou ex-companheiros pelo menos quatro mulheres.
O conto O Monstro, do carioca Sérgio Sant’Anna, desenvolve uma história envolvendo três personagens principais: o professor de filosofia Antenor, de 45 anos; a amante Marieta, de 34, e a estudante Frederica.

Nessa história o fato mais terrível ocorre com a estudante, que é cega e tem apenas 20 anos de idade. Do pai e do namorado, Frederica recebe todas as atenções e cuidados devidos. O problema ocorre quando a estudante se rende aos assédios de Marieta, que a entrega de mão beijada ao amante. A menina é drogada, violentada e morta.
A história toda não conto, mas conto que Marieta se suicida e o estuprador assassino só é preso porque se entrega à Polícia.
Na prisão, Antenor dá entrevista a um repórter a quem conta com frieza, sarcasmo e sadismo o crime que cometeu.
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