Por Assis Ângelo

Pois é, Glauco Mattoso é personagem do cotidiano brasileiro. Isso porque diz e escreve o que pensa. Seus pensamentos interligam-se com tudo o que vive no dia a dia. E detalhe é que tudo o que faz nos chama atenção pelo fato puro e simples do talento que tem como intelectual.

Mattoso não é católico nem ateu. É um desmistificador. Chega a gargalhar quando lhe cobram posições religiosas e políticas. É um dos mais próximos seguidores do poeta baiano Gregório de Matos e Guerra (1636-1696). E eu, como não tenho e nunca tive o que fazer, brinco com letras que formam palavras e palavras que formam versos que dizem coisas, por exemplo:

Gregório de Matos e Guerra

 

Modelado em barro cru 

Por obra da Criação 

O boneco ganhou forma, 

Vida e nome: Adão 

 

Enfim básico feito 

Adão seguiu em frente 

Pedindo perdão a Deus 

Por d’Ele ser crente 

 

E Eva que caso há 

No caso da Criação 

Numa boa ela nasceu 

Muito antes de Adão 

 

Eva de Adão foi mãe 

Mas isso não vou contar 

É caso duvidoso 

E nele não vou entrar…

 

No começo fez-se a luz

Para tudo alumiar 

Quem pôde ficou vendo 

Estrelas no céu bailar 

 

Mas só viu quem tinha olhos 

Olhos bons e bom viver 

Quem não tinha – ai, ai, ai –

Na vida seguiu sem ver 

 

Antes e depois disso 

Muita coisa aconteceu 

O mundo pegou fogo 

E Jesus Cristo nasceu 

 

Foi visitado por reis

Eram três e eram Magos 

Carregados de presentes 

Muitos beijos e afagos 

 

O Menino foi crescendo 

E crescido foi à cruz 

E na cruz a Deus pediu 

Que nos desse força e luz 

 

Porém é o que se vê:

Nada de força ou luz 

Que possa minimizar 

O peso da nossa cruz 

 

Nesses versos fiz referência aos famosos reis que, supostamente, visitaram o menino Jesus nos seus primeiros momentos de inocência, lá em Belém. Tal encontro teria ocorrido num 6 de janeiro.

No dia 6 de janeiro do ano de 1482, século 15, começa uma história incrível desenvolvida pelo gênio francês Victor Hugo (1802-1885). Dessa história participam personagens deserdadas da vida e também personagens nobres, como o rei Luís XI.

Claro é que estou a me referir a O Corcunda de Notre Dame, romance clássico que continua a encantar gente de todo o mundo. Nessa obra, lançada pela primeira vez em março de 1831, movimentam-se quatro figuras principais: o corcunda Quasimodo, a cigana Esmeralda, o padreco Claude e o capitão garanhão Febo.

Trágico ou dramático é o texto de O Corcunda de Notre Dame?

Antes de mais nada, no meu pensar de olhos cegos, identifico a obra em pauta como sendo do gênero romântico. Explico: Esmeralda ama o capitão de modo quase mortal; o padreco Claude ama Esmeralda de modo totalmente obsessivo e criminoso; o Corcunda, um ser cego do olho direito e fisicamente alquebrado, ama Esmeralda de uma maneira dulcíssima; e o capitão usa Esmeralda e quando tenta violentá-la morre apunhalado. É nesse ponto que Esmeralda cai em desgraça e finda pendurada numa corda.

O padreco Claude, sentindo-se traído manda matar Esmeralda. A pergunta é: feminicídio?

A história diz mais e muito mais do que isso.

Nessa história é dito que Esmeralda foi criada por uma tribo cigana.

Quando Esmeralda, lindíssima, começa a ganhar a vida se apresentando no átrio de Notre Dame, tinha 16 anos de idade.


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