Por Victor Félix

Mudar de estado em meio a uma pandemia, enfrentar os desafios de uma cidade desconhecida, participar de grandes reportagens investigativas, ver seu trabalho reconhecido em importantes premiações nacionais e internacionais, e terminar 2025 como a +Premiada Jornalista do Ano. Este é apenas um “resumo do resumo” dos últimos anos da carreira de Mariama Correia, editora da Agência Pública, que alcançou a primeira colocação do Ranking +Premiados da Imprensa Brasileira 2025, com um total de 127,5 pontos.

Um feito que representa não apenas o trabalho de excelência desta profissional e da própria Pública, com suas investigações de fôlego que revelam o que está “por trás das cortinas” e abordam assuntos “espinhosos” que poucos se aventuram a contar, mas também a importância do trabalho colaborativo no jornalismo. Uma marca dessa publicação que, assim como este Ranking, está completando 15 anos de vida em 2026.

Com exceção à conquista de Natalia Viana, cofundadora e diretora-executiva da Agência Pública, no Maria Moors Cabot, uma das mais tradicionais premiações do jornalismo mundial, todos os prêmios vencidos pela publicação em 2025 vieram como reconhecimento a reportagens especiais produzidas por grandes equipes ou até mesmo em colaboração com outras publicações.

Foram quatro troféus no total, faturados a partir de três trabalhos: o Projeto Escravizadores, que mapeou os antepassados de mais de cem autoridades brasileiras do Executivo e Legislativo para identificar se havia casos de uso de mão de obra escravizada, vencedor dos prêmios SIP, na categoria Jornalismo de Dados e Infografia, e Claudio Weber Abramo, em Investigação; o Caso K, podcast sobre como Samuel Klein, fundador das Casas Bahia, teria mantido, durante décadas, um esquema de aliciamento e exploração sexual de crianças e adolescentes, vencedor do prêmio Amaerj Patrícia Acioli, na categoria Reportagens Jornalísticas; e o Clima das Eleições, investigação pioneira feita durante as eleições municipais de 2024, em parceria com as publicações Matinal Jornalismo e Amazônica Vox, que investigou os problemas das cidades sob a perspectiva das mudanças climáticas, analisando a atuação e propostas dos candidatos sobre o assunto, vencedora do CCNow Journalism Awards, em Grandes Projetos & Colaborações.

Três grandes reportagens bem distintas e com características únicas, mas que tinham todas um denominador comum: a presença de Mariama Correia trabalhando arduamente nas investigações.

Perfil: Mariama Correia, a +Premiada Jornalista de 2025
Mariama Correia (Foto: José Cícero)

Especializada em jornalismo investigativo, autora de reportagens de fôlego, Mariama é natural de Olinda, em Pernambuco, e iniciou a carreira sob a influência de seu pai, que era escritor. Ao ingressar na faculdade de jornalismo, acreditava que iria trabalhar com cultura e música, mas o início veio em assessoria de imprensa. Seu primeiro trabalho em redações foi na Folha de Pernambuco, como repórter de Economia. Depois de três anos e meio na publicação, migrou para o jornalismo independente e assinou em 2017 com o Marco Zero Conteúdo. No ano seguinte, passou a atuar paralelamente como pesquisadora para o Nordeste do Atlas da Notícia, iniciativa do Projor/Observatório da Imprensa que visa a mapear e combater os desertos de notícias do Brasil.

Em meio a alguns frilas que fazia para a própria Pública e outros veículos, como o Intercept Brasil, Mariama recebeu, em 2020, um convite da agência para atuar como repórter e mudar-se para São Paulo. Com a chegada da pandemia de Covid-19, passou por complicações em um período descrito por ela como “muito difícil e estressante”, quando inclusive chegou a trabalhar levantando dados sobre os mortos pelo coronavírus. A partir de 2021, já estabelecida e adaptada à nova realidade na capital paulista, passou a comandar importantes investigações pela publicação.

Nesta entrevista, Mariama fala sobre sua carreira, o trabalho na Pública, as dificuldades da mudança para São Paulo, e temas que considera como suas principais bandeiras atualmente: a importância do jornalismo como trabalho coletivo e a necessidade de sua descentralização. A editora da Pública fala ainda sobre desertos de notícias, a importância de ter sido eleita a +Premiada jornalista de 2025 e como enxerga as próximas gerações de profissionais de imprensa.

Jornalistas&Cia/Portal dos Jornalistas Por que você escolheu fazer jornalismo?

Mariama Correia – Escolhi jornalismo ainda muito jovem. Desde muito cedo eu gostava de escrever. Meu pai é escritor e ele me estimulou muito nessa área. Cresci participando das revisões dos textos dele, nesse ambiente de literatura, escrita e leitura. Ele não é jornalista, é autodidata, estudou só até o ginásio, mas chegou a trabalhar como revisor na Folha de S.Paulo e ter uma coluna no Diário do Grande ABC. Cresci ouvindo e me interessando por esse ambiente de escrita e gostando muito de contar e de ouvir histórias. Então, acho que foi uma escolha meio natural para mim.

J&Cia/PJ E desde o começo, a sementinha do jornalismo investigativo estava ali? Ou foi algo que você foi construindo ao longo da carreira?

Mariama – Na verdade, eu achava que ia trabalhar com cultura, com música. Estudei música clássica quando era pequena. Meu sonho era trabalhar numa Gucci, em alguma revista do tipo. Até cheguei a fazer uma pós-graduação em jornalismo cultural porque queria muito trabalhar com música.

Mas quando entrei na faculdade, tive que trabalhar logo cedo para pagar o curso. A vida vai acontecendo e você vai vendo que a coisa é mais difícil, percebi que era algo muito nichado, que certos mercados não são tão fáceis de acessar. E aí terminei tendo minhas primeiras experiências em assessoria de imprensa. Trabalhei muitos anos com isso, tanto que chegou um momento em que em não achava mais que iria trabalhar em jornal, em reportagem, eu já tinha meio que deixado esse sonho de lado, sabe?

Trabalhei numa assessoria de imprensa em que a dona, Patrícia Raposo, gostava muito do que eu escrevia. Ela sempre dizia assim: “Esse release está muito bom, renderia uma bela reportagem”. Então, alguns anos depois, ela foi chamada para assumir a direção executiva da Folha de Pernambuco, e me convidou para trabalhar lá como repórter de economia.

E eu fui, mas fiquei com certo receio, pois já tinha alguns anos de assessoria de imprensa e era um tiro no escuro, fiquei preocupada de tudo dar errado, de eu não dar conta. Mas a equipe era sensacional, muito atenciosa. Os repórteres e editores me ensinaram muito. Então, fui desabrochando, desenrolando, até desenvolver uma paixão por fazer reportagem, ir aos lugares, escutar as pessoas, viajar pelo País. Eu gostava muito de viajar pelo sertão de Pernambuco para fazer reportagem, ir a comunidades tradicionais, ouvir trabalhadores.

J&Cia/PJ E a sua passagem pelo Marco Zero Conteúdo? Como foi essa mudança para o jornalismo independente?

Mariama – Trabalhei por quase quatro anos na Folha de Pernambuco. Durante esse período, percebi também uma grande ascensão do jornalismo independente. Já acompanhava a Pública, o Intercept e outros veículos, e foi então que conheci o Marco Zero Conteúdo, um coletivo de jornalismo independente de Pernambuco, e decidi me candidatar como repórter lá. Foi outro tiro no escuro, mas também deu supercerto, aprendi muitas coisas, principalmente no sentido pensar reportagens com abordagens diferentes, que saíssem do “automático” do dia a dia das redações, onde você precisa pensar rápido o que você fazer ali na hora.

No Marco Zero, tive a oportunidade de fazer reportagens aprofundadas, ouvir populações que são deixadas de lado pela mídia hegemônica, tentar inverter lógicas em diversos assuntos. Foi um exercício jornalístico essencial para a minha carreira. E, a partir do Marco Zero, ampliei o meu conhecimento desse ecossistema de jornalismo independente, fui entendendo como funciona, como ele é importante, como ele desenvolve. E como eu tinha mais flexibilidade lá, consegui começar a fazer alguns frilas para outros veículos, por exemplo, o Intercept, a própria Pública, com o projeto Colabora. Foi esse trabalho que me abriu as portas para mais tarde mudar para São Paulo.

Perfil: Mariama Correia, a +Premiada Jornalista de 2025
Mariama durante reportagem feita para o Marco Zero Conteúdo na Guatemala e em El Salvador, em 2018 (Crédito: Arquivo pessoal)

J&Cia/PJ Quais foram os principais desafios dessa mudança de ares?

Mariama – Foi um período extremamente difícil. Na época, havia acabado de acontecer aquele caso de derramamento de óleo no Nordeste, em 2019, um crime terrível que até hoje não foi explicado, ficamos sem respostas. E aí surgiu uma vaga para repórter na Pública, me candidatei e deu certo.

A ideia era eu chegar a São Paulo em abril de 2020. Já estava tudo certo, tinha saído do Marco Zero, entreguei meu apartamento, mas aí estourou a pandemia de Covid-19. Minha vida estava toda em suspenso. Eu fiquei sem saber o que fazer. E a Pública demorou um tempinho para se organizar, como todo mundo, pensando como fazer os trabalhos.

Eu fiquei esperando, agoniada de não fazer nada. Me voluntariei para um trabalho que era o Brasil. IO, que fazia um levantamento de mortes pela Covid, comparando com dados divulgados pelos estados. A gente fazia a contagem todo dia, foi um projeto importante na época. E na minha cabeça, eu pensava que precisava fazer alguma coisa, pois com a pandemia acontecendo, o jornalismo estava de certa forma em um “limbo”.

Em setembro de 2020, finalmente o pessoal da Pública me deu o sinal positivo para vir. Naquela época, tinha uma expectativa de que melhorasse tudo no final do ano. Os índices estavam reduzindo, e a gente estava vivendo uma esperança de que 2021 ia ser tranquilo. Eu cheguei a São Paulo, fiquei inicialmente na casa de uma amiga, depois aluguei um apartamento. O problema é que no começo de 2021 tudo piorou, e eu já estava aqui em São Paulo, morando sozinha.

São Paulo era uma cidade difícil, solitária, um território desconhecido para mim. Imagine eu, que não conhecia a cidade, estava longe de familiares e amigos por causa do isolamento social, ainda sem vacina e acompanhando diariamente notícias de mortes, incluindo pessoas jovens – foi desesperador. Decidi ir ficando, ver o que acontecia, porque voltar era arriscado, minha mãe é idosa, eu mesma acabei pegando Covid. Mas as coisas foram se acalmando aos poucos e agora, em abril de 2026, eu completarei seis anos de Pública. Foi um período de adaptação muito estressante, mas ainda bem que tudo deu certo no final das contas.

J&Cia/PJ Sobre os projetos premiados da Pública que você fez parte – o Caso K, Projeto Escravizadores e Clima das Eleições –, algum bastidor interessante para compartilhar?

Mariama – O Caso K é um trabalho investigativo de muitos anos de apuração, acho que foi o maior da minha carreira até agora. As primeiras reportagens saíram ainda em 2021. Recebemos envelopes com vários documentos policiais e processos judiciais muitos detalhados.

Na época, inclusive, eu estava paralelamente fazendo uma outra investigação sobre crimes sexuais de mestres da capoeira, de um grupo chamado Cordão de Ouro. Foi um contexto bem pesado para mim, porque é claro que o trabalho, principalmente sobre temas sensíveis como esses, acaba nos atravessando, sabe? Fiquei até com uma certa mania de perseguição. Em certa noite, um carro parou na porta de minha casa, e eu fiquei desesperada, achei muito estranho, achei que alguém estava atrás de mim, foi muito esquisito.

Dito tudo isso, acredito que o resultado do projeto foi incrível. Viajamos para falar com as pessoas, tivemos muitas conversas e o podcast chegou a ficar em segundo lugar no Spotify. Nesse contexto, aconteceu algo que eu nunca tinha experimentado na vida: ser reconhecida no meio de uma festa com amigos. Uma pessoa, do nada, aproximou-se de mim e perguntou “você não é aquela jornalista do Caso K?” e eu respondi “sou!” e a pessoa elogiou, parabenizou pelo projeto e pediu para eu mandar um áudio para a prima dele, que estava na Suíça e também havia adorado o podcast. Para a gente, que não trabalha com tevê, foi uma experiência muito maluca, que me fez perceber que o trabalho realmente furou a bolha e as pessoas reconheceram o que fizemos.

Sobre o Escravizadores, acredito que foi uma ideia ousada, que surgiu após trabalharmos com pesquisadores de genealogia. Para fazer a árvore genealógica de políticos e de autoridades brasileiras, foi preciso checar, checar, checar, checar e depois rechecar mais ainda. A gente ficou bem preocupada com tudo isso, pois eram muitas informações e não podíamos errar. Todas as histórias precisavam estar milimetricamente corretas e pautadas nos dados coletados.

Ficamos muito curiosos em relação às respostas dos políticos. Muitos deles foram ríspidos ou não responderam, enquanto alguns disseram “nossa, que cara safado esse meu parente”, porque é exatamente isso, a pessoa não tem culpa de ser parente de determinado indivíduo. Mas acho que o mais interessante do projeto é mostrar como o poder no Brasil se mantém nos mesmos grupos, como é algo hereditário.

Recentemente, fiz uma reportagem para o projeto sobre Gertrudes de Jesus, uma mulher negra que estava escravizada e conseguiu liberdade e se tornou uma das agentes mais importantes do Clube do Cupim, um clube abolicionista em Recife. E ela ajudava a realizar fugas, com barcos, pelo rio Capibaribe, durante a noite, uma coisa meio filme noir, meio misteriosa. Então, é muito legal, durante o trabalho, ir conhecendo melhor a história do Brasil, descobrir e escrever sobre essas pessoas que foram apagadas pela historiografia oficial, que não são citadas. Muito desafiador trabalhar com pesquisa, é algo que também levarei com carinho na minha carreira, e que bom que deu certo no final.

Sobre o Clima das Eleições, que foi um projeto colaborativo com outras publicações, eu assinei uma reportagem, coordenei outras e contribuí com uma ou duas reportagens quando viajei ao Recife. Foi um projeto muito importante e pioneiro, pois discutimos eleições no Brasil com esse olhar da emergência climática, assunto que é muito importante pautar.

Perfil: Mariama Correia, a +Premiada Jornalista de 2025
Mariama durante a participação da equipe da Agência Pública no Festival 3i

J&Cia/PJ Como você vê o jornalismo independente nos dias de hoje? Qual a importância dele para a imprensa e como podemos apoiá-lo cada vez mais?

Mariama – Eu decidi ir para o jornalismo independente porque entendia a importância de fazer uma apuração sem amarras com grupos políticos, empresariais ou com interesses privados. Acho que é um privilégio muito grande a gente ter essa liberdade editorial, algo que todo jornalista almeja, mas que nem sempre encontra nas grandes redações.

Acho que o jornalismo independente cumpriu uma função muito importante na história recente do Brasil, especialmente no caso do Intercept, que com a Vaza Jato trouxe informações que mudaram realmente o curso das últimas eleições presidenciais e, consequentemente, da história. Tivemos muitos exemplos de coberturas que nasceram no jornalismo independente e que tiveram impacto na sociedade. É um jornalismo que tem comprometimento com o interesse público, em primeiro lugar, com a defesa dos direitos humanos e não está a serviço da defesa de interesses privados ou de grupos partidários.

Outro ponto importante a se destacar é a transparência. Na Pública, por exemplo, fazemos um jornalismo que é posicionado politicamente, mas não é partidário, não é panfletário. Então, acho que é muito importante esse posicionamento, essa clareza, essa transparência também para o leitor, porque tudo isso está dito lá no site da Pública, de forma clara. Em muitos grandes grupos de mídia, essa questão não está clara, a chamada imparcialidade é muito subjetiva. Existem escolhas no jornalismo, e quando optamos por publicar ou não publicar determinada matéria, estamos indiretamente escolhendo um lado, ou seja, é tudo muito subjetivo. E eu sou muito orgulhosa de ter feito essa escolha de carreira há alguns anos.

Mas acredito que o principal desafio do jornalismo independente no Brasil é conseguir manter essa grande rede. Porque esses veículos já existem, outros estão surgindo, inclusive fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília. Cito por exemplo a Cajueira, que é um projeto de valorização do jornalismo independente nos estados do Nordeste, que eu cofundei há cinco anos, com jornalistas também nordestinas. Fazemos newsletter, podcast, temos um banco de fontes nordestinas, fazemos curadoria, uma centena de projetos. É muito importante garantir que esses veículos sigam existindo e trabalhando no Brasil. É essencial desenvolver mais possibilidades para financiamento e sustentabilidade para eles e para a defesa da nossa democracia, que está sob ataque constantemente.

Por isso uma das principais bandeiras que defendo em meu trabalho é a descentralização do jornalismo. Eu, como mulher nordestina, saí de minha terra para trabalhar em São Paulo, porque precisei vir em busca de oportunidades, porque as oportunidades não estão em todos os lugares no Brasil. O justo seria que a gente tivesse oportunidade para todo mundo em todos os estados. Essas são as minhas principais bandeiras hoje, a defesa do jornalismo, dessa liberdade editorial do jornalista, do jornalismo independente e da descentralização do jornalismo no Brasil.

J&Cia/PortalQual a importância de participar do projeto Atlas da Notícia nesse contexto de descentralização do jornalismo?

Mariama – O Nordeste é a região com maior quantidade de desertos de notícias do País. É uma região enorme, a segunda maior população do País e a gente tem muitos dos municípios com desertos de notícias ou com quase desertos, que também são muito sensíveis, pois podem virar desertos facilmente. Se isso acontece, aquela população não vai ter acesso a informações checadas sobre o seu município.

Muitas vezes, aquela população está mais bem informada sobre o que acontece nos grandes centros porque a televisão reproduz conteúdo de São Paulo, de Rio de Janeiro, de Brasília, mas não sabe o que acontece na sua própria cidade. Não há jornalistas locais para, por exemplo, acompanhar as decisões da Prefeitura, as sessões na Câmara de Vereadores, para denunciar quando falta remédio no posto, quando não tem comida na creche.

Além disso, quando há um deserto de notícias, a população fica mais vulnerável à desinformação, porque, sem fontes confiáveis, sem checagem e sem critérios jornalísticos, as pessoas vão se informar pelas redes sociais, onde as informações têm uma qualidade extremamente questionável. E isso impacta decisões futuras, votos eleitorais, afeta diretamente a história do País.

Felizmente, os desertos de notícias vêm se reduzindo com o avanço digital, porque hoje em dia é muito mais fácil você abrir uma página independente. Mas a qualidade dessa informação nem sempre é boa. E aí se mostra muito importante o que eu falei sobre discutir possibilidades de financiamento para fomento do jornalismo, entendendo que ele é muito importante para a nossa democracia.

Perfil: Mariama Correia, a +Premiada Jornalista de 2025
Mariama durante palestra sobre desertos de notícias em encontro da Sociedad Interamericana de Prensa (SIP)

J&Cia/PortalComo é fazer jornalismo investigativo no Brasil?

Mariama – Acredito que fazer qualquer tipo de jornalismo no Brasil é muito desafiador, especialmente um jornalismo que defende direitos humanos, que busca se aprofundar, revelar fatos que não foram revelados, amplificar vozes de grupos vulnerabilizados. Esse jornalismo que não tem essas amarras privadas ou públicas, e que investiga esses poderes, é ainda mais desafiador.

Eu, como editora, sempre me preocupo com a segurança da equipe. Na Pública, temos dispositivos que nos ajudam com isso e garantem alguma proteção para os repórteres. Mas quando a gente faz um jornalismo comprometido com os fatos, infelizmente estamos sujeitos a ataques, processos e assédio judicial. Por isso é importante que os veículos tenham uma estrutura para se defenderem.

Na Pública, por exemplo, temos uma consultoria jurídica, a que a gente pode recorrer para se orientar sobre risco de processo e tentar prevenir, de alguma forma, em reportagens mais sensíveis. Quando você faz um jornalismo com uma boa apuração, baseado em fatos, com documentos, com comprovações das informações, isso também é uma forma de você se proteger. Então, é essencial sempre orientar os repórteres a cobrirem todas as lacunas, que estejam sempre seguros em relação às informações publicadas e sejam muito atenciosos e criteriosos quanto à apuração e checagem de informações.

Também acho muito importante o trabalho de associações, como a Abraji, que denunciam essas ofensivas jurídicas contra jornalistas e casos de violência digital. Essas entidades ajudam a denunciar e nos proteger enquanto classe. É muito importante também esse pensamento coletivo, para que a gente consiga se blindar mais.

J&Cia/PortalAo olhar para os trabalhos premiados pela Agência Pública, vemos reportagens feitas a muitas mãos, de forma coletiva e até colaborativa com outras publicações. Como você analisa esse fenômeno?

Mariama – O coletivo fortalece demais o trabalho jornalístico. A gente pensa muito junto, discutimos as ideias de pauta, os caminhos da apuração. Quando uma reportagem sai, mesmo que só um repórter assine, mesmo que eu assine uma reportagem sozinha, ela nunca é fruto de um trabalho totalmente solitário. Tem sempre um editor, o fotógrafo, alguém que fez as artes, o design, e até aquele colega que, durante um cafezinho, te deu uma dica ou alguma sugestão. Tem o pessoal das redes que vai ajudar, vai trabalhar aquele material com a linguagem de redes, o pessoal de vídeo, ou seja, toda uma estrutura de pessoas amparando o trabalho. Nunca é individual.

Fico feliz também por ser uma mulher nordestina, de Pernambuco, de Olinda, que veio para São Paulo e conseguiu se consolidar aqui no mercado de trabalho e está levando, de certa forma, esse reconhecimento para o seu Estado. Eu também represento esses profissionais e o Pernambuco tem uma tradição de jornalismo histórica muito boa e abriga o Diário Pernambuco, por exemplo, que é o jornal mais antigo em circulação da América Latina. Infelizmente muitas vezes esses profissionais não são vistos, não são tão valorizados quanto outros que atuam aqui no eixo Rio de Janeiro-São Paulo-Brasília.

Fico muito feliz e honrada em ser a +Premiada Jornalista do Ano, mas enxergo essa conquista como coletiva, pois ninguém faz jornalismo sozinho. Por isso enxergo como uma conquista que além de minha é da minha equipe na Pública, do jornalismo independente, do Nordeste, do jornalismo nordestino, do jornalismo pernambucano, enfim, desses profissionais que precisaram sair das suas cidades, dos migrantes nordestinos que vêm para São Paulo em busca de oportunidades. Eu me sinto com muita gente ao meu redor nesse momento.

Perfil: Mariama Correia, a +Premiada Jornalista de 2025
Equipe da Agência Pública (Crédito: José Cícero)

J&Cia/PortalO que você diria para um estudante de jornalismo que está começando na carreira agora, que está querendo entrar nesse mundo do jornalismo investigativo, do jornalismo independente?

Mariama – Acredito que o jornalismo está em constante mudança, as coisas mudam muito rapidamente. Hoje, uma pessoa que está na faculdade tem um mercado completamente diferente à sua frente do que eu tive quando saí da faculdade. Na minha época, ainda existia aquela coisa de trabalhar numa grande redação, nos grandes jornais, ainda era o que a gente almejava, trabalhar nos impressos. Hoje em dia é o digital, é outra linguagem. A gente, inclusive, que já está há um tempo na profissão, tem que correr atrás para não ficar defasada, para entender aonde o público está indo.

Então, acho que qualquer dica muito prática pode se tornar obsoleta, porque as coisas mudam muito rápido. Mas acredito que, de forma geral, o jornalista deve ser alguém interessado no outro, no mundo ao seu redor, alguém que tem os olhos abertos para a vida, para as coisas. Acho que isso é uma qualidade fundamental, porque a pauta pode estar em qualquer lugar, ela pode estar na sua casa, na sua rua, com o porteiro do seu prédio, com o vizinho, no mercado, no ônibus, no metrô, e é preciso sempre estar atento.

Sem isso, acho que é muito difícil fazer jornalismo. Porque as pessoas estão cada vez mais individualistas, vivemos em uma sociedade muito individualista, a gente está sempre muito em torno das nossas questões pessoais, dos nossos problemas, das nossas coisas. E eu acho que uma qualidade fundamental em qualquer jornalista é ter o olhar para o outro, ser interessado sobre as outras pessoas, ouvir e saber ouvir.

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