Por Álvaro Bufarah (*)
O rádio brasileiro já morreu algumas vezes. Pelo menos no discurso. Primeiro com a televisão, depois com a internet, agora com o streaming. Ainda assim, segue firme – talvez menos visível, mas longe de irrelevante. E é nesse contexto que o anúncio do encerramento das transmissões em FM da Rádio Eldorado, previsto para 15 de maio, ganha contornos que vão muito além da nostalgia.
Fundada em 1958 e historicamente associada ao Grupo Estado, a emissora construiu um posicionamento raro no dial: curadoria musical sofisticada, jornalismo cultural consistente e uma audiência qualificada – algo cada vez mais escasso em tempos de playlists algorítmicas e consumo fragmentado. O encerramento da operação em FM, segundo comunicado oficial, faz parte de um “reposicionamento estratégico” com foco no digital, após o fim da parceria com a Fundação Brasil 2000, detentora da frequência 107,3.

Até aqui, nada fora do script contemporâneo: menos torre, mais plataforma.
Mas o mercado – e os dados – contam uma história um pouco mais complexa.
Enquanto o discurso institucional aponta para “mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio”, relatórios recentes indicam que o rádio segue economicamente relevante. Dados do Painel Cenp Meios mostram que o investimento publicitário no rádio cresceu 5,86% em 2025, superando com folga a inflação do período. Em termos absolutos, o meio ganhou mais de R$ 60 milhões em receita. Desde 2020, o salto é ainda mais expressivo: de cerca de R$ 603 milhões para mais de R$ 1,1 bilhão – um crescimento superior a 80%.
Mais curioso: o rádio tradicional cresceu proporcionalmente mais do que o próprio áudio digital no mesmo período.
A leitura desses números exige cuidado – e menos fetiche tecnológico. Como observa o pesquisador Fernando Morgado, o chamado “meio internet” não é um bloco único, mas um conjunto heterogêneo de formatos (busca, display, vídeo, social, áudio), com métricas e dinâmicas distintas. O rádio, por sua vez, não desapareceu – ele se expandiu para dentro dessas plataformas.
Ou seja: o rádio não perdeu para o digital. Ele virou digital também.
Outro dado relevante vem da Kantar IBOPE Media: cerca de 79% dos brasileiros ainda consomem rádio regularmente, com a média de quase quatro horas diárias de escuta. Em um país de dimensões continentais e desigualdades estruturais, isso não é detalhe – é infraestrutura cultural.
Diante desse cenário, o caso da Eldorado parece menos uma consequência inevitável do mercado e mais uma decisão estratégica específica. E aqui entra um ponto sensível para profissionais de comunicação: nem toda mudança é apenas tecnológica – muitas são editoriais, políticas ou de posicionamento de marca.
A Eldorado ocupava um território simbólico relevante. Funcionava como um “ativo reputacional” dentro do portfólio do grupo – um espaço de prestígio, credibilidade e distinção cultural. Em termos de branding, era mais do que um canal: era um filtro de qualidade. E isso tem valor, ainda que não seja imediatamente traduzido em escala publicitária.
A decisão de migrar para o digital, mantendo a marca viva em novos formatos (vídeo, redes sociais, streaming), segue uma lógica já observada em outros mercados. Nos Estados Unidos e na Europa, emissoras tradicionais têm transformado programas em videocasts, ampliado presença em plataformas e investido em distribuição multiplataforma. O áudio deixou de ser apenas transmissão – virou ecossistema.
Programas como Som a Pino e Clube do Livro, citados no comunicado, devem seguir esse caminho. A estratégia parece clara: preservar o conteúdo, abandonar o meio físico.
Mas há um risco aqui que o mercado conhece bem: ao migrar para o digital, a concorrência deixa de ser local e passa a ser global. No FM, a disputa era com outras emissoras. No digital, é com Spotify, YouTube, podcasts independentes e influenciadores de todos os tipos.

E nesse ambiente, curadoria – que sempre foi o diferencial da Eldorado – precisa ser ainda mais afiada para não se diluir.
O encerramento da frequência 107,3 FM, portanto, não é exatamente o fim da Eldorado. Mas também não é apenas uma atualização de plataforma. É uma mudança de lógica: de emissora para marca de conteúdo.
Para o mercado de comunicação, rádio e publicidade, fica a provocação: o problema do rádio nunca foi falta de audiência – foi, muitas vezes, falta de estratégia para monetizar e reposicionar essa audiência em novos ambientes.
A Eldorado sai do dial, mas deixa uma pergunta no ar: quem, no digital, conseguirá reproduzir – ou reinventar – o nível de curadoria e relevância que ela construiu ao longo de décadas?
Se o rádio já “morreu” tantas vezes, talvez o mais prudente seja não decretar mais um óbito. Mas observar, com atenção, sua próxima mutação. Afinal, o que mata o rádio ou qualquer meio de comunicação é a falta de competência de quem faz, a falta de escrúpulo de quem manda e a falta de sensibilidade de quem ouve.
Fontes e links para aprofundamento
- Painel Cenp Meios (investimento publicitário no Brasil): https://www.cenp.com.br
- Dados de consumo de rádio – Kantar IBOPE Media: https://www.kantaribopemedia.com
- Relatórios e análises de áudio e rádio – Triton Digital: https://www.tritondigital.com
- Estudo “The Podcast Landscape” – Sounds Profitable: https://soundsprofitable.com
- Reuters Institute Digital News Report (hábitos de consumo de mídia): https://www.digitalnewsreport.org
- Meio & Mensagem (mercado publicitário brasileiro): https://www.meioemensagem.com.br
- Artigos e análises sobre rádio e mídia sonora – Radio World: https://www.radioworld.com
- Estudos sobre transformação digital no áudio – Nielsen Audio: https://www.nielsen.com

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.
(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.




















