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quinta-feira, abril 30, 2026

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100 anos de Rádio no Brasil: O silêncio da 107,3 FM não é o fim da rádio, mas, talvez, um capítulo da sua reinvenção

Por Álvaro Bufarah (*)

O rádio brasileiro já morreu algumas vezes. Pelo menos no discurso. Primeiro com a televisão, depois com a internet, agora com o streaming. Ainda assim, segue firme – talvez menos visível, mas longe de irrelevante. E é nesse contexto que o anúncio do encerramento das transmissões em FM da Rádio Eldorado, previsto para 15 de maio, ganha contornos que vão muito além da nostalgia.

Fundada em 1958 e historicamente associada ao Grupo Estado, a emissora construiu um posicionamento raro no dial: curadoria musical sofisticada, jornalismo cultural consistente e uma audiência qualificada – algo cada vez mais escasso em tempos de playlists algorítmicas e consumo fragmentado. O encerramento da operação em FM, segundo comunicado oficial, faz parte de um “reposicionamento estratégico” com foco no digital, após o fim da parceria com a Fundação Brasil 2000, detentora da frequência 107,3.

Até aqui, nada fora do script contemporâneo: menos torre, mais plataforma.

Mas o mercado – e os dados – contam uma história um pouco mais complexa.

Enquanto o discurso institucional aponta para “mudanças profundas nos hábitos de consumo de áudio”, relatórios recentes indicam que o rádio segue economicamente relevante. Dados do Painel Cenp Meios mostram que o investimento publicitário no rádio cresceu 5,86% em 2025, superando com folga a inflação do período. Em termos absolutos, o meio ganhou mais de R$ 60 milhões em receita. Desde 2020, o salto é ainda mais expressivo: de cerca de R$ 603 milhões para mais de R$ 1,1 bilhão – um crescimento superior a 80%.

Mais curioso: o rádio tradicional cresceu proporcionalmente mais do que o próprio áudio digital no mesmo período.

A leitura desses números exige cuidado – e menos fetiche tecnológico. Como observa o pesquisador Fernando Morgado, o chamado “meio internet” não é um bloco único, mas um conjunto heterogêneo de formatos (busca, display, vídeo, social, áudio), com métricas e dinâmicas distintas. O rádio, por sua vez, não desapareceu – ele se expandiu para dentro dessas plataformas.

Ou seja: o rádio não perdeu para o digital. Ele virou digital também.

Outro dado relevante vem da Kantar IBOPE Media: cerca de 79% dos brasileiros ainda consomem rádio regularmente, com a média de quase quatro horas diárias de escuta. Em um país de dimensões continentais e desigualdades estruturais, isso não é detalhe – é infraestrutura cultural.

Diante desse cenário, o caso da Eldorado parece menos uma consequência inevitável do mercado e mais uma decisão estratégica específica. E aqui entra um ponto sensível para profissionais de comunicação: nem toda mudança é apenas tecnológica – muitas são editoriais, políticas ou de posicionamento de marca.

A Eldorado ocupava um território simbólico relevante. Funcionava como um “ativo reputacional” dentro do portfólio do grupo – um espaço de prestígio, credibilidade e distinção cultural. Em termos de branding, era mais do que um canal: era um filtro de qualidade. E isso tem valor, ainda que não seja imediatamente traduzido em escala publicitária.

A decisão de migrar para o digital, mantendo a marca viva em novos formatos (vídeo, redes sociais, streaming), segue uma lógica já observada em outros mercados. Nos Estados Unidos e na Europa, emissoras tradicionais têm transformado programas em videocasts, ampliado presença em plataformas e investido em distribuição multiplataforma. O áudio deixou de ser apenas transmissão – virou ecossistema.

Programas como Som a Pino e Clube do Livro, citados no comunicado, devem seguir esse caminho. A estratégia parece clara: preservar o conteúdo, abandonar o meio físico.

Mas há um risco aqui que o mercado conhece bem: ao migrar para o digital, a concorrência deixa de ser local e passa a ser global. No FM, a disputa era com outras emissoras. No digital, é com Spotify, YouTube, podcasts independentes e influenciadores de todos os tipos.

E nesse ambiente, curadoria – que sempre foi o diferencial da Eldorado – precisa ser ainda mais afiada para não se diluir.

O encerramento da frequência 107,3 FM, portanto, não é exatamente o fim da Eldorado. Mas também não é apenas uma atualização de plataforma. É uma mudança de lógica: de emissora para marca de conteúdo.

Para o mercado de comunicação, rádio e publicidade, fica a provocação: o problema do rádio nunca foi falta de audiência – foi, muitas vezes, falta de estratégia para monetizar e reposicionar essa audiência em novos ambientes.

A Eldorado sai do dial, mas deixa uma pergunta no ar: quem, no digital, conseguirá reproduzir – ou reinventar – o nível de curadoria e relevância que ela construiu ao longo de décadas?

Se o rádio já “morreu” tantas vezes, talvez o mais prudente seja não decretar mais um óbito. Mas observar, com atenção, sua próxima mutação. Afinal, o que mata o rádio ou qualquer meio de comunicação é a falta de competência de quem faz, a falta de escrúpulo de quem manda e a falta de sensibilidade de quem ouve.

 

Fontes e links para aprofundamento


Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

Preciosidades do acervo Assis Ângelo: O cego na História (53)

Patativa do Assaré (Crédito: Biblioteca Pública Estadual do Ceará)

Por Assis Ângelo

Bem cedo me disseram na escola que o Brasil foi descoberto por um português danado de corajoso chamado Pedro Álvares Cabral. Isso no dia 22 de abril no ano de 1500.

Não demorou muito para que eu soubesse logo depois de ligeira alteração da primeira informação por mim recebida na escola. Essa alteração dava conta de que o Brasil não fora descoberto, mas sim achado pelo mesmo Cabral.

O tempo foi passando, passando até que os primeiros invasores da nossa terra dividiram o Brasil em capitanias hereditárias, sesmarias e daí veio o pior: latifúndio.

Os latifúndios geraram riquezas individuais enormes, passadas de pai para filho.

Os latifundiários eram e são temidos como déspotas, grosso modo.

E como o tempo não para e jamais parará, boa gente de boa parte do País foi ganhando espaço e firmeza onde antes a garantia era apenas um buraco de sete palmos para se enterrar de morte matada ou de morte morrida.

Antes de o pequeno proprietário de terra ocupar espaço devido, muitos trabalhadores em regime de escravidão foram postos para correr pelos latifundiários. E, como se não bastasse, as estiagens se repetiam com frequência absurda. E se repetem, menos hoje do que ontem.

A seca de três anos seguidos no Ceará, entre 77 e 79 do século 19, foi um horror sem tamanho, que deveria ter tocado profundamente a alma dos poderosos daquele tempo. Mas não foi isso o que ocorreu. Nem o maior mandachuva de plantão daquele momento, D. Pedro II, fez o que deveria fazer: acudir o povo que morria à toa, que nem mosca em todo canto. Ou seja, nas ruas, nas praças… Até campos de concentração foram criados para isolar os flagelados da seca que chegavam aos montes a Fortaleza cheios de fome, sede e doenças diversas.

Flagelados da seca (Crédito: Fortaleza em Fotos/Reprodução)

 

No mesmo século 19 outras secas ocorreram Brasil afora.

A estiagem de 1915 de novo parou o Ceará. Em 1930, a cearense Rachel de Queiroz estreava na literatura com o romance O Quinze. Ela tinha 20 anos de idade.

Na referida obra, a escritora conta o infortúnio de uma família, entre tantas, que cai na estrada em busca de água e comida.

Algo parecido com a narrativa de Queiroz aconteceu também em Rio Grande do Norte, Paraíba, Sergipe e Pernambuco.

Da região potiguar era um moço que ficou conhecido como Jesuíno Brilhante.

Jesuíno era de família de posses e um dia um cara sacou um revólver e atirou no irmão. Sem saber bem o que fazer, Jesuino sacou a arma que trazia consigo e vingou-se do assassino do mano. É isso que diz a história.

A história diz também que a partir do entrevero mortal, o Rio Grande do Norte ganhou o cangaceiro Jesuíno Brilhante.

Jesuíno era um fora da lei que não fazia conchavos com poderosos. O seu caráter tendia para o lado bom da vida, beneficiando os pobres que de um modo ou outro o cercavam.

Os males do governo eram exibidos e punidos publicamente por Jesuíno. Foi muito ativo na longa seca do Ceará, aquela que durou três anos seguidos impedindo que caísse um pingo de chuva sequer no chão. E assim ajudou muitos flagelados.

A morte apanhou Jesuíno Brilhante no interior da Paraíba. Tinha 35 anos de idade quando isso aconteceu, em 1879.

Patativa do Assaré (Crédito: Biblioteca Pública Estadual do Ceará)

O poeta cearense Patativa do Assaré, de batismo Antônio Gonçalves da Silva, andava em 1932 na casa dos 20 anos. Por esse tempo nova seca assolava a região nordestina, da qual era a pequena Nanã uma das milhares de vítimas inocentes.

No tempo disso tudo, Patativa já havia perdido por doença um dos olhos.

É desse ano o poema A Morte de Nanã.

Em A Morte de Nanã, o autor da obra-prima A Triste Partida, que Luiz Gonzaga gravou em 1964, conta o drama então vivido pela personagem que dá título ao poema. É tocante. Um trecho:

 

Depois veio a seca cruel e assoladora,
Contra aquela linda florzinha encantadora
E a coitada morreu, mirrada pela fome.

Hoje, um poeta chora triste esta saudade
E as aves cantam a chamar na solidão:
Nanã! Nanã! Nanã! seu doce e belo nome.

 

Patativa do Assaré morreu em 2002 com 93 anos e completamente cego.

Contatos pelo http://assisangelo.blogspot.com.

Globo libera e William Bonner recebe 33 estatuetas no Troféu Imprensa, do SBT

Globo libera e William Bonner recebe 33 estatuetas no Troféu Imprensa, do SBT
Crédito: Instagram/SBT

William Bonner, apresentador do Globo Repórter, foi liberado pela TV Globo para comparecer à cerimônia de premiação do Troféu Imprensa, no SBT. No evento, ele recebeu ao todo 33 estatuetas conquistados pelo âncora e pelo Jornal Nacional ao longo das últimas décadas.

“Eu tenho 62 anos, mas o Troféu Imprensa eu acompanho desde criança”, declarou Bonner. “Acho que todo mundo aqui acompanhou, sabe ada importância e da relevância que tem esse prêmio, que é um prêmio generoso, que premia talentos e profissionais de outras emissoras, sempre foi assim”. Ao receber os 33 troféus, o âncora dedicou os prêmios à equipe do Jornal Nacional, que comandou por 29 anos: “Um telejornal como esse é feito por centenas de profissionais em cada canto do País e também fora dele. Então, é para todos eles que esse prêmio tem que ir.

A revista Veja destacou que, em pronunciamento ao mercado publicitário, Amauri Soares, head da TV Globo, falou sobre a mudança interna na emissora que possibilitou a ida de Bonner à cerimônia no SBT: “No passado, havia um protocolo muito restrito tanto para participação de talentos da Globo em iniciativas da concorrência como para a participação de talentos da concorrência em iniciativas nossas. Com a anuência da presidência da Globo, revi este protocolo. Estar presente na premiação do SBT e aceitar o reconhecimento da emissora à Globo foi, de fato, uma honra”. Além de Bonner, também participaram do Troféu Imprensa nomes como Ana Maria Braga e Luciano Huck.

Relatório da SIP registra deterioração acentuada na liberdade de imprensa nas Américas

Mais de 900 jornalistas latino-americanos foram forçados a buscar exílio em outros países, diz relatório
Crédito: Leon Overweel/Unsplash

A Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) publicou na semana passada um relatório sobre a liberdade de imprensa nas Américas de outubro de 2025 a abril de 2026. Os dados do estudo revelaram uma crise acentuada no trabalho jornalístico em diferentes países, com casos de censura judicial, práticas autoritárias contra profissionais, restrições, uso de estruturas estatais para limitar a circulação da informação e violência contra a imprensa.

“Trata-se de um cerco coordenado, sofisticado e cada vez mais normalizado, que transcende regimes e fronteiras”, declarou Pierre Manigault, presidente da SIP, sobre a situação crítica da liberdade de imprensa na região. No caso específico do Brasil, o recorte sobre o País, feito pela Associação Nacional de Jornais (ANJ), alerta para casos de intimidação, censura judicial e ataques organizados a profissionais da imprensa e veículos.

O relatório destacou casos recentes como a busca e apreensão na residência do jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), por suposto crime de perseguição ao também ministro da corte, Flávio Dino, após a publicação de uma reportagem no Blog do Luís Pablo sobre o uso de veículo oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão (MA) por parte da família de Dino. No estudo, a ANJ escreveu que existe “uma preocupante indicação de que medidas restritivas encontram agora abrigo no Supremo Tribunal Federal (STF)”, incluindo ameaça a proteção do sigilo da fonte.

Além da queda na liberdade de imprensa no Brasil, o relatório fez um alerta sobre as eleições de outubro, realizadas em um contexto de “crescente radicalização, polarização política e incertezas sobre os impactos do uso de IA para gerar conteúdos desinformativos cada vez mais difíceis de serem detectados”. A ANJ destacou a assinatura de um protocolo nacional para investigar crimes contra jornalistas e veículos.

O relatório descreve ainda a postura e a relação da imprensa com outros líderes como Donald Trump, Javier Milei, Gustavo Petro, Rodrigo Chaves. Leia mais aqui.

Milei barra entrada de jornalistas na Casa Rosada, na Argentina, por suspeita de espionagem

O presidente da Argentina, Javier Milei, barrou em 23/4 a entrada de todos os jornalistas credenciados na Casa Rosada, sede do governo, por suspeita de “espionagem ilegal” supostamente realizada pelos jornalistas Luciana Geuna e Ignacio Salerno, do canal de televisão Todo Notícias.

O sistema de identificação por meio de digitais foi suspenso para todos os profissionais de imprensa credenciados. Javier Lanari, secretário de Comunicação e Imprensa da Argentina, explicou que o objetivo da medida foi “garantir a segurança nacional”.

A acusação de espionagem ilegal ocorreu após a veiculação de imagens de diferentes setores da Casa Rosada durante o programa “Y mañana qué”. Milei acusou Geuna e Salerno de “abusarem do sistema legal”. O presidente argentino também afirmou que os jornalistas são corruptos, aceitam subornos e violam leis de segurança. Nas redes sociais, Milei publicou a sigla NOL$ALP (no odiamos lo suficiente a los periodistas), que significa “não odiamos jornalistas o suficiente”.

Vale lembrar que o governo argentino está investigando a atuação de uma rede de espionagem russa que teria financiado a publicação de conteúdos contrários a Milei em plataformas digitais argentinas de junho a outubro de 2024.

(Com informações do Poder360).

Entidades jornalísticas apoiam decisão do Cade para investigar Google

O Tribunal do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou por unanimidade, em 23/4, a instauração de um Processo Administrativo Sancionador para aprofundar as investigações em relação a um possível ‘abuso exploratório de posição dominante’ por parte do Google.

A decisão leva em consideração a evolução tecnológica da atuação da empresa digital estadunidense desde a instauração do Inquérito Administrativo, em setembro de 2018, sobretudo no que se refere às ferramentas e plataformas de Inteligência Artificial (IA).

“A decisão do Cade é um marco histórico para os produtores de conteúdo jornalístico, porque, pela primeira vez, se investigará a fundo no Brasil o abuso de poder ou dependência econômica digital’, afirmou Marcelo Rech, presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ). “Com o resultado do julgamento, o Cade demonstra que está na linha de frente de uma preocupação que não se limita a uma mera questão econômica. O tema de fundo é a sustentabilidade da informação de qualidade, do jornalismo que atende, sem substitutos, as comunidades locais e a pluralidade de visões, o que é fundamental em sociedades democráticas”.

A tese aprovada pelos cinco conselheiros do Cade foi a apresentada pelo presidente interino do órgão, Diogo Thomson de Andrade, recomendando o retorno dos autos à Superintendência-Geral. O conselheiro destacou que a conduta investigada não está mais limitada à situação do meio digital em 2018. Na época da instauração do inquérito, o que estava em debate era um provável abuso de poder econômico do Google a partir da coleta automatizada de conteúdos jornalísticos disponíveis na internet, exibição na página de resultados do seu buscador de títulos, trechos e imagens. No entendimento dos editores, essas práticas impactam de forma negativa no direcionamento de tráfego e na monetização de conteúdos jornalísticos, que exigem pesados investimentos.

“Ao revisar a decisão anterior que sugeria o arquivamento do caso, o Cade reafirma o papel das instituições democráticas, para a redução de desigualdades e dependências econômicas entre diferentes modelos de negócios”, destacou a Associação de Jornalismo Digital (Ajor). “No caso em questão, a atuação do Conselho contribui para a viabilidade e sustentabilidade do jornalismo, ofício essencial para a circulação de informações confiáveis e, consequentemente, essencial para a democracia no país”.

O caso foi aberto pelo próprio Cade em 2018, arquivado em 2024 e reaberto em 2025, em especial pela atuação e esclarecimentos constantes de entidades de apoio ao jornalismo, entre elas a ANJ, Ajor, Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Associação Nacional de Editores de Revistas (Aner), Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj).

A decisão do Cade sustenta que os procedimentos do Google incorporaram funcionalidades de inteligência artificial generativa, que sintetizam informações no momento em que o usuário faz suas buscas. Dessa forma, afasta ainda mais as pessoas das plataformas de conteúdo jornalístico, agravando os desafios na busca por audiência, engajamento e monetização.

 

Dependência estrutural

Segundo o Cade, nesse cenário, ‘a relação entre o Google e os publishers poderia assumir contornos de dependência estrutural, uma vez que parcela relevante do tráfego dos veículos de comunicação depende dos mecanismos de busca do investigado para alcançar o público. Tal dependência, associada ao papel da plataforma como intermediária essencial, pode viabilizar a imposição unilateral de condições de uso do conteúdo’.

A partir dessa perspectiva, ainda de acordo com o Cade, o voto de Diogo Thomson desenvolveu a hipótese de que ‘a conduta pode configurar eventual abuso exploratório de posição dominante, caracterizada pela extração e internalização de valor econômico a partir de conteúdo produzido por terceiros, sem contrapartida proporcional, em um contexto de assimetria e ausência de alternativas negociais efetivas’.

O voto também propôs uma estrutura analítica específica para a avaliação de condutas dessa natureza em mercados digitais, com ênfase em elementos como dependência estrutural, imposição de condições comerciais, extração de valor e existência de dano concorrencial apreciável.

O conselheiro ressaltou também que o direito concorrencial brasileiro, especialmente a partir da cláusula geral prevista no art. 36 da Lei nº 12.529/2011, comporta o enquadramento de práticas de natureza exploratória, ainda que não se ajustem perfeitamente às categorias tradicionais de abuso de posição dominante, informou o Cade.

Observatório da Imprensa fará webinário sobre violência contra jornalistas

Caco Barcelos, da Globo, é agredido em manifestação no RJ. Foto: Reprodução

A violência contra os jornalistas tem assumido proporções alarmantes. Mesmo que os incidentes tenham diminuído nos últimos anos, episódios de desinformação e exposição de profissionais que estão fazendo seu trabalho, divulgadas em redes sociais constituem situações de perigo para jornalistas, especialmente os que estão em coberturas externas.

Além disso, profissionais mulheres são alvo também de violência misógina, comentários agressivos e ameaças contra sua integridade física.

Esses são alguns dos temas que serão tratados no webinário Violência contra Jornalistas, que será realizado no dia 29 de abril, quarta-feira, às 19h, ao vivo no YouTube do Projor.

Participam do debate Samira de Castro, presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Nina Santos, secretária-adjunta de Políticas Digitais na Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República e integrante do Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores e Leticia Kleim, advogada e geógrafa e coordenadora jurídica da Abraji, responsável por projetos como o Programa de Proteção Legal para Jornalistas e Monitor de Assédio Judicial.

A medição é da jornalista Denize Bacoccina, editora do Observatório da Imprensa.

Workshop sobre Comunicação em situações de emergência abre 2º Seminário Mineiro de Comunicação Pública

O workshop “Comunicar em meio ao caos: estratégias de comunicação pública em situações de emergência” reuniu uma discussão sobre como órgãos públicos, empresas e equipes de resposta devem comunicar desastres e crises sem ampliar o sofrimento das vítimas. A iniciativa abriu o 2º Seminário Mineiro de Comunicação Pública na quarta-feira (22/04), das 19h30 às 21h30, e foi mediada pelo diretor regional da ABCPública em Minas Gerais, Agnaldo Montesso.

O encontro foi conduzido por Armando Medeiros de Faria, vice-presidente de Coordenação Regional da ABCPública, diretor da Conexão Pública e coordenador técnico do Projeto Legado de Brumadinho, da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG).

A partir da experiência, o encontro defendeu protocolos centrados nas vítimas, integração entre áreas e linguagem humana, com forte ênfase em prevenção, mapeamento de risco e cuidado no pós-desastre.

Dentre os principais temas debatidos foi a centralidade das vítimas na comunicação de crise. Armando sustentou que a comunicação pública em emergências não deve priorizar reputação institucional, mas sim a dignidade de pessoas atingidas, familiares e desabrigados. Ele argumentou que, em tragédias como Brumadinho, Mariana, Santa Maria e enchentes recentes, a comunicação pode acolher, ignorar, silenciar ou até revitimizar — e que o dever principal é evitar qualquer forma de dano adicional.

A fala foi baseada na vivência com familiares e vítimas do rompimento da barragem da Vale em 25 de janeiro de 2019. Armando explicou que o trabalho com o “Legado de Brumadinho” gerou aprendizados que embasaram o guia de comunicação pública apresentado no evento, construído com escuta de familiares e atingidos, e não apenas com visão institucional.

Foi reforçado que a comunicação de emergência não acaba nos primeiros dias após o desastre. Segundo Armando, os efeitos se prolongam por anos, inclusive em luto, memória coletiva, judicialização, acolhimento e reconstrução da vida das famílias, por isso a comunicação precisa continuar após a cobertura inicial e não se limitar ao momento do evento.

Armando destacou um conjunto de premissas práticas para protocolos de crise: centralidade das vítimas e atingidos; escuta qualificada, sem julgamento; transparência ativa; rapidez com prudência; integração entre comunicação, saúde, assistência social, resgate, Defesa Civil e IML; linguagem simples e humanizada; apoio psicossocial também para equipes de linha de frente; e previsibilidade operacional com centros unificados de informação para famílias.

Armando insistiu que a gestão de crise começa muito antes da crise: com mapeamento de risco, revisão periódica de protocolos e simulações. Ele recomendou pensar os riscos por impacto e probabilidade, antecipando cenários graves e incorporando sempre o pior caso como referência de planejamento.

Outro ponto importante foi a disputa de linguagem: Armando disse que o modo como um evento é nomeado importa, porque há diferença entre fatalidade, acidente, tragédia e crime. Ele também destacou que a comunicação deve assumir responsabilidade pública, com estados, empresas e instituições reconhecendo falhas quando necessário, em vez de apenas proteger imagem.

A discussão foi enriquecida por perguntas e comentários de participantes de diferentes órgãos. Gisele Couto, da Defesa Civil estadual, trouxe a reflexão sobre como a população reage de forma diferente a conteúdos de preparação e prevenção antes da emergência, apontando a necessidade de mudança cultural e educação para risco.

O workshop concluiu que comunicar em meio ao caos exige mais do que técnica: exige responsabilidade pública, empatia, preparo institucional e compromisso com a vida humana. A principal mensagem foi que protocolos de emergência precisam nascer do risco real, ser testados antes da tragédia e sempre preservar a dignidade de quem já está em situação de vulnerabilidade.

Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde abre inscrições

Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde abre inscrições

Estão abertas até 11 de maio as inscrições para a 14ª edição do Prêmio Roche de Jornalismo em Saúde, iniciativa de Roche América Latina e secretaria técnica da Fundação Gabo, que valoriza e reconhece trabalhos jornalísticos sobre saúde na América Latina, Espanha e Portugal.

Nesta edição, o prêmio terá algumas mudanças. A primeira delas é a realização simultânea das quatro categorias: Jornalismo Escrito, Audiovisual, Digital e Sonoro. Outra novidade é que, a partir deste ano, a premiação passa a exigir que os trabalhos inscritos abordem ou estejam relacionados a temas prioritários previamente estabelecidos. No caso da edição de 2026, os temas são: doenças crônicas não transmissíveis, acesso efetivo à saúde, inovação científica e saúde da mulher. E por fim, o prêmio terá um especialista em economia da saúde e sistemas sanitários no júri avaliador.

Podem ser inscritos trabalhos veiculados entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2025. Cada participante poderá inscrever até dois trabalhos, sendo um individual e outro coletivo. A cerimônia de premiação será em outubro. Os vencedores de cada categoria receberão troféu, diploma e terão todas as despesas pagas para participar do Festival Gabo 2027, em Bogotá, na Colômbia.

Confira o regulamento e inscreva-se aqui.

Violência atinge mais de 1 bilhão de mulheres no mundo, mas ocupa apenas 1,3% do noticiário global, mostra estudo

Por Luciana Gurgel

Luciana Gurgel

O silêncio do noticiário contrasta com a escala da violência. Um novo relatório global mostra que, embora uma em cada três mulheres já tenha sofrido violência sexual ao longo da vida, temas como assédio, feminicídio, violência doméstica, abuso sexual, estupro, sexismo e misoginia seguem ocupando uma fatia mínima da cobertura jornalística.

O levantamento aparece no The Global Misogyny News Coverage Tracker, assinado pela pesquisadora Luba Kassova, uma das principais vozes no debate sobre mídia e gênero no mundo. O trabalho analisou 1,14 bilhão de notícias online, em 65 idiomas, publicadas entre 2017 e 2025.

Segundo o relatório, esses temas representaram apenas 1,3% do noticiário online global em 2025, o menor nível desde 2017. No pico do movimento #MeToo, em 2018, essa proporção havia chegado a 2,2%.

O estudo também aponta que a cobertura tende a tratar crimes como episódios isolados, sem conectá-los a desigualdades estruturais. Mesmo em reportagens sobre violência contra mulheres, homens continuam predominando entre as vozes citadas: entre 2017 e 2025, houve 1,5 homem citado para cada mulher. Em 2025, a proporção subiu para 1,6.

Outro dado chama atenção: enquanto a cobertura sobre misoginia e violência contra mulheres recua, as menções ao termo “ideologia de gênero”, expressão utilizada em narrativas contra a igualdade, cresceram 42 vezes no noticiário global entre 2020 e 2025. Na América do Sul, o aumento foi de seis vezes.

O relatório recomenda que redações adotem uma abordagem mais centrada nas sobreviventes, ampliem a presença de mulheres como fontes, evitem linguagem passiva e contextualizem crimes individuais dentro de sistemas mais amplos de desigualdade.

Leia mais sobre o relatório e acesse o documento em MediaTalks.


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