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sexta-feira, fevereiro 6, 2026

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Memórias da Redação ? A reportagem que não foi escrita

A reportagem que não foi escrita Em maio de 1984, durante o governo Franco Montoro, eclodiu na região de Ribeirão Preto, interior paulista, uma greve dos cortadores de cana. O epicentro do movimento foi a pequena cidade de Guariba, onde a repressão violenta da Polícia Militar acabou produzindo a morte de um morador, aposentado, que assistia na pracinha a uma manifestação de protesto. A greve terminou quando os boias-frias começaram a incendiar os canaviais, e os usineiros concordaram em acabar com aquele regime de semiescravidão. Fiz a cobertura do acontecimento, com o repórter fotográfico Carlos Fenerich. A reportagem ganhou capa da revista Veja e o assunto virou tema de teses de mestrado e livros acadêmicos. Cinco meses depois, o editor-chefe Elio Gaspari me chamou e disse que eu deveria voltar a Guariba e me misturar aos boias-frias para investigar as suas condições de vida. Antes da greve, eles viviam em favelas, não tinham vínculo com as usinas, ganhavam uma diária miserável que era negociada dia a dia, tinham que colocar as crianças para trabalhar porque o ganho dos adultos não era suficiente para comer. Eu deveria ficar uma semana cortando cana e fazer uma reportagem-depoimento. Ralei o quanto pude, porque aquilo era um trabalho muito pesado: as farpas da cana entravam pelas narinas, mesmo com máscara ou um lenço protegendo o rosto, as costas doíam logo no começo da jornada e a gente tinha que estar no canavial às 4 horas da manhã. Num daqueles dias, estive com uma comissão de trabalhadores diante de um primo, que era diretor da Usina Santa Elisa, e ele não me reconheceu. Voltei à redação na semana seguinte e perguntei ao Gaspari: “Chefe, quantas linhas?”. Ele respondeu com outra pergunta: “Os usineiros estão cumprindo o acordo da greve?”. Eu confirmei: “Sim, as condições são melhores, as crianças estão na escola, os facões são novos, eles têm botinas, luvas, e o cronograma do acordo está sendo cumprido em dia”. Então, Gaspari me surpreendeu com uma das melhores lições de jornalismo: “Não precisa escrever nada. Cumprimento de acordo não é notícia. Só queria saber se aquilo que você escreveu meses atrás ainda é verdade”. Isso aconteceu há trinta anos, num tempo em que Veja fazia jornalismo. Leia mais + Memórias da redação – Huguinho, Zezinho, Luizinho e Fleury + Memórias da redação – Penetras + Memórias da redação – Um violino muda a vida de jovens da periferia

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