A história desta semana é de Magda Almeida ([email protected]), que já participou deste espaço com Vida e morte de um jornalista chamado Anselmo. Carioca, Magda teve passagens por Jornal do Brasil (repórter especial e editora), Jornal da Tarde e O Estado de S. Paulo (repórter especial) e O Dia, onde foi ombudsman e criou e administrou o Instituto Ary Carvalho, braço social, cultural e de educação do grupo O Dia. Diz ela que nessa história, que publicou no facebook, o protagonista é Luarlindo Ernesto, “um querido com muitas histórias em seu vasto currículo. Como quase todas, nelas o trágico e o cômico se misturam e provam: vida de jornalista no Brasil dá livro, filme, peça de teatro e, às vezes, espetáculo circense. Vamos lá!”. O amigo Quis o destino que Luardino Ernesto – o nosso Lua – tivesse sido criado tendo como um de seus melhores amigos um rapaz chamado Lúcio Flávio Vilar Lirio. Cresceram juntos nos subúrbios cariocas. Adultos, cada um seguiu seu rumo: Luarlindo estudou e virou um dos mais atuantes e respeitados jornalistas brasileiros. Lucio Flávio, homem bonito, olhos claros, cheio de charme, classe média, não estudou e virou um temido assaltante, especializado em roubo de carros. Também gostava de assaltar bancos. Vivia nas páginas policiais e na fantasia de muitas socialites (não era o único). Quando assaltava e havia mulheres por perto, jogava para elas todo o seu poder de sedução, que não era pouco. Diz a lenda urbana que, às mais nervosas diante do arsenal apontado por sua quadrilha no momento do assalto, oferecia água e palavras de consolo. Em uma madrugada no inicio dos anos 1970, quando era repórter da Folha de São Paulo e da lendária revista Manchete, Lua levou a namorada para jantar no também lendário restaurante Fiorentina, que dividia com a praia do Leme a preferência da intelectualidade carioca. O amor estava no ar e o repórter ocupava uma das mesas perto da varanda. De repente, descem de um carro vários homens armados. Aos gritos, anunciam o assalto. O salão principal estava lotado. À frente do grupo, um homem meio alourado, olhos claros, dava as ordens: todos deveriam se levantar, ficar de braços para uma parede branca, braços pra cima – “de preferência”, sem olhar para trás. Luarlindo, que já se sentia incomodado naquele alongamento forçado, arrisca-se e dá uma espiada no chefe do bando. Olham-se e se reconhecem. Segundos de surpresa, espanto, grita o Lúcio Flávio: – Ô cara, o que tu tá fazendo aqui???? – Parecia feliz com o inesperado reencontro. – No momento – disse-lhe Lua, meio irônico, sem saber se ria ou chorava – estou sendo assaltado. Diante da inusitada cena e a uma ordem de Lúcio Flávio, um dos comparsas tira a pistola da testa de Lua. O assaltante-chefe, livra-o da incômoda posição e, cheio de mesuras, o acompanha até a mesa onde ele estava quando o bando chegara. Luarlindo sentou, terminou de comer e esperou que o assalto chegasse ao seu final. Antes de sair, Lúcio Flávio se despede com um “tchau” ao companheiro de infância, não sem antes pagar as despesas da mesa 8. Inclusive o vinho. O que Luarlindo tanto temia, aconteceu. Mal a quadrilha saiu, adentrou no restaurante o então comissário de polícia, o polêmico (vamos deixar assim) Helio Vígio. Assim que entrou, o Fiorentina em pesou apontou para Lua e gritou para o comissário: “Pega ele…” Foi difícil para o já veterano repórter explicar na delegacia os laços antigos que o uniam ao bandido mais procurado pela polícia carioca. Mas a polícia também conhecia Luarlindo, profissional respeitado (até hoje, o danado) como repórter e ser humano raro.
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