Foi realizado em 25/8 o quinto encontro do ciclo O Presente e o Futuro do Jornalismo – Insights, em comemoração aos 30 anos do Jornalistas&Cia, em parceria com a ESPM. O evento, na ESPM Tech, em São Paulo, reuniu repórteres, especialistas, lideranças de veículos, veteranos da comunicação e estudantes de jornalismo para debater o trabalho do jornalista investigativo no Brasil.

Participaram Juliana Dal Piva, do Centro Latinoamericano de Investigação Jornalística (CLIP), responsável por grandes investigações, como o podcast A Vida Secreta de Jair, sobre o envolvimento do ex-presidente Jair Bolsonaro em esquema de desvio de salários de assessores do seu gabinete quando era deputado federal; Luiz Vassallo, do Metrópoles, autor da série de reportagens A Farsa do INSS, que revelaram um grande esquema de falsas associações que descontavam irregularmente de aposentados; e Marcelo Soares, da Lagom Data, que há 27 anos trabalha com jornalismo de dados, parte essencial e crucial do trabalho de um jornalista investigativo. A mediação foi de Reinaldo Chaves, coordenador de Projetos da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Eduardo Ribeiro (Crédito: Ana Laura Ayub/J&Cia)

Na abertura do evento, Eduardo Ribeiro, diretor do J&Cia e do Portal dos Jornalistas, reiterou a importância do jornalismo investigativo nos dias atuais: “É uma frente essencial da nossa profissão, que exige tempo, coragem e independência para enfrentar interesses de poderosos. Vivemos um momento em que o jornalismo investigativo se fortalece com jornalismo de dados, trazendo novas metodologias, maior alcance, mas ao mesmo tempo enfrentamos também muitos desafios, resistências e ataques que buscam descredibilizar esse trabalho. É neste equilíbrio entre avanço e ameaça que se desenha o futuro da reportagem investigativa, e nada mais importante do que ouvir quem está na linha de frente desse processo”.

Ao longo do evento, os convidados contaram um pouco das apurações e trabalhos investigativos que realizaram, explicando como funciona o dia a dia de um jornalista investigativo, o que fazer para realizar apurações de fôlego, como lidar com eventuais riscos à suas próprias seguranças e com ataques diários em decorrência do trabalho.

Para Juliana, todo jornalismo deve (ou deveria) ter algum tipo de investigação: “Não consigo entender jornalismo sem que esteja aliado a investigação. Às vezes, a mínima apuração de determinada pauta exige uma investigação profunda”. A repórter do Clip destacou que as ferramentas utilizadas pelos jornalistas durante a investigação são muitas, e dependem muito das pautas, do objeto que está sendo investigado.

Outro ponto destacado por Juliana é a importância de ser versátil ao trabalhar como jornalista investigativo: “Antes dessas grandes investigações e apurações focadas em corrupção, trabalhei por muitos anos cobrindo direitos humanos, publiquei recentemente livro sobre o desaparecimento do Rubens Paiva. E a coisa que mais aprendi como repórter é que ele deve ser um grande resolvedor de problemas. Não é porque você nunca fez ou cobriu algo que não pode aprender e até se especializar naquele determinado assunto. Aprendi a investigar na raça, investigando patrimônios públicos, entrevistando pessoas da área, aprendendo no campo, com outros jornalistas que fazem investigações desse tipo − ou seja, você vai encontrando soluções para resolver a sua pauta, ser ‘maleável’, esperto, tem um pouco de tudo”.

A repórter do Clip explicou também que, para além das técnicas e do conteúdo da investigação, é preciso pensar sempre em como os jornalistas e veículos vão apresentar para o público o trabalho que realizaram. É essencial pensar como contar a história, seja podcast, documentário, matéria com imagens, sempre refletir sobre a melhor maneira, o melhor formato de mostrar o conteúdo ao público: “O caso do Silas Malafaia, por exemplo. Resolvemos fazer um grande perfil dele, mostrando trajetória e a vida dele. Quisemos ir além de uma simples checagem ou investigação, queríamos apresentar quem ele é e como se construiu, como fez o dinheiro, o patrimônio que ele tem, envolvimento com a igreja, como botou família inteira nos negócios, criou várias empresas”.

Muitas vezes, pautas que acabam caindo, são abandonadas para sempre pelos repórteres. E Juliana afirmou que isso é um grande erro, pois, às vezes, é possível retomar aquele determinado assunto algum tempo depois, em outro momento, com mais informações à mão: “Não é porque a pauta está arquivada que não servirá para investigações futuras. Às vezes, muda muito repensar tópicos com uma cabeça nova, mais madura, anos depois, com novidades, em diferentes contextos. Nunca tire do radar uma pauta que tem potencial para virar uma grande investigação, mesmo que essa pauta tenha caído há anos”.

Juliana Dal Piva (na tela), Reinaldo Chaves (esq), Marcelo Soares e Luiz Vassallo (Crédito: Ana Laura Ayub/J&Cia)

Luiz Vassallo, responsável por um dos maiores furos do ano, falou sobre o trabalho de investigação para produzir a série de reportagens da farra do INSS. O repórter contou que a pauta caiu em suas mãos por acaso, e que ele não fazia ideia da dimensão que alcançaria no futuro.

“Eu estava de plantão, que é um desespero na vida do repórter. Aí, Fábio Leite, diretor da sucursal do Metrópoles em São Paulo, vinha recebendo denúncias de uma pessoa de seu círculo social sobre descontos estranhos nos vencimentos da previdência social. A entidade que fazia os descontos chamava-se Ambec, e essa pessoa não fazia ideia do que era, Fábio também não; então, ele me acionou. No começo, estava cético com a pauta, pois parecia algo comum, algum tipo de golpe, não sabia o tamanho que seria”.

Vassallo contou que a investigação começou com uma pesquisa rápida e superficial, que, apesar de simples, é essencial e pode ajudar muito como um pontapé inicial em grandes investigações jornalísticas: “Em dezembro de 2023, eu precisava entender o que era essa associação, então procurei o mais básico, fontes abertas, no próprio Google mesmo. E achei um número gigantesco de processos, quase 13 mil processos judiciais contra a Ambec, do País inteiro, nas mais diversas varas judiciais. E os processos eram muito semelhantes, descontos em vencimentos, desconhecimento da entidade etc. Encontrei também problemas de reputação da associação no Google, reclamações, baixas notas de competência. Essa pesquisa inicial me ajudou a identificar que, de fato, algo muito errado estava acontecendo”.

O repórter do Metrópoles foi até a porta da entidade, e encontrou um escritório comercial pequeno, uma sala pequena para o suposto tamanho da entidade. “Foi aí que tive a certeza de que tinha alguma coisa errada. Como pode essa associação, com esse espaço tão pequeno, ter tantos processos. Tinha algo errado, era muito grande para ser tão pequeno”. Vassallo conversou com o advogado de uma das vítimas, que passou ao repórter um processo que mostrava uma disputa pelo controle da associação, que revelou os sócios da Ambec.

“E aí eu dou uma grande dica a vocês: Sempre que encontrarem um personagem em suas investigações, nunca o percam ou tirem do radar. Na pandemia, na época da CPI da Covid, entrei em contato com um personagem peculiar, o empresário Mauricio Camisotti, envolvido em esquema de superfaturamento em vendas de vacinas para a Covid-19. Já naquela época eu tinha percebido que ele seria personagem importante mais para a frente. E, coincidência ou não, descobri que o próprio Camisotti era um dos sócios da Ambec, que estava envolvido na disputa pelo controle da empresa”.

Vassallo contou que o caso teve muitos acontecimentos estranhos, o que de certa forma contribuiu para enriquecer a reportagem. Ele falou sobre uma das condenações da Ambec, na qual a empresa usava áudio modificados e alterados com a voz de aposentados como tentativa de provar que eles estavam cientes e aprovavam os descontos indevidos. Mas os áudios em questão não tinham datas e nem seguiam protocolos-padrão, além de terem evidências claras de edição. Posteriormente, tais áudios foram comprovados como fraudulentos. O repórter também contou sobre a faxineira Maria Inês, funcionária “laranja” da Ambec, tida como presidente da entidade, sendo que ela própria se declarava como auxiliar de dentista.

O repórter do Metrópoles levantou um questionamento importante que permeia toda investigação jornalística: o conflito entre pedidos de acesso a dados via Lei de Acesso à Informação (LAI) versus a possibilidade de ferir a privacidade de pessoas e entidades segundo a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD): “No caso da Ambec, eu fiz vários pedidos, pois queria verificar os rendimentos mensais das associações fraudulentas. Fui negado várias vezes, depois recebi respostas incompletas, ou seja, demorou muito até conseguir dados concretos e evidência que fomentassem a pauta. E, de fato, os números eram muito estranhos. A quantidade de associados, por exemplo, cresceu de forma desproporcional. A Ambec tinha cerca de 45 mil associados e em pouco tempo saltou pra 500 mil associados”.

Em resumo, Vassallo reiterou a importância da apuração em grandes investigações. Ir a campo, fazer uma pesquisa prévia, depois ir a fundo nos dados, mexer com planilhas, buscar com fontes, vítimas e seus advogados. Todo esse trabalho foi essencial para a Farra do INSS, e inclusive as reportagens pautaram diversas mudanças e ações em órgãos públicos, incluindo a Operação Sem Desconto, da Polícia Federal.

Marcelo Soares, especialista em jornalismo de dados, com mais de 27 anos de carreira dedicados à área, explicou como saber checar e utilizar dados é essencial em toda e qualquer investigação jornalística.

O criador da Lagom Data explicou que um dos pontos mais importantes quando se trabalha com dados, principalmente quando se fala de demografia, é saber analisar, interpretar e ir além dos mapas. Ele usou como exemplo os mapas de intenção de voto nas eleições de 2014. O mapa geral do Brasil, mostrando qual candidato “ganharia” em cada estado, esconde diversas peculiaridades e realidades que só podem ser vistas em nível municipal: “O mapa geral, mostrando intenção de voto por estado, é mentiroso, pois ao analisar estado por estado a situação é diferente. Às vezes, mesmo que, na média, um estado vote mais em determinado candidato, quando olhamos os mapas de intenção de voto por cidade e município daquele mesmo estado, vemos uma pluralidade de outros candidatos que podem ser diferentes daquele que o estado ‘elegeria’. Então, é preciso se atentar às nuances, às realidades de cada contexto, no caso, cada cidade, município”.

Marcelo destacou também o que ele chama de “A arte de sujar os sapatos”, ou seja, ir a campo, não focar só nos dados, para ter dimensão da realidade, do que de fato acontece: “Os dados mostram uma foto antiga da realidade. Eles raramente contam a história inteira. Eles contam uma história de um período específico, não necessariamente correspondem ao que de fato está acontecendo no aqui e agora. Por exemplo, há um tempo, fiz um trabalho sobre informações de serviços essenciais no Rio Grande do Sul. E, segundo dados que pesquisamos, em Jari, não tinha estrada asfaltada, nem escola, nem posto de saúde. Eis que vamos para lá, e adivinhem? Passamos por uma estrada asfaltada, uma escola novinha e bem ao lado um posto de saúde recém-construído. Então, é muito importante valorizar e checar os dados, mas ir a campo, é essencial para justamente comprovar esses dados”.

Para Marcelo, a importância do jornalismo de dados vai além da relevância jornalística, do interesse público, mas é essencial também para salvar vidas. Ele destacou um trabalho que fez durante a pandemia de Covid-19, no começo do período repleto de incertezas e dúvidas sobre comorbidades, contaminação, perfis de pessoas mais suscetíveis a contrair o vírus: “Não sabíamos muito bem o perfil de quem morria. O detalhamento dos mortos e dos pacientes, no começo, era impreciso e de difícil acesso. Então, comecei a verificar dados na base do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), focando nos desligamentos por mortes, quais profissões tiveram excesso de desligamentos por morte nos últimos meses, ou seja, um forte indicativo de mortes por Covid. A ideia era conseguir identificar as profissões essenciais, que não podiam parar durante a pandemia e ficar em isolamento, ou seja, que ficavam mais suscetíveis à contaminação. Esse estudo ajudou muito a mapear melhor os perfis dos mortos e de contaminados pela doença”.

Marcelo abordou a discussão sobre o uso da inteligência artificial no dia a dia dos jornalistas. Ele se diz cético em relação ao assunto, que já foi mais otimista no passado, e que hoje não confia tanto. Para ele, a tecnologia pode ajudar até certo ponto, sempre sob supervisão humana, mas jamais vai substituir o pensamento crítico dos homens: “Confie mais na sua própria inteligência do que nas IAs, pois elas mentem o tempo inteiro. São boas para sugerir títulos, mas para trabalhar com informação, não são boas, pois não têm visão factual. Não consigo confiar nas LLMs. Além disso, não basta ter o resultado, é preciso checar esses resultados gerados por IAs, sempre precisa ter uma previsão humana”. O criador da Lagom Data citou um exemplo cômico (porém preocupante) de uma matéria que trazia dez recomendações de livros para ler no verão, sendo cinco deles inexistentes, criados pela inteligência artificial que foi usada na construção do texto. Aí fica evidente a importância de supervisão humana no uso da IA.

Por fim, os convidados falaram sobre a convivência com ataques no cotidiano dos jornalistas investigativos, e como prevenir esses casos. Para Juliana, vítima de recorrentes ofensas e ameaças em decorrência de seu trabalho, segurança da imprensa é algo essencial e os ataques são cíclicos, de modo a infelizmente sempre voltarem uma hora ou outra: “Há muitas campanhas de ataques, de difamação, xingamentos. E isso mexe com nossa saúde mental, mas, frequentemente, esse tipo de episódio vem com ameaças online, ou seja, vai reverberando na vida prática também. No meu caso, tenho plena consciência de se tratar de um ataque coordenado direcionado a jornalistas mulheres, como também já foram vítimas as colegas Patrícia Campos Mello, Daniela Lima, Vera Magalhães, entre outras. Nunca podemos esquecer também o caso de Elvira Lobato, que sofreu tanto assédio judicial, com processos em diferentes varas e estados, que não conseguia comparecer a todas as audiências”.

A repórter do Clip destacou a importância de impor limites, para cortar “pela raiz” essas campanhas de ataques e difamação contra jornalistas em decorrência de seu trabalho. Juliana explicou que, devido ao estresse, e com tanta coisa para pensar e fazer, muitos jornalistas acabam “deixando pra lá”, mas é muito importante denunciar esses casos e, em momentos extremos, judicializar e processar os autores dos ataques: “Judicializar ataques é incômodo, demora muito, com várias instâncias, quando recorrer da decisão etc. Mas é essencial. E aqui deixo uma dica: uma coisa que fiz muito é enviar notificações extrajudiciais, que são meio que ‘alertas’ para quem faz esses ataques. É uma estratégia, para tentar cortar antes que vire um processo, de modo a evitar desgaste físico e emocional”.

Juliana afirmou que existe uma dificuldade de noticiar violência contra jornalistas, por parte dos próprios colegas da imprensa, e que se essa cobertura fosse melhor realizada seria de grande ajuda para combater essa violência. Para a repórter, deve ser um movimento conjunto entre os profissionais e os próprios veículos jornalísticos: É preciso ter maior organização em termos de estrutura para apoiar os jornalistas em casos desse tipo nas redações.

Outro ponto discutido foi a questão da segurança dos jornalistas, que, para Juliana, deve estar presente desde antes de iniciar a realização da pauta: “Quando começamos a investigação, além da pauta, precisamos pensar nos métodos, o que precisamos para conseguir as informações, e o quanto isso nos expõe do ponto de vista ético e de segurança, tanto minha como repórter, como das fontes, das pessoas que estão em off e precisam estar seguras. É importante pensar sempre nisso: o que vai precisar em termos de segurança. E isso deve crescer até se tornar cultura, algo padrão dentro das redações, de modo que o próprio veículo ajude a pensar com os repórteres envolvidos.

Assista ao debate na íntegra aqui.

" "
0 0 votes
Article Rating
Subscribe
Notify of
guest
0 Comentários
Inline Feedbacks
View all comments