Um dos mais longevos profissionais da imprensa gaúcha e brasileira (está na lida desde 1968), Fernando Albrecht comemorará em abril 83 anos de vida. Também em 2026, completará 29 anos de trabalho no Jornal do Comércio, de Porto Alegre, onde está desde 1997, no comando da coluna Começo de Conversa. São quase três décadas à frente do espaço em que traz, em notas curtas, objetivas e bem-humoradas, informações sobre bastidores da política, observações da economia e causos do cotidiano.
Fernando começou no jornalismo “sem querer querendo”, como ele próprio descreveu, após exercer outras profissões, como assistente de gerente de banco e piloto de aeroclube. Já na Faculdade de Jornalismo, na UFRGS, em 1968, candidatou-se a uma vaga de repórter policial no jornal Zero Hora. Em seu site, ele falou sobre como a sua rotina foi bem corrida à época, conciliando as aulas da faculdade, o trabalho no banco e a correria e plantões do jornalismo, com poucas horas de sono e alimentação desbalanceada. Apesar disso, para ele, esse trabalho “é a melhor escola de repórteres que tem. Você tinha que ir atrás sem chance de moleza, ainda mais naqueles anos turbulentos”.
Depois de ZH, foi produtor de um programa sobre a bolsa de valores na TV Gaúcha, hoje RBS TV. Posteriormente, retornou à ZH, na cobertura do mercado de capitais. Trabalhou ainda na TV Difusora, como produtor de um talk show. Após um ano para “espairecer”, trabalhando em uma agência de propaganda, Fernando foi pauteiro do Jornal da Manhã e, um ano mais tarde, em 1975, retornou à televisão, como produtor do primeiro programa do agronegócio no Brasil, o Campo e Lavoura. Em 1982, retornou à ZH, como editor da Página 3, o Informe Especial, até 1988. E em 1997, foi para o Jornal do Comércio e criou a coluna Começo de Conversa, que toca até hoje. Trabalhou ainda como comentarista da Rádio e TV Pampa e do Jornal Gente, da Rádio Bandeirantes de Porto Alegre, de 2001 a 2014. Foi também ator de comerciais de TV.
Em sua trajetória, acompanhou a evolução dos meios de comunicação, da linotipo ao offset inicial, passando pelos computadores rudimentares, até a chegada da internet e agora a inteligência artificial. Com sua experiência na imprensa, vê com agonia e tristeza a extinção de tantos tradicionais jornais impressos: “Quando ouço falar no fim do jornal tal como o conhecemos, por concorrência do vapt-vupt da coisa digital com figurinhas, pergunto se parte desse desinteresse não se deve porque não entregamos um produto que o leitor queira ler. Algo como a falta de tradução da informação, o que levou à multiplicação de colunistas. Outro aspecto é a forma. Com pequenas mudanças, a cara de um jornal é a mesma há mais de 150 anos. É como vestir o mesmo terno a vida toda e com a mesma gravata”.
A este J&Cia, Fernando contou um curto e divertido causo sobre um jornalista e poeta que conheceu nas madrugadas de correria e trabalho em Porto Alegre. Leia na íntegra:
Depois de quase 60 anos de jornalismo entremeado por atividades afins por curtos períodos, tenho histórias para encher vários livros. Mas os loosers, os perdedores, sempre tiveram meu olhar atento e simpatia. Há uma certa grandeza neles exatamente porque não chegaram lá. Recordo de uma história de um jornalista que conheci nas madrugadas repletas de fantasmas no centro de Porto Alegre. O poeta maldito Moacir Ribeiro foi um notável colecionador de causas perdidas e de desenganos achados. “Hoje amanheci com uma vontade louca de brigar com Deus”, escreveu ele em um pedaço de papel de pão rasgado sem dó nem piedade numa mesa do Bar Leão em uma dessas madrugadas dos mortos.
Trinta anos depois o encontrei em cima de um viaduto de onde se via uma nesga do Rio Guaíba. Nas mãos, um volante da Mega Sena acumulada. Perguntei o que ele faria se ganhasse o grande prêmio. Olhar longo e desfocado, pensou por algum tempo. Sem se virar para mim, respondeu sem hesitação.
– Vou surfar em Camboriú…
Balneário Camboriú é uma praia catarinense sem ondas. Sendo ele um poeta, poderia perfeitamente surfar nas ondas da imaginação.










