Por Álvaro Bufarah (*)

O mercado de smart glasses vive uma ascensão global – e, com ela, uma transformação silenciosa, que impacta diretamente o rádio, o streaming e os podcasts. A união entre tecnologia vestível e inteligência artificial inaugura uma forma inédita de consumo de conteúdo: mãos livres, olhos atentos e ouvidos conectados.

O caso mais emblemático vem do Ray-Ban Meta, resultado da parceria entre a icônica fabricante de óculos e a Meta, dona de Facebook, Instagram e WhatsApp. Com design discreto e alto-falantes embutidos nas hastes, os óculos se tornaram um dispositivo de áudio pessoal, permitindo ao usuário ouvir música, rádio ou podcasts enquanto caminha, dirige ou trabalha – sem fones e sem isolamento. A condução óssea, tecnologia que transmite o som direto para o ouvido sem bloquear o ambiente, transforma o ato de escutar em algo fluido e natural.

(Crédito: essilorluxottica.com)

O mercado reagiu com entusiasmo. Em 2024, o segmento global de smart glasses foi avaliado em US$ 1,93 bilhão, com previsão de alcançar US$ 8,26 bilhões até 2030, crescendo a uma taxa anual de 27,3 %. Só o Brasil já movimenta US$ 128 milhões, com expansão projetada de 27,5 % ao ano. O salto de 210% na penetração mundial entre 2023 e 2024 mostra que os óculos inteligentes deixaram de ser curiosidade de laboratório para se tornarem plataforma de mídia portátil.

Entre os pioneiros, a iHeartRadio assumiu o posto de primeira emissora a integrar rádio ao vivo, podcasts e playlists diretamente no Ray-Ban Meta. Basta o comando “Ei, Meta, toque Z100!” para iniciar a estação. É possível favoritar programas, pausar ou trocar faixas e até receber sugestões automáticas do assistente Meta AI, com novos episódios e transmissões ao vivo. A experiência é contínua: o áudio é processado pelo smartphone pareado, mas a interação ocorre inteiramente por voz – sem toque, sem tela.

Essa fusão entre tecnologia e som redefine o papel do rádio. O que antes dependia do dial ou do aplicativo passa a estar literalmente no rosto do ouvinte. Para emissoras e plataformas de streaming, trata-se de um novo canal de distribuição, direto e íntimo. O ouvinte não precisa interromper o que faz; o conteúdo acompanha sua rotina, tornando-se parte da paisagem sonora do cotidiano. O rádio volta a ocupar o espaço que sempre lhe pertenceu: o de companheiro invisível, agora reconfigurado em chave digital.

Mas esse avanço traz dilemas. A adoção ainda é restrita a consumidores de alta renda e mercados mais conectados. A privacidade preocupa – afinal, são dispositivos equipados com microfones, câmeras e sensores permanentes. Há também o desafio de criar conteúdos compatíveis com esse novo contexto de escuta, pensados para quem está em movimento: blocos mais curtos, linguagem direta e presença de voz humana que dialogue com o ambiente.

Mesmo assim, o potencial é inegável. À medida que as interfaces por voz se consolidam – Alexa, Siri, Google Assistant e, agora, Meta AI –, o consumo de áudio tende a migrar para experiências cada vez mais integradas ao corpo. O rádio, longe de desaparecer, se metamorfoseia: sai do aparelho de mesa, passa pelo smartphone e chega aos óculos, mantendo a mesma missão de informar, entreter e acompanhar.

Nos próximos anos, veremos rádios locais e produtoras independentes criando versões wearable-friendly de seus programas. As playlists se adaptarão ao contexto – o trajeto, o horário, o humor. E a fronteira entre emissor e ouvinte será cada vez mais tênue: ambos dialogam, literalmente, pelo olhar.

Os smart glasses não são o fim de nada; são o começo de uma escuta ubíqua, leve e personalizada. O som, antes estacionado no fone, agora caminha conosco. O rádio, aquele velho amigo de vozes e histórias, ganha novos olhos para continuar sendo ouvido.

Fontes consultadas

Radio Ink – “Smart glasses em ascensão são mais um canal de distribuição para rádios, streaming e podcasts” (26 out. 2025)

Grand View Research – Smart Glasses Market Size, Share & Trends Analysis Report (2024 – 2030)

Statista – Wearable Technology Forecast 2025-2032

Meta / Ray-Ban – Ray-Ban Meta Product Overview and SDK Documentation

Kantar IBOPE Media – Inside Audio 2025 (92 % dos brasileiros consomem áudio em múltiplos formatos)


Álvaro Bufarah

Você pode ler e ouvir este e outros conteúdos na íntegra no RadioFrequencia, um blog que teve início como uma coluna semanal na newsletter Jornalistas&Cia para tratar sobre temas da rádio e mídia sonora. As entrevistas também podem ser ouvidas em formato de podcast neste link.

(*) Jornalista e professor da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e do Mackenzie, pesquisador do tema, integra um grupo criado pela Intercom com outros cem professores de várias universidades e regiões do País. Ao longo da carreira, dedicou quase duas décadas ao rádio, em emissoras como CBN, EBC e Globo.

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