Relações duradouras

* Por Nair Keiko Suzuki

“Um dia ainda vou te levar para o Folhão”, me disse Alexandre Gambirasio, então secretário de Redação da Folha de S.Paulo, enquanto eu redigia um texto na Agência Folhas. Na época, ainda foquinha, eu era setorista de trânsito. Passava a tarde toda na sede do Departamento Estadual de Trânsito e voltava à Redação no começo da noite para escrever as matérias do dia.

Quatro anos depois, quando trabalhava na sucursal de São Paulo do Jornal do Brasil, Gambirasio assumiu a editoria de Economia da Folha e me convidou para ser chefe de Reportagem da área. “Estou com casamento marcado para junho”, avisei. Era janeiro de 1975. “Não se preocupe”, respondeu. “Você terá 12 dias de lua de mel”, prometeu.

Pedi demissão do JB e comecei a trabalhar na Folha em fevereiro. Às vésperas do meu casamento, o editor de Turismo me encomendou matérias sobre o turismo na Argentina, já que eu ia passar a lua de mel em Buenos Aires. Com isso, meus passeios e refeições viraram pautas. Onde ia, fotografava e anotava detalhes e os preços da comida, dos ingressos, das tarifas de transportes.

Enquanto estava lá, caiu a presidente Maria Estela Martínez Perón, a Isabelita Péron, devido à Operação Independência que foi realizada em seu governo. Foram mais de 200 sequestros, desaparecimentos, assassinatos e torturas considerados crimes de lesa-humanidade ocorridos em Tucumán, no norte da Argentina. Com a crise política, as casas de câmbio fecharam e mal se podia locomover pelo país.

Ao retornar da lua de mel, escrevi as matérias sobre o turismo na Argentina, que dariam para editar várias páginas. Mas, diante da turbulência no país vizinho, a Folha decidiu adiar a edição da reportagem. “Ninguém vai querer passear num país em crise”, argumentaram. Meus textos e fotos ficaram esquecidos na gaveta. Exato um ano depois, alguém se lembrou deles e me pediu para atualizar as informações e os preços.

O que saiu publicado em uma página perdeu toda a graça e o glamour de uma viagem feita durante uma lua de mel. Mas me garantiu o emprego por oito anos. E o casamento com Oscar Noguchi dura até hoje.

 

* Nair Keiko Suzuki acumula 48 anos de carreira, com passagens por Folha de S.Paulo, Jornal do Brasil, O Estado de S. Paulo e Gazeta Mercantil e das revistas IstoÉ, Afinal, Construção em São Paulo e Notícias da Fiesp.

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