Os 90 anos de José Ramos Tinhorão

José Ramos Tinhorão

José Ramos Tinhorão, considerado um dos mais importantes pesquisadores da música popular brasileira, historiador e crítico musical, completa 90 anos nesta quarta-feira (7/2). Para marcar a data, os amigos organizaram dois eventos na capital paulista.

No primeiro, na sexta-feira (dia 9), às 18h30, na Ação Educativa (rua General Jardim, 660), Elizabeth Lorenzotti, biógrafa de Tinhorão, e o amigo Assis Ângelo, também ele pesquisador, mas de cultura popular, reúnem-se num bate-papo sobre a vida e a obra dele.

No sábado (10), a partir das 15h, diversos músicos farão uma grande roda de samba no Bar Amélia 596 (rua General Jardim, 596), que ele frequenta, onde será descerrada uma placa em sua homenagem. Mais informações pelo jorgehenriquesbastos@gmail.com.

Bem-humorado, ele falou a J&Cia sobre alguns momentos marcantes de sua carreira:

Jornalistas&Cia – Você também é advogado, não?

José Ramos Tinhorão – Sim e não (risos). Comecei a fazer Direito no Rio de Janeiro, em 1949. Dois anos depois, entrei também em Jornalismo. Como o curso de Direito tinha cinco anos e o de Jornalismo, três, concluí os dois ao mesmo tempo. Naquela época era proibido tirar dois diplomas de curso superior no mesmo ano. Então, peguei o de Direito, mas jamais exerci a profissão. O de Jornalismo nunca peguei, e foi essa a carreira que segui.

J&Cia – E como começou?

Tinhorão – Foi em 1951, por intermédio do Armando Nogueira, que era meu colega na faculdade de Jornalismo e trabalhava no Diário Carioca. Comecei como redator. Um belo dia, fiz um texto-legenda pra uma foto, que todos na redação adoraram. Virei especialista naquilo, tanto que me chamavam de “Tinhorão legendário” (risos).

J&Cia – A propósito, Tinhorão é apelido, não?

Tinhorão – Era, mas virou nome. Eu me chamo José Ramos. Um dia, pouco depois que comecei no jornal, o secretário de Redação Everardo Guilhon queria me chamar mas não lembrava do meu nome. Sabia que era algo relativo a vegetal. Paraense, resolveu usar o nome de uma planta ornamental muito comum por lá. E berrou: “Ôôô José Tinhorão!” Todo mundo riu e passou a me chamar assim. Pouco tempo depois assinei minha primeira matéria como J. Ramos. Quando a vi publicada, estava lá: J. Ramos Tinhorão. Fiquei puto da vida e no dia seguinte reclamei com o Pompeu de Souza, que era diretor de Redação. Ele argumentou: “Deixa de ser bobo! José Ramos tá cheio por aí; Tinhorão, só vai ter você”. Não fiquei muito convencido, mas depois pensei melhor e achei que ele tinha razão. Tinha mesmo, né? (risos)

J&Cia – E a MPB, como entrou na sua vida?

Tinhorão – Foi no Jornal do Brasil, por volta de 1958, 1960. Comecei a pesquisar para uma série, Primeiras Sessões de Samba, a pedido do Reinaldo Jardim, para substituir uma de jazz que o Luiz Orlando Carneiro tinha terminado. Depois, passei a fazer uma coluna na página em que o Sérgio Cabral (pai) entrevistava sambistas das escolas de samba. Era um levantamento histórico sobre o samba desde o século XIX.

J&Cia – E as suas querelas com o pessoal da Bossa Nova, que ficaram famosas?

Tinhorão – Foi no início dos anos 1960, quando ela estava no apogeu. Como o meu trabalho tinha um enfoque histórico/sociológico, não considerava aquilo música popular, do povão. Era trabalho de garotões da classe média da zona sul do Rio de Janeiro. Meti bronca por esse ângulo.

J&Cia – Quantos livros você escreveu? Tem algum em preparação?

Tinhorão – Não sei de cabeça, acho que uns 30. O mais recente foi um ensaio biográfico sobre Ismael Silva. Não sei se vou escrever mais algum. Estou em fim de carreira – ou melhor, em fim de vida (risos). Se fizer, não será sobre MPB, pois esta não existe mais. Tenho pesquisado, juntado material sobre literatura erótica, livros proibidos. Quem sabe?

(Veja também o Blog de Assis Ângelo)

1 comment

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  1. A Música Popular brasileira continua mas com características diferentes das que Tinhorão considera. Estão aí Zeca Baleiro, Marisa Monte, Lenine e tantos outros produzindo com qualidade. Parece que essa MPB não tem espaço mas existe.

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