O reencontro de uma geração fora das grandes redações

 

O convite era inusitado: uma feijoada oferecida neste sábado em homenagem a Audálio Dantas nos jardins de um hospital.

Aos poucos, os amigos foram chegando para a festa-surpresa, recebidos pelo dr. Samir Salman, fundador e diretor do Hospital Premier, pioneiro e referência em cuidados paliativos.

Foi um reencontro da minha geração de jornalistas e, conversando com um e outro, descobri que ninguém mais trabalhava nas grandes redações da mídia onde fizemos nossas carreiras. A única e honrosa exceção era o premiado repórter José Hamilton Ribeiro, 82 anos, 63 de profissão, que continua bravamente trabalhando no Globo Rural. Os demais mudaram de ramo ou continuam escrevendo nas novas mídias eletrônicas alternativas.

Pelas conversas que ouvi, o afastamento desta geração das redações não se deve apenas à idade, o ciclo natural da vida que leva a uma troca geracional no mundo do trabalho. No caso dos jornalistas, isso já vem acontecendo há algum tempo, e não apenas devido ao agravamento da crise econômica enfrentada pelo setor, nem pela revolução da internet, mas a um novo padrão editorial que não aceita mais contrapontos, posições independentes e opiniões divergentes. Vivemos a era do pensamento único, em que todas as publicações da grande mídia familiar são indiferenciadas, e parecem ser pautadas e editadas pela mesma pessoa.

Em breve, a seguir nesse passo, o que se chamava de jornalismo poderá ser executado por robôs. O resultado seria praticamente o mesmo e sairia mais barato.

Simplesmente, não há mais espaço na imprensa hegemônica dominada pelos oligopólios para os Audálio Dantas da vida. Acima de tudo um brasileiro de caráter, fiel a seus princípios, Audálio fez história no jornalismo brasileiro com reportagens antológicas antes de comandar o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo no dramático episódio do assassinato do Vladimir Herzog, em meados dos anos 70 do século passado. Depois, exerceu um mandato de deputado federal e participou de todos os movimentos em defesa da democracia, da liberdade de expressão, dos direitos humanos, como faz até hoje.

Não recusa convites para palestras e debates e certamente é o campeão de atividades não remuneradas. Vive de trabalhos eventuais, com muitas dificuldades, mas nunca o vi reclamar da vida.

Nada mais justo que ele fosse contemplado com o Prêmio Averroes, concedido anualmente pelo Hospital Premier para enaltecer a generosidade intelectual e a solidariedade.

Nascido em Tanque d´Arca, no sertão alagoano, começou na Folha ainda moleque como laboratorista, logo virou repórter e fotógrafo autodidata numa turma de novatos de que fazia parte José Hamilton Ribeiro, entre outros profissionais que ganhariam destaque na imprensa brasileira.

Se fosse hoje, talvez Audálio não passasse no teste. Ele sempre foi um jornalista com opinião própria.

É muito bom poder dizer que sou velho amigo dele, embora nunca tenhamos trabalhado na mesma redação. E aquelas redações não existem mais.

1 comment

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  1. A convite de Vanira Kunk participei deste almoço, quando pude rever outros velhos amigos, como José Marques de Melo e sua esposa Sílvia, o homem da OBORÉ, Sérgioi Gomes e outros companheiros.
    Flávio Tiné

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