O adeus ao imortal da ABL, que no jornal foi “cronista agudo e lírico”

Carlos Heitor Cony

Por Cristina Vaz de Carvalho, editora colaboradora de J&Cia no Rio

Carlos Heitor Cony morreu em 5/1, aos 91 anos, no Hospital Samaritano, no Rio, onde estava internado desde o final de dezembro, por falência múltipla dos órgãos após uma cirurgia no intestino. Seu corpo foi cremado no Memorial do Carmo, na terça-feira (9/1), em cerimônia restrita à família. Cony deixou viúva Beatriz Lajta e três filhos.

Carioca do Lins de Vasconcelos, na Zona Norte, estudou em seminário e começou o curso de Filosofia na Universidade do Brasil (atual UFRJ), sem concluí-lo. Sua primeira experiência foi no Jornal do Brasil, cobrindo as férias do pai, o jornalista Ernesto Cony Filho.

Trabalhou como funcionário público até 1952, quando se tornou redator da Rádio Jornal do Brasil. Mas foi no Correio da Manhã, onde entrou em 1960, que consolidou a carreira no jornalismo. Nessa época, era considerado no meio como pouco politizado e, assim, atacado pela esquerda e pela direita. De início, apoiou a queda de João Goulart, que resultou no golpe militar de 1964. Logo depois, opôs-se abertamente ao regime, foi preso seis vezes e enquadrado na Lei de Segurança Nacional.

Ao ser convidado para ser jurado do prêmio Casa de las Americas, em Cuba, lá ficou morando por um ano. Voltou ao Brasil a convite de Adolpho Bloch, e passou mais de 20 anos na Bloch Editores. Foi editor de Manchete e diretor de Ele&Ela, Desfile e Fatos&Fotos. Trabalhou também na Ediouro, fazendo adaptações de clássicos, traduções e prefácios de livros.

Simultaneamente ao jornalismo, era um escritor versátil e dedicado. Publicou 17 romances, três dos quais mereceram o Jabuti: Quase memória, A casa do poeta trágico e Romance sem palavras. E mais oito livros de crônicas, dois de contos, sete juvenis, quatro biografias – gênero em que se destacou com JK – Memorial do exílio – duas telenovelas, quatro roteiros para cinema, e muitos livros em coautoria. Entre inúmeros prêmios literários, recebeu o Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra. Foi eleito para a ABL em 2000. Em seu discurso de posse, definiu-se, em termos de ideologia: “Não tenho disciplina suficiente para ser de esquerda, não tenho firmeza suficiente para ser de direita e não tenho a imobilidade oportunista do centro”.

Em 1993, após deixar a Bloch, passou a colaborar com a Folha de S.Paulo, indicado por Jânio de Freitas, e ali manteve a coluna Rio de Janeiro, na página A2, até sua morte. No obituário, a Folha definiu-o como “cronista agudo e lírico”. Assim como se iniciou no jornalismo de rádio, Cony era, ultimamente, também comentarista da CBN.

A obra dele foi adquirida em 2013 pela editora Nova Fronteira, que pretende relançar títulos esgotados e também inéditos. Um deles é a reedição ampliada de O beijo da morte, em parceria com Anna Lee, sobre as mal-explicadas mortes de João Goulart, Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, durante o regime militar. Além de um novo título – Operação Condor – o livro tem novos capítulos e notas suplementares, sobre fatos que vieram à tona após a publicação original.

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