Memórias da Redação – Último lugar do mundo para trabalhar

A história desta semana é uma colaboração de Eduardo Ribeiro, diretor de Jornalistas&Cia e deste Portal dos Jornalistas. Último lugar do mundo para trabalhar Estávamos em meados de 1977. A equipe de Casa Claudia, sob a batuta do redator-chefe Sinval Medina, na Editora Abril, então no prédio da rua do Curtume, na Lapa, zona oeste de São Paulo, funcionava como uma orquestra. E se a comparação fosse com um time de futebol, era daqueles em que a união é a grande arma. Escalado para fazer as reportagens de serviço, que me propiciariam a conquista de meu único prêmio jornalístico, o Abril, vi-me diante do desafio de fazer uma sobre reformas de casa. Teria que dar dicas, mostrar armadilhas, pesquisar alternativas de mão de obra e por aí afora, para ajudar as donas de casa a reformarem suas moradias. Vendo-me em palpos de aranha, a editora-chefe Emeri Loreto, morta em setembro do ano passado (ver J&Cia 815), me chamou para uma conversa e além de me dar várias orientações e dicas pôs nas minhas mãos um exemplar da revista A Construção São Paulo, título semanal da Editora Pini especializado em Construção e Engenharia, tradicional até hoje. Eram umas 15 ou no máximo 20 páginas editoriais e outras 80 com tabelas de preços de tudo quanto é material e mão de obra que se possa imaginar, e os rentáveis classificados. Era ? e penso que continua sendo ? a bíblia dos construtores, engenheiros e arquitetos. Perfil e méritos da revista à parte, o fato é que naquele momento eu estava diante do que até então me pareceu a mais horrorosa publicação da face da terra. Folheei-a e fiquei imaginando como alguém podia trabalhar em algo tão árido, tão chato e tão feio. Disse aos meus botões: ?Está aí o último lugar em que eu iria trabalhar na vida?. Fiz a matéria e ela, modéstia às favas, ficou boa, muito provavelmente pelo copy do Sinval. Algumas semanas após a publicação da matéria, meu amigo de faculdade Antonio Oliveira Mafra, hoje dirigindo a agência de comunicação Textos & Idéias e ? se a memória não me falha ? então trabalhando na Assessoria de Comunicação do Governo de São Paulo, no Palácio dos Bandeirantes, ligou dizendo que sabia de uma vaga numa revista técnica para repórter e se eu não estava interessado nela. Contou que o haviam convidado, mas como ele estava bem não tinha interesse em mudar de trabalho e por isso pensou em mim. ? Que revista é essa, Mafra? ? perguntei. ? A Construção São Paulo, da Editora Pini ? ele respondeu. Não acreditei… Ia logo dizer que não interessava quando, instigado pela curiosidade, perguntei sobre o salário. Eram uns 20% a mais do que eu ganhava. Jovem, precisando acumular experiência, alargar os conhecimentos, enfrentar o mercado, resolvi ir conversar e lá me abalei para a rua Anhaia, no Bom Retiro, para conversar com o diretor de Redação Jarbas de Hollanda e o chefe de Redação Nildo Carlos de Oliveira. Saí convencido de que não seria daquela vez que mudaria de emprego. Afinal, estava trabalhando num lugar especial, numa equipe espetacular e amiga e não valeria a pena fazer a troca por tão pouco. Mas achei que valeria uma barganha com a chefia da Casa Claudia e assim fiz: comuniquei que havia recebido o convite, que ganharia mais, que poderia começar já na próxima semana, mas que, na verdade, eu gostaria de continuar ali mesmo. Queria apenas um reajuste. Portadora de meu pleito, Emeri foi à diretora de Redação Olga Krell, que rapidamente liquidou o assunto: ?Se quiser ficar é com o salário que ganha. Se não quiser, pode ir embora?. Magoeei!!! Ora, se não valia naquela revista 20% a mais de salário, o que continuaria fazendo ali? Pior, jovem, se me acovardasse naquele momento, o que seria de meu futuro? Bati no peito e disse alto e bom tom em meus pensamentos: ?Está decidido, eu vou para o último lugar em que imaginei trabalhar na vida. Adeus, Abril!?. E lá fui, com grande dor no coração, aprender a escrever sobre taludes, cálculos estruturais, gabiões, arquitetura bancária, leito carroçável e coisas do gênero. Fiquei por dois anos e acabei me encontrando com Claudio Fragata Lopes, colega de Jornalismo da Faap, e Sydnei Monteiro que, para minha alegria, 34 anos depois voltou agora ao meu convívio, no Portal dos Jornalistas. Ilustra este texto uma foto daquela turma, com os nomes que ainda consigo me lembrar, com a ajuda do Sydnei.* Legenda da foto, no sentido horário: Eduardo Cesário Ribeiro, Luís Teixeira, James, Silvana Pini, Denise Yamashiro, Fernando, Sydnei Monteiro, ? (encoberto), Alice, Nildo Carlos de Oliveira, Jarbas de Hollanda, Kazumi Kuzano, Marcinha, Nilda Maluf (encoberta), Mariza Passos, Madalena B. Borgonove, Sérgio, José Wolf, Veronika Simic, Claúdio Fragata Lopes e Tonhão.