Memórias da Redação – Repórter com goiabada

Luiz Roberto de Souza Queiroz, o Bebeto, explica o que acontece quando um repórter resolve adotar, durante uma coletiva, o comportamento de outros primatas. Repórter com goiabada Um fotógrafo passando cuidadosamente goiabada em pasta no cabelo de uma “coleguinha” e a reação previsível e furiosa da mesma foi o fim melancólico de uma coletiva que montei para anunciar uma descoberta científica do Zoológico de São Paulo.          A história começou com o problema da falta de libido do mico-leão-preto, muito mais raro do que o seu primo, o dourado, e que só existia em cativeiro no Zoológico paulistano. Cientistas do mundo inteiro acompanhavam a reação dos dois casais de micos que se alimentavam bem, gritavam, se balançavam nos galhos dentro do viveiro, mas transar, não transavam.          Um primatologista gordíssimo e porcalhão, que cuidava dos macaquinhos e vivia sempre comendo, derrubou sem querer um pouco de goiabada em pasta nas costas de uma fêmea do mico e verificou, estupefato, que o macho começou a lamber as costas da fêmea para aproveitar o doce. A miquinha deve ter entendido outra coisa, entusiasmou-se e, em pouco, os dois estavam copulando, para gáudio de cientistas travestidos de voyeurs que acharam o máximo quando meses depois nasceram dois minúsculos mas saudáveis miquinhos.          Assessor de imprensa do Zoo, imediatamente convoquei uma coletiva, levantei dados para mostrar que a espécie poderia sobreviver em cativeiro, já que na natureza só restavam uns poucos casais no Pontal do Paranapanema, onde os sem-terra estavam destruindo a mata, chamei os pesquisadores, o primatologista, o diretor do Zoo e a imprensa compareceu em massa.          A entrevista ia muito bem, mamãe-mico garantia fotos ótimas, com os dois rebentos pendurados nas costas, os repórteres interessados em saber como instituições do mundo inteiro passariam a usar o mesmo método para tentar a procriação de primatas que não cruzavam com facilidade, quando estoura um tabefe na cara de um fotógrafo, foi armada a confusão e a entrevista acabou. A matéria até saiu, meu clipping foi impressionante, mas teria sido melhor não fosse um fotógrafo taradão que, entusiasmado com uma repórter muito bonitinha e de longos cabelos, achou que podia tentar a mesma cantada – ou para fazer graça ou tentando mesmo ganhar a gata – e começou a passar goiabada no cabelo dela. Quem estava perto começou a rir, a repórter percebeu e mandou a mão na cara do retratista. A entrevista acabou.