Memórias da Redação ? O leitor de manchetes

A história desta semana é novamente uma colaboração Renato Lombardi (relombardi@uol.com.br), comentarista para os assuntos de segurança e Justiça da TV Record. O leitor de manchetes Guilherme era seu nome. Mamamá, o apelido. Negro, instrução primária, goleiro do time da redação, sempre sorridente. Função: contínuo. O jornal era o Notícias Populares. A redação ficava na Barão de Limeira, prédio colado ao do Folhão [Folha de S.Paulo]. O jornal tinha sido incorporado ao Grupo Folhas. E lá estávamos nós, no dia a dia, fazendo um jornal que tinha extravagância em suas manchetes mas um conteúdo sério, firme, acreditado, feito por gente competente. Jornal respeitado, que chegou a vender mais de 170 mil exemplares por dia. A editoria de Polícia era comandada por Ramão Gomes Portão, que montara sua equipe com pessoal da Ultima Hora. A de Esportes tinha Celso Eduardo Brandão, também procedente da UH. Outro de lá, Moracy do Val, era o responsável pelo setor de Variedades. Afinal, a redação era composta em sua maioria por colegas – como eu – que haviam deixado a Última Hora depois que a ditadura forçou o jornal a mudar sua linha editorial e obrigou Samuel Wainer – o dono – a fechar sucursais por todo o País e a demitir centenas de jornalistas. O diretor e criador do NP era Jean Melé. Ele viera da Sibéria e fora da editoria de Internacional da Última Hora. Ao perceber que a situação política poderia provocar o fechamento da UH, preparou um projeto de jornal popular – para até tentar substituir a Ultima Hora – e entregou ao dono do então Banco América, que também era político. O NP começou no velho prédio da rua do Gasômetro. Suas manchetes eram tão criativas que na entrada do prédio havia uma vitrine onde eram deixadas a primeira página, as do esporte, de polícia. Dezenas de pessoas paravam para ler. Poucos anos depois o jornal passou a funcionar na Barão de Limeira. E lá estava o Mamamá. Todos os dias, as sugestões de manchete para o dia seguinte eram apresentadas pelos editores e entregues para Melé no começo da tarde. A maioria era do noticiário policial. Havia também uma coleção de fotos de mulheres quase nuas que Melé tirava de revistas e jornais de outros países, sem pagar nada (anos depois foi obrigado a pagar uma grana alta). A escolha da manchete e da foto era discutida entre os editores e repórteres. Mas a palavra final era do Mamamá. – Que tal esta mancheta? –, perguntava Melé. Os editores palpitavam. Duas ficavam sempre para o final. Mas quando todos voltavam para suas mesas Melé chamava Mamamá, que era o contínuo da diretoria. E era ele quem indicava o que seria manchete no dia seguinte. – É a voz do leitor do NP –, dizia Melé para justificar porque escolhia a opinião do seu contínuo. Guilherme não entendia. Um dia me perguntou: “Por que o senhor Melé pede que eu fale da manchete do jornal?”. Expliquei que seu entendimento sobre a manchete – cujo destaque era o crime do dia ou fatos da economia que iriam beneficiar trabalhadores – era o mesmo da maioria dos que gostavam de ler o jornal. Enfim, ele ali representava o leitor. Mamamá ficou orgulhoso. Dias depois, na pequena lanchonete da entrada do segundo andar, onde ficava a redação, ouvi-o falando para os outros contínuos. – Eu é que decido o que sai na manchete. A escolha é minha. Sou muito importante no jornal. E realmente era. A indicação dele fez com que o jornal vendesse muitos exemplares em banca – não tinha assinatura – por alguns bons anos. Claro que, repito, o conteúdo era excelente, pois caso contrário a manchete não teria respaldo. A equipe era tão competente que muitos tomaram caminhos diferentes. A grande maioria foi para o JT, outros para o Estadão. Eu fui para O Globo. E os que ficaram continuaram produzindo um jornal robusto e informativo. Mas com a morte de Melé o NP tomou outros rumos. Mamamá saiu do jornal e voltou para o Rio de Janeiro, onde nascera e estava sua família. Mas essa é uma outra história a ser contada aqui.