Memórias da Redação ? A encomenda

Encerramos o ano com a história de um dos nossos mais assíduos colaboradores, Sandro Villar (sandro.villar@hotmail.com), correspondente do Estadão em Presidente Prudente (SP). Agradecemos a ele e a todos os outros “causistas” que nos têm ajudado a manter vivo este espaço e esperamos seguir contando suas boas histórias em 2014. Até lá!   A encomenda Moraes Sarmento trabalhou no rádio por mais de meio século e, durante todo esse tempo, foi um ferrenho defensor da Música Popular Brasileira, pela qual lutava com unhas e dentes. Pensando bem, essa metáfora não ficou lá essas coisas, pois não passa de um surrado clichê. Elevemos (nossa, que palavra bonita!) um pouco o nível dessa conversa, colocando a prosa num patamar mais alto que escada de bombeiro, onde, aliás, estão os preços atualmente. A arma do Sarmento era o microfone, que ele sabia usar muito bem. Aliás, os radialistas veteranos chamavam o microfone de canequinha. Uma vez alguém me perguntou: “Sabe usar a canequinha?”. Apesar de ter trabalhado em quase todas as rádios AM de São Paulo, confesso, com toda a humildade possível, que sei usar o microfone mais ou menos. Vixe! Esse papo de canequinha me desconcentrou sobremaneira (sobremaneira é bom). Do que é que eu falava mesmo? Admito que estou mais perdido do que a Polícia Militar nos confrontos com os black blocs. Nossa mãe do céu, retomei o fio da meada! O distinto aqui falava do Moraes Sarmento. Natural de Campinas, Rubens Moraes Sarmento – seu nome no RG, no CPF e em outros documentos – trabalhou em grandes rádios paulistanas, entre elas Tupi e Bandeirantes, sem contar que também brilhou na TV Cultura, apresentando o programa Viola, minha viola. Um dos programas de maior sucesso dele foi Almoço à brasileira, na Rádio Bandeirantes. O programa começava ao meio-dia em ponto e vírgula, entre o fim da década de 1960 e o começo dos anos 70 do século passado. Com esse nome, é desnecessário dizer que tipo de música ele apresentava. Os antigos carnavais, que tinham mais marchas do que essas bicicletas modernas, também eram lembrados. Simpaticíssimo, Sarmento dava o seu recado descontraidamente. Ele também soltava os cachorros (não sei de que raça) toda vez que comentava um assunto mais sério ou saía em defesa da nossa música, hoje em dia um arremedo do que foi outrora (tem muito homicida, quer dizer, emicida na música contemporânea). Nos períodos de propaganda eleitoral, Sarmento ironizava a baixa audiência do horário político: “Fiquem agora com o ouvidíssimo horário eleitoral”, dizia ao se despedir dos ouvintes. É comum o apresentador mandar abraço aos ouvintes. Só que ele fazia isso de um jeito inusitado e criativo. Certamente, Sarmento, no estúdio, batia com a mão no peito, barulho que imitava o abraço. Não sei se é correto afirmar que o som era a onomatopeia do abraço. Além do Almoço à brasileira, Moraes Sarmento também apresentava um programa noturno, se não me engano apenas nos fins de semana. Uma vez ele tocou um disco e não gostou nem um pouco do cantor e da música. Parece que era um rock, ritmo que ele não apreciava e até criou a Macacobrás, uma alusão aos imitadores dos cantores americanos. “Isso é uma porcaria de música”, detonou. Não satisfeito, foi mais longe que andarilho e até fez comparação: “Isso é pior que uísque Becosa”. No dia seguinte, ao chegar para trabalhar, o porteiro da Rádio Bandeirantes o abordou: “Seu Moraes, tem encomenda pro senhor”. Era uma caixa enorme de papelão repleta de garrafas com água que colibri não bebe. Sarmento pegou a encomenda e a levou para o estúdio. Antes de iniciar o programa, abriu a caixa. De cara, viu um bilhete vistoso. Como diz a letra do samba Oh, seu Oscar, que os compositores Ataulfo Alves e Wilson Batista fizeram para o Carnaval de 1940 (crônica também é cultura), o bilhete assim dizia: “Muito obrigado, senhor Moraes Sarmento. Agradecemos pela propaganda gratuita que fez do nosso produto”. No melhor estilo falem mal, mas falem de mim, o bilhete era assinado por um diretor da Becosa, que, se não produzia um bom uísque, fabricava um bom steinhaeger, com o qual cansei de torturar o fígado.