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Portal dos Jornalistas

Memórias da Redação

    24.09.12 - Memórias da Redação - Não deu namoro

    A história desta semana é novamente uma colaboração de Sandro Villar (sandro.villar@hotmail.com), correspondente do Estadão em Presidente Prudente (SP).

     

    Não deu namoro

    Atores, cantores, jogadores e locutores sempre fizeram sucesso com as mulheres. Alguns casaram com fãs e outros até mantinham haréns. “Eu tinha umas quatro ou cinco por semana, até dispensava mulher”, confessou um locutor paulistano em conversa com o cronista. Evidente que não pega bem divulgar seu nome, pois os netos poderiam achar que o avô era um tarado. Tal divulgação também poderia resultar em divórcio. O cronista não é detetive particular, esse destruidor de lares, como deve dizer alguma letra de bolero. Com suas vozes calientes, há locutores que enlouquecem as mulheres. Vai daí que elas não se cansam de telefonar para as rádios a fim de marcar encontros amorosos com seus ídolos, dos quais, na maioria das vezes, só conhecem a voz e têm a curiosidade de conhecê-los pessoalmente.

    Na sua polêmica entrevista à revista Playboy, o Tutinha, diretor da Jovem Pan FM, disse que tem sujeito que quer trabalhar no rádio para, digamos, comer mulher, expressão chula pela qual peço desculpas ao respeitável público. Desculpas, aliás, extensivas ao sexo frágil, que de frágil não tem nada. Mas, entre o grupo citado na primeira linha, lembro que nos dias que correm – não sabemos bem para onde (estamos indo rumo ao desconhecido?) – os jogadores de futebol talvez sejam os preferidos da mulherada na relação amorosa ídolo-fã.

    Todo mundo sabe que eles são assediados por mulheres chamadas de Marias Chuteiras. Não faz muito tempo, o Flamengo, num ato de vingança contra Ronaldinho Gaúcho, mostrou uma mulher saindo do quarto do jogador em um hotel. E daí? Esquisito seria se do quarto tivesse saído um homem. E mesmo que fosse homem não seria, presumo, de espantar ninguém nestes tempos espantosos. As Marias Chuteiras não entram em campo. Elas preferem jogar com duas bolas fora do campo e também, neste caso, acho que estou sendo meio chulo e tome de desculpa mais uma vez. Ufa! Confesso que nem sei mais como prosseguir com esta prosa.

    Prossigo falando do grande locutor-noticiarista Antônio Pimentel, um dos melhores de todos os tempos, lembrando o envolvimento dele com uma fã de voz de veludo, sensual à beça, parecendo a Dita Von Teese. Antes de seguir, lembro que Hélio Ribeiro teria se inspirado em Pimentel e transcrevo o que dois notáveis radialistas e jornalistas falaram do Pimentel. “Ele tinha uma voz que enchia o rádio”, afirmou Paulo Edson, que trabalhou com ele na Rádio Tupi e com quem narrou, em 1969, a chegada do homem à Lua. “Ele era um locutor de cinema, extraordinário”, resumiu Salomão Esper, da Rádio Bandeirantes, referindo-se aos trailers de filmes e jornais falados do cinema narrados por locutores, como Ramos Calhelha e Gaspar Coelho.

    Escalado pelo jornalista Alexandre Kadunc, de saudosa memória, Pimentel, também de saudosa memória, apresentava os jornais falados da Rádio Bandeirantes, salvo engano ainda na sede da rua Paula Souza, centro de São Paulo. Época: entre o fim dos anos 1950 e começo da década de 1960 – e, por falar nisso, Pimentel noticiou, em 1961 (outro ano perigoso), a renúncia de um certo ex-presidente que também foi, por dois mandatos, o prefeito londrino de São Paulo. Com aquele vozeirão bonito que Deus lhe deu, Antônio Pimentel, sempre humilde, fazia o maior sucesso. Todo santo dia uma ouvinte telefonava para ele na redação da rádio.

    Com voz melíflua, como diz o Salomão Esper, a mulher se abria mais que paraquedas em Vacatuva – quer dizer, Boituva – e, assanhada, já na primeira conversa propôs um encontro com o locutor. As ligações continuaram por pelo menos um mês. Haja conversa erótica! Pimentel deu trela à fã misteriosa e como não era de ferro, ao contrário do nosso companheiro Clark Kent, concordou em se encontrar com ela, que certamente imaginou ser um avião. Marcaram a data, combinaram de se encontrar na praça da República. Dizem que ele vestiu a melhor roupa, calçou o sapato mais bonito, enfim, se produziu para o encontro marcado e, se a expressão lembra Fernando Sabino, a intenção é essa mesmo.

    O locutor chegou à praça e esperou. Depois de algum tempo, apareceu um colega da rádio, redator dos noticiários. Surpreso, Pimentel perguntou: “O que você está fazendo aqui?” Mudando a voz, o rapaz falou: “Não reconhece a minha voz?”  Era ele que fingia ser a fã misteriosa, que da própria redação, escondido e imitando voz feminina, ligava pro Pimentel. Mais irritado que a Fifa com o Brasil por causa do atraso nas obras da Copa do Mundo, o locutor avançou sobre o jornalista, que saiu em disparada pela praça. “Era só uma brincadeira”, justificou o colega de trabalho. Eles ficaram um tempão sem conversar. Tudo por causa de um trote que Pimentel não perdoou, pois não deu namoro e nem uma rapidinha depois de gastar mais saliva do que candidato em campanha.

    Por: Sandro Villar