Memórias da Redação – Como explicar o inexplicável II?

Carlinhos Oliveira (coliveira@dcomercio.com.br), hoje no Diário do Comércio de São Paulo, um dos protagonistas (ainda que involuntário) da história que Nora Gonzalez contou em J&Cia 816 sobre os bastidores de um episódio que marcou para sempre a biografia do falecido presidente Itamar Franco, manda uma suíte do caso com algumas alterações.Como explicar o inexplicável ? II Fui apanhado de surpresa (grata surpresa) pela história contada, e bem contada, pela minha querida amiga e colega Nora Gonzales, sobre aquela manhã de Carnaval, em 1994, registrada no Jornalistas&Cia desta semana. De fato, a situação é verídica, mas meu compromisso com a verdade me impõe fazer alguns pequenos, mas importantes reparos. Naquele dia, cheguei cedo à redação e, minutos depois, o Fábio Almeida Salles, editor de Fotografia, para ao lado de minha mesa, põe um maço de fotos sobre ela e sentencia: ? Carlinhos, você tem uma bomba nas mãos! E tinha mesmo. Vamos aos fatos. Pego as fotos e vejo uma mulher relativamente jovem abraçada ao então presidente Itamar Franco, bem desinibida, sem calcinha, de vento em popa e, principalmente, em proa. A Nora acertou tudinho até o momento em que eu liguei para o dr. Julio Mesquita e descrevi a cena a ele. Eu era responsável pela Primeira Página do Estadão, o que não é pouca coisa, e, naquele momento, tinha de me cercar de alguma forma. Sem intimidade com o dr. Julio, tentei ser didático, como bem exige nossa profissão. E disse: ? Dr. Julio, a moça está sem calcinha, as fotos foram feitas de baixo para cima e está aparecendo tudo. Do outro lado da linha um breve silêncio e a pergunta que eu temia. ? Carlos, aparecendo tudo o quê? ? Tudo, dr. Julio. ? Mas tudo o quê? ? Tudo, a moça está exposta. Nisso, ao longe, entra na redação o Oliveiros S. Ferreira, na época responsável pelos editoriais do Estadão, colega fino, culto e elegante. Acenei para que ele se aproximasse e enquanto falava com o dr. Julio mostrei-lhe as fotos. Oliveiros começou a falar comigo e eu não sabia a quem dar atenção, já que dr. Julio ainda estava na linha. Oliveiros: ? Não podemos publicar isso. É o presidente da República. Dr. Julio: ? Carlos, o que você acha? Eu: ? Tenho dúvidas, por isso liguei. Dr. Julio: ? O que o Oliveiros acha? Passei o telefone ao Oliveiros e aí então veio a célebre frase, equivocadamente atribuída a mim. Oliveiros: ? Julio, Julio, estão aparecendo os grandes lábios!!! Decidiu-se, então, que o Estadão não publicaria a moça sem calcinha na primeira página. No dia seguinte, vários jornais escancararam as imagens, sem qualquer pudor. À tarde, toca o telefone na minha mesa. Era o dr. Julio. ? Carlos, deveríamos ter publicado a fotografia. Essa foi a história tal qual aconteceu. Certamente, a Nora, que trabalhava na Economia, um pouco distante da Primeira Página, ouviu a conversa de maneira entrecortada, daí o equívoco. Mas tudo bem. Ainda hoje rio muito disso tudo.