Memórias da Redação – Vlado

Sandro Villar (sandro.villar@hotmail.com), correspondente do Estadão em Presidente Prudente (SP), manda um texto em homenagem a Vladimir Herzog, cuja morte nos porões da ditadura completou 37 anos na última 5ª.feira (25/10). Na sequência, reproduzimos trecho do livro As duas guerras de Vlado Herzog, de Audálio Dantas, que trata do mesmo tema. Vlado Na noite de 24 de outubro de 1975, uma sexta-feira, eu cumpria normalmente minha jornada de trabalho na TV Cultura, onde integrava a equipe de Jornalismo chefiada por Vladimir Herzog. A mesa dele ficava perto da minha na redação. Era a segunda vez que Vlado trabalhava na Cultura, desta vez na condição de diretor do Departamento de Jornalismo (na primeira foi editor quando o departamento era comandado por Fernando Pacheco Jordão). Foi por volta das 21h da citada data que dois sujeitos apareceram na emissora para prender Vlado. Eles eram mal-encarados, troncudos e usavam capas numa noite quente, o que já é suspeito. A primeira atitude deles foi agarrar Oswaldo Salerno, então coordenador do telejornal Hora da Notícia e, segundo ele, primo de Vlado. O coordenador foi confundido com Vlado, que ainda estava no estúdio acompanhando a transmissão do telejornal. Depois de colocar o telejornal no ar, Vlado voltou para a redação e foi informado do que se passava: os dois estranhos tinham vindo prendê-lo e o levariam para o DOI-Codi. Àquela altura, as agências de notícias já divulgavam a prisão do jornalista. Depois de muita negociação, ficou decidido que Vlado se apresentaria às 8h do dia seguinte, 25, um sábado. Armando Figueiredo e João Batista Lemos, do Jornal do Brasil, tiveram papel importante nas negociações. Antes disso, porém, eu e os demais colegas procurávamos ganhar tempo alegando que Vladimir Herzog ainda tinha outras tarefas para cumprir na redação naquela noite. Eu entreguei a Vlado material das agências e, depois, telefonei para a Agência Estado informando que a prisão, naquela noite, estava cancelada. Lembro-me de ter dito mais ou menos o seguinte: “O nosso diretor de Jornalismo não foi preso”. Por que Vlado não fugiu? Porque não devia nada. Ele achava que, depois de dar as explicações que a ditadura queria, seria liberado no sábado mesmo e voltaria para casa. Afinal de contas, não era ativista político, não militava em nenhuma organização de esquerda, conforme foi anunciado naquela época (pelo menos foi o que se comentou). Era um homem de esquerda, mas e daí? Quem pensa quase sempre sabe de que lado sopra o vento social e, assim, aplaude o pensamento liberal ou esquerdista. No sábado de manhã lá foi Vlado ao encontro da morte no DOI-Codi, que antes era Codi-DOI e teve o nome mudado para atemorizar ainda mais os opositores do regime. “Antes o preso precisa saber que DÓI”, disse o general Fiuza de Castro, fazendo uma brincadeira de mau gosto que a maioria dos oficiais do Exército condenou. Mal entrou e o jornalista começou a apanhar. Bateram muito nele. Foi obrigado a assinar um papel em que dizia ser militante do Partido Comunista, o velho Partidão. No fim da tarde daquele sábado, Vlado estava morto. Aí começamos a saber de coisas horríveis que fizeram com ele. Além das torturas, uma pedra de sal teria ajudado a matá-lo. É que os torturadores colocaram a pedra na boca do jornalista, que acabou engasgando. Além da pedra de sal, uma mangueira também foi colocada em sua boca para abafar seus gritos, segundo algumas informações. Depois surgiu a farsa do suicídio por enforcamento, desmentida à exaustão. Sobre o “suicídio” de presos políticos, Elio Gaspari disse no livro A ditadura encurralada que, dos 38 “suicídios” ocorridos nos porões da ditadura, 18 foram por “enforcamento”, incluindo a de Vladimir Herzog. A campanha de difamação contra a TV Cultura era impiedosa naquela época. Um dos alcaguetes era o “jornalista” Cláudio Marques. Toda semana esse dedo-duro alertava sobre o “perigo” comunista no Jornalismo da emissora. Antes de Vlado assumir o departamento, a equipe que deixava a TV Cultura, chefiada por Walter Sampaio, pôs no ar uma matéria com loas ao vietcong e, maquiavelicamente, deu os créditos à nova equipe. Tudo feito de caso pensado. Bando de traíras. Vlado foi traído, não teve nada a ver com a matéria, pois, como disse acima, ele ainda não tinha assumido o cargo. Vlado jamais provocaria a ditadura de forma irresponsável e perigosa, ainda mais em uma emissora pública. A veiculação dessa matéria foi a gota d´água. Era o pretexto de que a ditadura precisava.  Marques deitou e rolou em sua coluna no jornal Shopping News, mas é preciso dizer com todas as letras garrafais que ele não agiu sozinho. Outros Iscariotes e Silvérios dos Reis da imprensa, incluindo os de um jornal que não existe mais, também detonavam a TV Cultura, onde, segundo esses delatores, trabalhavam 40 comunistas. Vai ver nem o Exército Vermelho tinha tanto comunista quando foi criado pelo camarada Trotsky. Esses “jornalistas” traíras também são, indiretamente, culpados pelo assassinato de Vladimir Herzog. A cada prisão de jornalista, Cláudio Marques Iscariotes Silvério dos Reis ironizava, afirmando que o preso era mais um hóspede do Tutoia Hilton, uma alusão ao prédio do DOI-Codi na rua Tutoia. O Hotel Hilton deveria processar esse sujeitinho, e o nome