Memórias da Redação – Mercadante, o William Holden da imprensa

Sandro Villar (sandro.villar@hotmail.com), correspondente do Estadão em Presidente Prudente, envia esta homenagem a Luiz Fernando Mercadante, falecido em 31/7. Mercadante, o William Holden da imprensa Depois de saber da morte do jornalista Luiz Fernando Mercadante, na apresentação de praxe feita por Eduardo Ribeiro e na nota interna deste Jornalistas&Cia, reagi falando baixinho:?Meu Deus!?. Não convivi diretamente com ele nem fiz parte de seu círculo de amizades. Apenas duas vezes conversei com Mercadante. Lembro-me que a primeira foi há mais de 20 anos, na TV Cultura, onde trabalhávamos. A segunda e última vez faz uns 15 anos. Foi na portaria do Estadão, onde eu tinha ido visitar amigos e, para ser sincero, tive vontade de pedir autógrafo a alguns deles. Nesse derradeiro encontro, eu estava acompanhado pela minha filha, Cíntia Carol, que dava os primeiros passos na carreira de atriz e modelo. Mercadante achou-a linda (já fui bom de fôrma). Ele quis arrumar emprego para ela na TAM, onde seria aeromoça ou comissária de bordo, como se diz hoje em dia e até hoje em noite. Pelo que deu a entender, Mercadante estava por cima da carne seca e até da carne molhada na TAM. Ele era o braço direito ? ou os dois braços ? do lendário comandante Rolim, a quem chamava de comandante Rolinha. Não posso, no entanto, assegurar que a brincadeira acontecia também na intimidade. Mas posso assegurar que Rolim ao contrário é Milor, como o próprio Millôr brincava. E quem manja um bocado desse negócio de falar de trás pra frente são os moradores de Sabino (SP). Eles falam sabinês, um dialeto que começou não se sabe como e virou tradição na cidade. Mas do que é que eu falava mesmo? Confesso que estou mais perdido do que os réus do Mensalão com o julgamento no Supremo. Já me lembrei. O ínclito cidadão aqui falava do caro e prezado Luiz Fernando Mercadante, que foi embora deste insensato mundo e vai fazer uma falta danada aos parentes, amigos e ao Jornalismo. No caso da citada companhia de aviação, Mercadante deixou claro que bastava procurar algum diretor que a minha filha seria contratada. E que falasse em nome dele para conseguir o emprego. Ela preferiu seguir a carreira de atriz e modelo. De qualquer forma, louvo publicamente o gesto dele, procurando ajudar pessoas fora de seu círculo de amigos. No meu caso, falei com ele sobre as minhas crônicas, que queria publicá-las e coisa e tal. ?Preciso tirar esse material da gaveta?, disse a ele. ?Procure o [Fernando] Mitre no Jornal da Tarde, fala em meu nome?, sugeriu. Outro gesto bacana dele. Procurei o Fernando Mitre, mas, àquela altura do campeonato da vida, ele estava deixando o JT para se dedicar integralmente ao Jornalismo da Band. Mitre quis saber como estava Mercadante. Respondi que aparentemente estava bem. Alto e com cara de galã de cinema, Mercadante lembrava fisicamente o ator americano William Holden e, para valorizar o produto nacional, diria que o ator era quase um sósia do jornalista que brilhou na profissão, principalmente nas revistas Realidade e Veja. Um dos melhores trabalhos de Mercadante foi a entrevista que ele fez com Nelson Rodrigues. Veja o enviou ao Rio de Janeiro para entrevistar o cronista e teatrólogo. Mercadante levou um gravador e, presumo, uma máquina de escrever portátil. Afinal, o entrevistado não era um qualquer e, salvo engano, entrevistador e entrevistado se encontraram em um bar. O jornalista ligou o gravador e Nelson começou o depoimento. Eles conversaram um tempão. Entrevista encerrada, Mercadante desligou o gravador. Nelson lhe fez um pedido. Ele queria ler o texto antes da publicação, explicando que não se tratava de censura ou controle. Era apenas para conferir se não tinha falado alguma besteira ou coisa parecida. O jornalista concordou e foi para o hotel. Ligou o gravador e cadê a gravação? Não tinha gravado coisa alguma, a máquina falhou. Mercadante telefonou para o editor e explicou o que tinha acontecido. O editor o tranquilizou: ?Você está com a entrevista na cabeça, lembra do que o Nelson falou e anota tudo no papel?. Foi o que ele fez. Antes de voltar para São Paulo, Mercadante, certamente preocupado, mostrou o texto a Nelson. Ele adorou: ?Essas maquininhas são maravilhosas, elas gravam tudo?, disse, concordando que tudo estava como ele havia falado na entrevista.