Memórias da Redação – Memórias da repressão

A história desta semana foge às características usuais deste espaço, mas por motivos mais do que justos. Sobre ela escreve Eduardo Ribeiro, diretor deste J&Cia: ?Levei 41 anos para saber de uma triste história que envolveu uma colega de turma, Maria Valéria Cesário Moura de Carvalho, lá pelos idos de 1971, quando estávamos no colegial noturno do Colégio Estadual Alexandre Von Humboldt, em Vila Anastácio, São Paulo. Lendo o depoimento dela, a seguir, penso que todos entenderão. É autoexplicativo. Eu jamais poderia imaginar que a repressão política nos tivesse cercado. Ledo engano. Valéria e um nosso professor, Mansur, de Química, foram barbaramente torturados (ele fisicamente, ela psicologicamente) nas dependências do Doi-Codi, sob a suspeita de que fossem ou tivessem ligações com militantes de organizações de esquerda. E nós nunca soubemos disso. Era tudo tão velado e tinha-se tanto medo de tudo que o caso foi abafado e nunca dele soubemos. Bom recolocar a história em seu lugar. Estou emocionado, aliviado, triste, porém, mais do que tudo, sereno por ver que a vida seguiu seu curso, apesar dos atropelos, e estamos todos aqui, vivos, para contar ou ler essa história. Vamos a ela. Desculpem pelo tamanho, mas penso que também vocês vão se emocionar. Desse modo, com uma história pessoal, abro uma pequena exceção no Memórias da redação, para um relato de memórias da repressão.? Maria Valéria Cesário Moura de Carvalho é formada em Letras, pela PUC Campinas, onde deu aula em cursos extensivos, tendo trabalhado por mais de 20 anos na Caixa Econômica Federal. Literatura e Jornalismo são suas paixões. Escritora, vem de concluir um livro de contos (inédito) e já iniciou notas para um romance. Seu próximo projeto é escrever um livro sobre viagens pelo Brasil, a partir de histórias pessoais. Sobre o triste e inesperado encontro com a ditadura, em 1971, diz: ?Foi superado. E não apenas superado, mas entrou como parte do material com o qual construí uma vida produtiva e feliz?. Casada com Vivaldo de Carvalho (com quem estudou no Colégio Estadual Alexandre Von Humboldt), tem um casal de filhos e mora atualmente em Jundiaí. Mas ama São Paulo, de paixão. Memórias da repressão Olá, Eduardo: Sua sugestão de falar de nossa trajetória pessoal me inspirou a escrever o relato a seguir. É um acontecimento que teve início nas dependências do Alexandre Von Humboldt e que acho que vale a pena levar ao conhecimento de quem viveu aquela época, principalmente para quem estudou no nosso colégio. As coisas precisam ser lembradas para a gente compreender o presente. O homem do paletó veio me buscar Aconteceu no meio do ano de 1971. Eu estava na nossa classe do Colegial noturno e em certo momento fui chamada à diretoria. A diretora, nesta época, era a dona Mirtes, talvez substituindo a dona Ida. Como eu não tinha aprontado nada, fui tranquila atender ao chamado. Quando ela falou comigo não disse coisa com coisa e estava visivelmente sem jeito. O que eu entendi é que teria que acompanhar um homem que tinha vindo me buscar. Um homem que eu nunca vira antes, mais ou menos da idade do meu pai. Ensaiei dizer que não iria sair com um desconhecido, mas o homem abriu um pouco o paletó que estava usando, o suficiente para eu ver o cabo do revólver. Entendi que eu tinha que ir. Não me recusei, não objetei, simples assim. Interesses suspeitos Meu nível de consciência sobre o arbítrio e as atrocidades da ditadura não era alto. Mas minhas áreas de interesse ? arte em geral, teatro, literatura ? me punham em contato com pessoas que, de um modo ou outro, militavam contra o regime ou conheciam alguém que o fazia. Assim, eu participava das atividades da comunidade católica de jovens, frequentava algumas reuniões sindicais em Osasco, onde então trabalhava na Brown Boveri, participava de grupo de teatro, cantava em bailes do bairro, enfim, era uma jovem com a cara do meu tempo. Amizades suspeitas Meu círculo de amizades era amplo: desde operários, religiosos, músicos e estudantes a algumas pessoas mais velhas, como o Mansur e sua noiva, por exemplo. A amizade começou por iniciativa dele, que sempre conversava comigo, fazia perguntas, queria saber minha opinião sobre o mundo. Chegamos a sair, ele e a noiva, para conversar algumas vezes e falávamos sobre a situação do País e sobre o que se podia fazer para combater a ditadura, melhorar a educação, que nessa época estava sofrendo o desmonte que hoje pode ser constatado e por aí afora. Provavelmente, se tivesse tido chance, teria entrado para algum grupo organizado, desde que não fosse luta armada. De qualquer modo, isso foi abortado naquela noite… …um medo frio, quase uma calma… Mas o horror frio estava apenas começando. Digo ?horror frio? porque era isso que eu sentia: um medo frio, quase uma calma. Quando saí do colégio com o homem, fui colocada no banco traseiro de uma Veraneio, com dois outros homens armados me ladeando, como se eu fosse uma pessoa altamente perigosa. Acho que aí comecei a entender quem eles eram pelo meu próprio raciocínio. Era uma época em que era possível pessoas serem levadas para nunca mais… Eles rodaram um pouco pela Vila Anastácio e pararam na antiga Socil (eu acho) e falaram com alguém de lá. Mais sequestros Dali, seguimos até a rua Albuquerque Lins, no Centro. Entraram no apartamento do professor Mansur Lufti (*), que dava aula de Química no Alexandre, e viraram tudo do avesso. Ele e a noiva foram também levados em outro carro. Nos encontramos todos na sala de espera do QG do 2º Exército, no Ibirapuera, mas mal nos falamos, pois logo fomos chamados individualmente. Levados ao Doi-codi, na tristemente famosa rua Tutoia, cada um tomou o rumo determinado pelos captores. No meu caso, fui levada para uma sala onde ficava em pé, sendo interrogada grosseiramente por vários sujeitos. Entrava um, perguntava, acusava, aterrorizava com ameaças, perguntava de novo, anotava tudo, ou fazia que anotava, saía. Entrava outro, a mesma coisa, mesmas perguntas e eu sempre em pé. Isso durou a noite inteira, até de manhã. Quilos de papel foram gastos nessa inutilidade. Minha estratégia, desde o início, foi repetir sempre a mesma história, sem acrescentar nada de novo, não mudava nem o tom da voz. Demorou pra eu perceber De vez em quando eu ouvia gritos horríveis. Urros não humanos, na verdade. Demorou pra eu perceber que eram do Mansur. Ele gritava palavrões cabeludos e urrava. Não fui torturada fisicamente. Acho que até aqueles estúpidos incompetentes conseguiram perceber que eu não era uma ?terrorista? e nem pertencia à AP, AC, JEC, JOC, JUC, Var-Palmares, Libelu, o diabo. Mas sabiam muita coisa sobre mim. Sabiam sobre as pessoas com quem eu andava, os lugares que frequentava, onde trabalhava, tudo. Disseram que foi um estudante da minha própria classe que me dedurou. Aliás, entre eles, havia um rapaz que era estudante de Sociologia na USP, um infiltrado. Dava pra acreditar em tudo e em nada. Me levaram pra casa de manhã. Uns imbecis. Uns imbecis com carta branca, arma na mão e merda na cabeça. No dia seguinte foram me buscar no trabalho e tome interrogatório tudo de novo, só que a coisa foi mais amena. Mas tarde fui encaminhada para o refeitório dos recrutas para almoçar. Eles eram tão jovens quanto eu e me olhavam como se eu fosse de outro planeta. Ninguém falou comigo. Comi sem culpa e com uma fome enorme o arroz com feijão e bife à milanesa. Não me lembro como fui embora. Só sei que fiquei um bocado de tempo assustada, traumatizada, paranoica, sempre com a impressão de que alguém estava me seguindo. Pouco tempo depois fui mandada embora do trabalho, certamente por causa desse item do currículo. Rito de passagem Até hoje vejo a expressão da dona Mirtes, me entregando para um homem armado. Sei que ela não podia fazer muita coisa por mim. O clima geral era de terror. Um terror subterrâneo, disfarçado em Brasil grande. Mesmo assim, reflito o quanto é fácil colaborar com o arbítrio. Hoje você entrega um aluno que está sob a sua guarda, amanhã o seu vizinho, depois, quem sabe… Só sei que saiu do colégio aquela noite uma garota cheia de ideias, utopias, sonhos. Voltou adulta. Fico triste quando pessoas dizem que o regime militar foi benéfico. Ou que qualquer ditadura seja benéfica. As pessoas não entendem que pra se ter direito até de fazer um relato como esse e publicá-lo exclusivamente por um ato de vontade individual muitos (daquela e de épocas anteriores) tiveram que lutar duramente para abrir algum espaço de liberdade. Liberdade que muita gente usa como se fosse concedida pela natureza e não uma construção humana paciente, trabalhosa, frustrante às vezes, mas conquistada a cada palmo. (*) Recentemente localizei o Mansur no facebook. Ele aparece em foto com a noiva, que hoje é esposa dele. Isso me deixou feliz.