Memórias da Redação ? O laboratório do Leporace

O laboratório do Leporace Esse título, escrito assim desse jeito, pode levar o respeitável público a imaginar que Vicente Leporace era dono de um laboratório farmacêutico ou de um laboratório de análises clínicas. Pensar em qualquer outro tipo de laboratório seria, digamos, uma insinuação malévola (malévola é bonito, hein?), não tem nada a ver com Leporace, que era um jornalista correto e um cidadão exemplar. Se necessário, ele até poderia lavar a honra com sangue, mas, civilizado, desistiria da ideia até porque lavar a honra com sangue prejudica o hemocentro da Santa Casa. Mas do que é que eu falava mesmo? Confesso que estou mais perdido do que o Romney depois da derrota para o camarada Obama. Acho que vou pedir ajuda aos universitários, ou ao meu amigo valente Ricardo Kotscho, que manja um bocado da arte de escrever. Já me lembrei: a conversa era sobre o laboratório do Vicente Leporace e, após encher linguiça e outros embutidos, não tenho mais como enrolar vocês e, assim, vou explicar que diabo de laboratório era esse. Além do antológico O Trabuco, Leporace também apresentava na Rádio Bandeirantes o programa Laboratório Musical, no fim da década de 60 do século passado (agora é assim: sempre que mencionamos o século 20 convém acrescentar a expressão século passado). Ele apresentava discos recém-lançados, enfim, as novidades musicais e, após a execução (do disco, não do cantor), fazia os comentários de praxe. E lá vinha bomba! Se o disco era bom, como um do cantor Wilson Simonal, Leporace não economizava nos elogios e colocava o cantor nas alturas. Quando ele achava o disco medíocre, a crítica era ácida, mas com dose de humor e fina ironia. Foi o que aconteceu com o cantor Ronnie Cord, que gravara Rua Augusta, um clássico da Jovem Guarda. Leporace detonou a música. O compositor era Hervé Cordovil, pai do cantor e que também fez a versão de outro sucesso do filho, o clássico Biquíni de Bolinha Amarelinha. O original é Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka Dot Bikini, sucesso de Brian Hyland, cantor cujo topete era maior do que o de Elvis Presley. Comentário do jornalista: ?O Hervé Cordovil, agora, virou twistista?. Em pleno ar, de improviso, ele criou um neologismo interessante, uma alusão aos cantores e compositores de twist, o ritmo consagrado por Chubby Checker (crônica também é cultura). Leporace achava o fim da picada um compositor do quilate de Hervé Cordovil render-se ao iê-iê-iê, logo ele que compusera Vida do Viajante, em parceria com Luiz Gonzaga, e Sabiá lá na Gaiola, que fez com Mário Vieira. Em outra ocasião, a vítima foi ninguém menos que Roberto Carlos, que, à época, não encontrava muito espaço nas rádios paulistanas. A exceção era a Rádio Piratininga, onde o produtor e discotecário Carlos Vidal deu uma força ao Zunga, apelido de Roberto, outro que nunca arriscou o pescoço por nada (quando lhe perguntavam sobre política, RC tirava o dele da reta dizendo que era Vasco). Não é exagero afirmar que Vidal ajudou a projetar o cantor em São Paulo. As outras rádios torciam o nariz para ele. Ou tapavam os ouvidos. O futuro rei (olha a República em perigo, te cuida, camarada Dilma!) tinha acabado de gravar Parei na Contramão. Leporace ouviu o rockinho ? ou iê-iê-iê, sei lá ? e não perdoou:?Parou na contramão? Então, merece ser multado, chamem o guarda de trânsito?. Vicente Leporace também foi apresentador de um programa dominical na Televisão Bandeirantes, hoje Band. Ele reclamava de perseguição do Ibope, achava que o instituto de pesquisas não lhe fazia justiça sobre a audiência do programa. Na avaliação do apresentador, o programa tinha boa audiência em São Paulo. No livro Na Terra do Crioulo Doido ou Febeapá 3 (Festival de Besteira que Assola o País), Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto) reservou um capítulo para falar das bobagens televisivas. Tem cada coisa do arco da moça. Mesmo não sendo analgésico, o humorista tomou as dores do apresentador. Reproduzo a seguir o trecho em que Stanislaw conta a encrenca de Leporace com o Ibope: ?No domingo seguinte, mostrou (Leporace) um cheque de um milhão de cruzeiros, logo que o programa começou e explicou que, segundo o Ibope, seu programa era visto por mais ou menos umas 20 mil pessoas. ?Muito bem? ? prosseguiu ? ?se algum telespectador receber em sua casa ou conhecer algum ?pesquisador? do Ibope, mande-o aqui com o seu respectivo cartão de identificação que este cheque de um milhão será dele. São 4 horas da tarde. Eu espero até as 7?. Até hoje não apareceu nenhum?.