Memórias da Redação ? A manhã em que desapareci do mapa

A história desta semana é uma crônica que Ignácio de Loyola Brandão (loyolabrandao@gmail.com) publicou em O Estado de S. Paulo em 19/4 e cuja reprodução autorizou. Em abril, aliás, saiu o mais recente livro dele, Solidão no fundo da agulha (Tratore), quase memórias: são 32 crônicas que remetem a lugares e canções que marcaram de forma especial a trajetória dele, acompanhadas de um CD em que Rita Gullo canta as músicas citadas. A manhã em que desapareci do mapa Sumi por quase duas horas na quinta-feira, dia 11, semana passada, para “desespero” de um pequeno grupo de pessoas, amigos e familiares, que se viu sem ação, ansioso, em pânico. Desapareci do mapa. Reflexos desta cidade, deste País? Sinal dos tempos que vivemos, de incertezas, sustos e constante tensão por dá cá aquela palha? Temos de saber o tempo inteiro onde todos estão. Naquela manhã, eu tinha uma entrevista na Rádio Bandeirantes com José Paulo de Andrade e Salomão Ésper. Seria um bate-papo solto, sobre carreira, livros, vida, manias. E outra na BandNews sobre meu novo livro, Solidão no fundo da agulha. Debora, assessora de imprensa, que tinha programado tudo, me avisou que o carro me apanharia às 10h15. O carro veio, entrei. E sumi. Minutos depois, outro carro chegou, tinha ordens para me levar à Bandeirantes. “Como? Ele acaba de sair, foi para a emissora!”, informou o porteiro. E a epopeia começou. Debora, alertada pelo motorista, ligou para minha casa. Alzeni, que trabalha conosco há 18 anos, disse que eu tinha acabado de descer, uma condução viera me buscar. A assessora ficou intrigada: “Mas o carro está aí na porta! Que carro ele pegou? Para onde foi?”. Ela não sabia, nem o porteiro do prédio. “Qual o celular dele?”. Não tem. Alzeni assustou-se. Será que sequestraram? Ficou alarmada, ouve rádio o dia todo, é seu companheiro, e a maioria das notícias das emissoras que ela ouve são policiais. Telefonemas circularam entre a BandNews, a Fundação Carlos Chagas, que lançou meu livro Solidão no fundo da agulha, e a minha casa. Onde estava o escritor? O horário do programa da Band se aproximava. Alzeni não sabia se devia ligar para minha cunhada, para ter orientação, uma vez que minha mulher e minha filha estão em viagem. Devia avisar a polícia? Ligar para os parentes em Araraquara? Quem tem os telefones dos filhos? Procurar o registro de um acidente, assalto, o que fosse no trajeto João Moura-Morumbi? Todos em alerta. E eu não aparecia. A empregada (secretária do lar), inquieta, nervosa, parou o almoço, ficou atenta ao rádio para ver se havia notícias de sequestro, desaparecimento, morte. Mas quem sequestraria um escritor? Para quê? Aturdimento. Sem saber de nada, eu desembarquei nos estúdios do Morumbi. Salomão Ésper me aguardava no pátio, encontramos José Paulo de Andrade, fui conduzido por labirintos que atravessam em várias direções, observando redações com centenas de jovens diante de computadores. Apareceu José Paulo, passamos por um estúdio envidraçado, havia uma morena diante de uma câmera, saudada por todos que passavam. Deve ser uma das musas aqui, pensei. Era Maria Fernanda, âncora da BandNews. Conversamos na rádio durante hora e pouco. Quando tem jornalista que sabe perguntar, nunca deixa a peteca cair, está informado do que o entrevistado faz, a coisa corre. Adorei o bate-papo descontraído. Terminado, fomos tomar café à sombra de grandes árvores. Pão de queijo quentinho e uma broinha de milho que parecia chegada de Minas. Súbito, surge uma jovem afobada que ao me ver deu um longo suspiro: “Que alívio! O senhor está aqui! Está todo mundo te procurando. Todo mundo. Sumiu. Estávamos bem preocupados”. Olhem a vida! Essa jovem, que vi criança, é nada menos que a filha de Caio Graco, meu primeiro editor, o homem que me descobriu e me lançou pela Brasiliense. “Me procurando? Por quê?”. E ela: “Para a entrevista com a BandNews, esqueceu?” De repente, ficou claro. Os e-mails para a entrevista na BandNews eram assinados pela Debora, assessora de imprensa da Fundação Carlos Chagas, que lançou o Solidão no fundo da agulha. Os e-mails para a entrevista com Ésper e Andrade eram assinados por outra Debora, assessora da Bandeirantes. Eram duas Deboras em funções idênticas. Ambas tinham enviado, sem que uma tivesse ideia da outra, dois carros para o mesmo horário. Um chegou minutos depois, foi a conta. Deu o quiproquó. Uso essa palavra pela primeira vez na vida, vejam só. Não prestei atenção ou estou na curva descendente? Entre 10h30 e meio-dia, quando fui “encontrado” tomando café, houve estupefação (gosto dessa palavra), interrogação, susto, ninguém tendo ideia do que fazer, pensar, imaginar. Em que clima vivemos! E eu dentro do estúdio, conversando. Felizes todos, fui para a BandNews e dei a entrevista para a linda Maria Fernanda. Aprendi a lição, rendo-me ao óbvio: no mundo de hoje é preciso levar um celular. Ele é guia, bússola, norteia, pacifica, acalma, ampara, conduz, ilumina. Anjo protetor. Lembram-se da oração da infância? “Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador. Já que a ti me confiou a providência divina, sempre me rege, guarde, governe e ilumina” (há certa confusão no tempo verbal, mas assim a tenho na cabeça). Celular? Vou ficar com o da minha filha e comprar outro para ela. Só preciso de um que fale e ouça, dispenso os milhares de aplicativos. Até o dia em que o cotidiano me obrigue aos aplicativos.