Como se fossem memórias

Hospital das Clínicas – Acervo Estadão

* Por Flávio Tiné

 

Desde o dia em que fiz 80 anos (12/1/2017) venho pensando em fazer um balanço não contábil do que foi a minha vida até agora. Não consegui ainda, provavelmente pela pouca importância dos acontecimentos que se sucederam desde a infância numa cidadezinha do interior até a aposentadoria em São Paulo, depois de sucessivos adiamentos pelo receio de perder ou diminuir rendimentos, bem como perder o contato com a agitação diária a que me acostumara desde a juventude.

De fato, desde os dez anos meu pai me empurraria para diferentes atividades – balconista, bilheteiro, datilógrafo, office boy – qualquer coisa que proporcionasse algum dinheiro para comprar meus próprios sapatos. Assim, quando fiz 18 anos, vi o serviço militar como saída honrosa para iniciar minha independência. Antes disso, me iniciara nas safadezas, fazendo serenatas ao luar, frequentando botecos e arvorando-me de rebelde sem causa. Na Aeronáutica, me beneficiaria da proximidade dos mecânicos, por ser almoxarife de peças de avião, para embarcar nos testes após revisões periódicas das aeronaves. Não contabilizei horas de voo, mas logo chegaria a brigadeiro se tivesse continuado na Base Aérea do Iburá.

Preferi rasantes. Virei jornalista, inicialmente no Jornal do Commercio, depois em Última Hora e na Abril, Estadão e outros jornais, e finalmente como assessor de imprensa. Foi no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP que vivenciei minha maior experiência, acompanhando e divulgando eventos médicos, bem como atendendo a jornalistas em todas as suas investidas contra ou a favor do hospital. Para tanto, tinha de mergulhar fundo nas questões médicas e driblar os coleguinhas quando eles atacavam a instituição. Muitas vezes tive de me fazer de morto-vivo, algo assim como um portador de Down, para evitar desdobramentos de consequências desagradáveis.

Ao fim de 21 anos de ininterruptas atividades – e põe ininterruptas nisso: sábados, domingos, feriados, dia, noite, madrugada – fui afastado pelo simples fato de continuar na ativa. Queriam as vagas dos aposentados, na suposição de que estavam apenas ocupando cadeiras. Não era o meu caso, assediado dia e noite pela demanda de notícias e acusado de assessor da imprensa (e não de imprensa).

Desde a internação de Tancredo Neves no Incor, que iniciara a tumultuada ascensão do HCFMUSP na fama, com minha discreta atuação junto a Antônio Brito, trabalharia com o objetivo de elevar o hospital “aos píncaros da glória”, sem buscar qualquer tipo de recompensa. Os poucos livros em que registrei minhas impressões foram elogiados pelos amigos, mas não receberam nenhum prêmio. Pudera, até bons escritores do mundo nunca foram premiados. Esse não é o problema. Pior é que foram escritos, revisados e editados por minha conta e risco. Mas nem os que amei ouviram meus gritos. Ninguém. De qualquer forma, até hoje me beneficio dos congressos médicos, inovações, descobertas científicas e demais eventos de que participei e divulguei.

Atribuo minha longevidade a esse contato direto com seringas e comprimidos que os especialistas me receitam. E à paciência que Deus e quem quer que seja injetaram em meu subconsciente. Finalmente, quando alguém me vê sarocoteando por aí e comenta “como você está bem pra sua idade” eu rebato: “Você não sabe da missa o terço” – seja lá o que isso significa.

 

* Flávio Tiné (flavio.tine@gmail.com e 11-3611-4951), ex-Abril, Estadão e Diário do Grande ABC, foi assessor de imprensa do Hospital das Clínicas de São Paulo durante 21 anos, e hoje atua como escritor e cronista do Jornal do Commercio de Recife e da revista Medicina Social de São Paulo.

1 comment

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  1. Rita Amorim

    Grande Tiné! Um ícone na história da assessoria de imprensa em saúde. Um grande prazer ter convivido profissionalmente com você e ainda ter a sorte das suas visitas periódicas.

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